segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Doença Mais Grave do Mundo é a Normalidade

Algumas pessoas procuram o psicólogo por se sentirem extremamente incomodadas com o que pensam e o que sentem. Só depois de ficarem confortáveis elas conseguem revelar o conteúdo desses pensamentos e sentimentos, que é geralmente bastante inofensivo. O que se segue, já é esperado. Trata-se da clássica pergunta “Isso é normal?”. Ou então: “Sou louco por pensar desse jeito ou me sentir assim?”. Essas pessoas se sentem oprimidas por um padrão de normalidade ao qual não conseguem se adaptar. A pressão da normalidade, inicialmente exercida do exterior, é interiorizada, e passa a ser exercida pela própria pessoa sobre si mesma. Entretanto, o mais impressionante é o retorno da pressão interiorizada ao exterior: A pessoa que se sente tão oprimida pela normalidade é a mesma que também constrange aqueles que se desviam dela. A dificuldade que ela tem de aceitar seus próprios desvios é um reflexo da dificuldade de aceitar os desvios dos outros, e vice-versa.

A essência de nossa personalidade é um paradoxo que torna difícil escaparmos da pressão exercida pela normalidade. A identidade do eu se forma na identificação com o outro. Logo, a identidade do eu é o outro. O eu é o outro de si mesmo. Dito de outra forma, o eu é diferente de si mesmo. O outro representa tanto a identidade do eu quanto a diferença do eu consigo mesmo. Ele representa aquilo que o eu acredita dever ser, mas não é - ou acredita que não é. A mais grave conseqüência prática desse paradoxo é o medo de revelar ao outro o que realmente pensamos e sentimos. Consideramos nossos pensamentos e sentimentos inadequados ao padrão que o outro nos representa, e nos esforçamos por nos comportar frente ao outro da maneira que julgamos ser a mais adequada. Entretanto, é fundamental que o outro também não se desvie desse padrão, pois nossa identificação está vinculada ao padrão representado pelo outro, e os desvios entre uma coisa e outra podem colocar em risco a preservação de nossa própria identidade! Por isso, quem exerce a pressão da normalidade sobre si mesmo também a exercerá sobre os outros. Assim, a pressão da normalidade é exercida (1) do outro sobre o eu; (2) do eu sobre o próprio eu; (3) do eu sobre o outro; (4) do outro sobre o próprio outro.

A normalidade se fundamenta (1) no medo de revelarmos aos outros o que realmente somos e na (2) conseqüente expressão de um padrão de comportamento que não nos é totalmente autêntico. Nenhuma pessoa que se comporta dentro dos padrões normais se encaixa verdadeiramente nele. Numa de suas passagens mais citadas, Freud diz que “De perto, ninguém é normal”. E nem é preciso chegar perto demais de ninguém para perceber isso. Para o bom entendedor, a observação de que as pessoas constrangem umas as outras para que se enquadrem no padrão normal é suficiente para concluir que nenhuma delas se enquadra nesse mesmo padrão. Voltando à pessoa em psicoterapia, algumas delas são conscientes de estarem se esforçando pelo enquadramento num padrão de comportamento que lhes é inautêntico. São conscientes de que essa forma de viver não as faz feliz, e mesmo assim preferem essa vida ao desvio inofensivo de uma normalidade fictícia. Como é possível fugir da angustia nessas condições? A resposta é simples: Não é possível! Não é possível fugir da angustia quando a oportunidade de uma vida autêntica bate à nossa porta e nós a rejeitamos. A depressão e a ansiedade serão resultados inevitáveis. Se todas as pessoas ansiosas e deprimidas que se tornaram dependentes dos medicamentos mais avançados atualmente fossem analisadas por psicólogos competentes, em quantas a análise revelaria, como causa da depressão ou da ansiedade, o esforço extenuante de viver inautenticamente? Seria precipitado ou exagerado responder que esse esforço seria identificado em todas elas? Nem todas conduzem esse esforço consciente e voluntariamente, mas certamente todas experimentam a angustia de uma vida que nunca se realizou.

A normalidade é uma doença coletiva; a única doença da qual somos ao mesmo tempo as vítimas, o agente infectante e o agente transmissor. Com ela, envenenamos a nós e aos outros e barramos o acesso de todos a uma vida mais autêntica. Por essa razão, a normalidade é a doença mais grave do mundo.

Daniel Grandinetti – Belo Horizonte
dgrs1977@gmail.com

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