segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Suicídio é o Assassinato do Outro

A maioria das pessoas gosta da vida, se esforça por gostar ou ao menos para aparentar gostar dela. Entretanto, mesmo para os mais convictos sobre o valor inestimável de estar vivo, a vida é cheia de frustrações. Mesmo nos maiores prazeres e na realização dos maiores sonhos a frustração está presente. E não poderia deixar de ser assim. Quando se busca a realização de nossa identidade num mundo que é diferente de nós, a realidade será sempre diferente de nossas expectativas sobre ela. Mesmo assim, o desejo de buscar a satisfação plena permanece vigoroso. O desejo de plena satisfação não significa nada além do desejo de viver plenamente, sem barreiras, sem frustrações. E uma vez que a vida ao mesmo tempo realiza e frustra a si mesma, o desejo de vivê-la plenamente vai se agarrar a ela e ao mesmo tempo se esforçar por tirá-la do caminho. O desejo de viver plenamente encontra na vida um obstáculo para a própria vida plena que ele almeja realizar. Dessa maneira, o desejo de morrer passa a ser um dos meios para a realização do desejo de viver plenamente.

Entretanto, o desejo de morrer também contradiz o desejo de viver. Por essa razão, nas pessoas convictas de amar a vida, o desejo de morrer é experimentado como medo de morrer. Quanto mais elas usam a convicção de seu amor pela vida para negar seu desejo de morrer, mais e mais suas frustrações se tornam para elas motivos de ansiedade, e a própria idéia da morte passa a envolver um pânico que elas dificilmente conseguem elaborar. E como as frustrações nunca deixam de existir, o desejo de morrer inconsciente nunca deixa de se exprimir na ansiedade que contamina toda a vida e no medo da morte que nunca lhes sai da cabeça. Dizem amar a vida, mas nunca param de pensar na morte. Assim, quando o desejo de morrer realmente é experimentado como desejo de morrer, a situação se inverte. As pessoas com tendências suicidas dizem amar a morte, mas nunca param de pensar na vida; nunca param de pensar na vida plena que gostariam de viver, mas não conseguem. Elas amam a morte porque a morte se lhes apresenta como a única possibilidade de vida; a morte se lhes apresenta como a única possibilidade de escapar de uma vida na qual a vida se tornou insustentável. E assim como nos amantes inveterados da vida o desejo inconsciente de morrer se manifesta como ansiedade, nos adoradores da morte a inconsciência de que a vida que eles querem abandonar é a mesma que desesperadamente desejam viver se manifesta como depressão ou na forma de uma personalidade decididamente melancólica.

Se o desejo de morrer é a expressão distorcida do desejo de viver, então o eu que deseja morrer deseja, na verdade, permanecer vivo; melhor, deseja eliminar do caminho os obstáculos que impedem sua plena realização. A identidade do eu busca sua realização no mundo que é diferente dele. O mundo é a identidade do eu; ‘eu’ e ‘mundo’ são idênticos. Mas, o mundo também é a diferença que impede a plena realização do eu. Consequentemente, o mundo é o obstáculo no caminho do eu. E uma vez que ‘eu’ e ‘mundo’ são idênticos, a eliminação do eu significa a destruição do mundo que o impede de ser plenamente ‘eu’. Todo suicida vive prisioneiro da fantasia de que sua morte causará o fim do mundo. E ele deseja o fim do mundo. Ele ao mesmo tempo possui o conhecimento de que seu suicídio não destruirá o mundo. E quanto maior a convicção com que ele se aferrar a esse conhecimento, maiores suas chances de conseguir se dissuadir da fantasia de destruir o mundo com o suicídio. O mundo de cada um de nós é representado pelas pessoas que nos cercam. Assim, o principal significado da fantasia de destruir o mundo pelo suicídio é o de assassinar o outro culpado de tantos males na busca do eu por si mesmo. O significado de assassinar o outro geralmente se exprime conscientemente na intenção do eu de lhe causar grande mal na forma de culpa ou remorso pelo seu suicídio. E nas formas dissuadidas dessa fantasia prevalece o entendimento de que esse mal pode sim ocorrer, mas apenas provisoriamente; que no fim de tudo, todos reencontrarão novamente um meio de continuar vivendo e que o único definitivamente morto será aquele que se suicidou para tentar matar todos os outros.

A morte faz parte da vida não apenas no sentido de um evento inevitável. A morte faz parte da vida no sentido de que o desejo de morrer faz parte do desejo de viver; parte essa que lhe é fundamental. A vida plenamente vivida só se encontra na harmonia entre os dois lados paradoxais da própria vida... E nada pode ser mais difícil para nossa consciência tão unilateral.

Daniel Grandinetti – Belo Horizonte
dgrs1977@gmail.com

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