segunda-feira, 1 de abril de 2013

Por que temos Tanto Medo da Inveja?

Nossa individualidade se desenvolve à medida em que construímos nossa identidade com o outro. Não há definição mais bela para a natureza humana! Nós nos tornamos indivíduos na identidade com os outros; só nos tornamos pessoas na comunhão com outras pessoas. Essa definição nos permite compreender que a essência mais profunda do homem é amorosa. Porém, essa essência tão bela também tem seu lado negro. Se formamos nossa individualidade na identidade com o outro, as diferenças entre o outro e nós mesmos podem fazer com que a carruagem do afeto se descarrilhe. A individualidade do outro pode significar para nós o rompimento de nossa identidade com ele e, consequentemente, uma ameaça à nossa própria individualidade. Quando nossa individualidade se encontra ameaçada pela individualidade do outro, as emoções que experimentamos diferem bastante do amor que caracteriza nossa comunhão com ele. E se a individualidade do outro for constituída por diferenças que, em nosso ponto de vista, o colocam em vantagem ou em posição superior à nossa, o resultado pode ser a inveja. O outro se torna alvo de nossa inveja quando ele realiza ou se torna próximo de realizar os ideais que nós mesmos gostaríamos de realizar, mas ainda não realizamos. Pois, quando o outro realiza os ideais que escolhemos como nossos, nós nos sentimos derrotados na corrida que, sem confessarmos, todos travamos com ele. Para mitigarmos nosso sentimento de inferioridade, o outro precisa perder seja lá o que ele tenha realizado. Ele precisa retroceder e se posicionar mais uma vez ao nosso lado - ou, se possível, bem atrás de nós - na corrida pelos nossos ideais. A inveja é o desejo de que isso aconteça.

Entre as emoções humanas, nenhuma é tão inconfessa como a inveja. A inveja é também nossa emoção mais odiada. É incrível como todas as mulheres, por exemplo, odeiam inveja e falsidade mas nenhuma delas é falsa ou invejosa... ou nenhuma delas tem a coragem de se confessar como tal. A inveja é ainda nossa emoção mais temida. Nem o ódio é tão temido quanto a inveja. O medo da inveja é tão grande que entra na esfera do misticismo. Algumas pessoas acreditam que a inveja alheia tem o poder de lhes causar magicamente algum mal. Porém, creio que há uma boa explicação para tudo isso. De todas as nossas emoções negativas, a inveja é que a menos faz sentido para os padrões de nossa racionalidade. Pois, a inveja não almeja nenhum benefício para o invejoso. O invejoso deseja que o outro perca alguma coisa sem que isso resulte necessariamente em algum benefício para ele próprio. Assim, dentro dos padrões de nossa racionalidade, a inveja parece injustificada. Somos capazes de dar muitas razões para odiar. O ódio pode ser justificado no mal que o outro nos fez ou que ele nos representa. Portanto, o ódio se volta contra o mal, e assim ele almeja o bem de quem odeia. Também somos capazes de dar muitas razões para a mágoa. A mágoa é a defesa contra o mal que o outro nos fez. Sua função é impedir que esse mal se repita. O ciúme está igualmente repleto de razões. Ainda que as razões do ciúme sejam imaginárias ou baseadas em suspeitas infundadas, mesmo assim são razões para se ter ciúme; razões que se resumem no medo de perder alguém que representa um grande bem para o ciumento. Por mais hipócritas que sejam todas essas justificativas, elas são plausíveis dentro de nossa forma de raciocinar. Mas, e a inveja? Que justificativa podemos dar para a inveja? Quando a inveja tem por alvo, por exemplo, um oponente direto dentro de uma empresa, ela pode ser chamada de ambição ou de espírito de competição, e encontrar assim uma justificativa. Mas, e quando ela tem por alvo alguém cujo sucesso não interfere em nenhum aspecto prático de nossa vida?

Não é fácil justificar a inveja dentro dos padrões de nossa racionalidade. Isso faz com que, entre todas as nossas emoções negativas, a inveja se pareça a mais irracional. Na condição de mais irracional, a inveja também é a mais temida de nossas emoções. E o temor do que é irracional também é irracional. Assim se explica todo o misticismo que envolve o medo da inveja. A aparente irracionalidade da inveja prova o quanto a racionalidade tosca de nosso dia-a-dia é inadequada para entendermos os motivos de nossas emoções. Pois, a inveja é apenas o caso extremo de nossa incapacidade de compreender adequadamente a dinâmica afetiva humana e suas motivações; incapacidade essa que atinge seu auge mais patético nas tentativas de lhe dar uma explicação científica em termos neuroquímicos ou nos padrões da teoria da evolução. Somos incapazes de explicar adequadamente nossas emoções porque não prestamos atenção nelas. Ainda achamos que correr atrás da realização formal de nossos ideais românticos e profissionais é mais importante que prestar atenção em nossas emoções. E nem ao menos nos damos conta quando a realização desses ideais contraria as próprias emoções que deveriam lhe motivar.

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Um comentário:

  1. to emocionado com teus textos.
    e com inveja de ti.
    quero ser assim qndo crescer...

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