segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Amor Não é Uma Obrigação

As pessoas costumam tratar o amor como obrigação, e isso lhes causa muitos conflitos. A moça acha seu namorado uma pessoa maravilhosa. Ele é atencioso e prestativo com ela, tudo aquilo que as mulheres esperam que um homem seja. Mas, ela não gosta dele; quer dizer, não gosta dele do jeito que se deve gostar de um namorado para ficar com ele. Aí, ela sofre com isso. Tenta se convencer de que gosta dele, e acaba caindo na dúvida. Não sabe se gosta ou se não gosta. Na verdade, ela saberia que não gosta se não se achasse obrigada a gostar dele. Ela inventou para si mesma o ideal do homem perfeito, se deixou convencer pelas ilusões do romantismo, e jamais parou para prestar atenção no fato de que o homem que a atrai não é necessariamente o tipo ideal. Nem sempre a beleza é atraente, nem sempre a feiúra é repugnante. Nem sempre amamos o belo e odiamos o feio. Quando a moça acredita em suas próprias fantasias românticas, ela se sente obrigada a gostar daquele que se encaixar nelas, e desconsidera o fato de que o seu desejo espera por coisa bem diferente.

Acontece também de as pessoas se envolverem com uns tipos que elas nunca consideraram ideais, e mesmo assim se sentirem obrigadas a gostar deles. Pode acontecer que a mãe e os amigos achem o namorado ou a namorada dos filhos pessoas lindas e sensacionais, e que eles acabem se sentindo culpados por não conseguirem ver aquilo que todo mundo enxerga. Será que há algum problema com eles? Por que eles não enxergam no próprio parceiro amoroso tudo de bom que os outros vêem? A resposta é óbvia: Não são eles que não enxergam, e sim os outros que olham de longe e acreditam enxergar melhor do que quem olha de perto. Só quem se relaciona intimamente com alguém pode conhecê-lo na intimidade. Mesmo assim, parece que não estamos muito preparados para sustentar nosso ponto de vista quando todo mundo ao nosso redor pensa diferente. E assim as pessoas passam a acreditar que o parceiro amoroso é a pessoa maravilhosa que todos acreditam ser, e que ele deve ser amado por isso.

A questão não é se o parceiro amoroso é de fato uma pessoa sensacional ou não. O problema é que mesmo entre duas pessoas sensacionais às vezes falta afinidade. E o amor é uma questão de afinidade. Não se deve amar aquele que é belo, sensacional ou maravilhoso; ama-se aquele com o qual se tem afinidade. E ama-se espontaneamente, sem qualquer sentimento de obrigação. É muito comum as pessoas chegarem ao psicólogo com dúvidas sobre se gostam ou não do parceiro amoroso. Se há a dúvida, então a resposta geralmente é negativa. Pois a presença da dúvida indica a presença do sentimento de obrigação; do sentimento de que se deve gostar daquela pessoa; do sentimento de que há com ela uma dívida de gratidão que deve ser paga na moeda do amor. O amor não é moeda de troca. Ou amamos ou não amamos. Quando há dúvida sobre se o amor está presente ou não, geralmente ele não está presente na forma que se espera ele tenha num romance. É possível que a dúvida revele outras formas de gostar daquela pessoa, mas dificilmente o gostar apropriado a um parceiro amoroso.

Piores são os casos em que a obrigação de amar faz o amor parecer maior do que realmente é. Pois, onde há o sentimento de obrigação há o dever; e onde há o descumprimento de um dever ao qual nos sentimos obrigados, há o sentimento de culpa. E quando não sabemos lidar com o sentimento de culpa, inevitavelmente aparecem as compensações. A compensação para aquele que acredita amar menos do que deveria é amar mais do que poderia; é anular-se no amor. Aquele que se anula no amor pode fazê-lo com prazer quando está apaixonado, ou com extremo sacrifício se não há paixão. Quando o sacrifício é acompanhado da paixão, o caso é menos grave. Pois a paixão é provisória, e um dia ou outro o sujeito recupera a consciência e pode, talvez, construir uma relação de amor verdadeiro. Pior é o caso de quem vive o sacrifício como sacrifício desde o início. Pois esse ai sempre conheceu, no fundo, sua fraude. E se não teve coragem de por um fim nela no começo, as chances de terminar com tudo depois que já estiver envolvido até o pescoço são mínimas.

Daniel Grandinetti – Belo Horizonte
dgrs1977@gmail.com

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