segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Quem Sonha Não Vive

Acredito que o psicólogo tem a função de criticar aquelas verdades fáceis, tão cheias de romantismo, nas quais nos apegamos tão facilmente, repetimos sem pensar aos quatro ventos, e que nos deixam tão distantes de uma vida autêntica. Entre elas, uma das mais fortes é a que preconiza o valor dos sonhos e a importância de nunca desistir deles. “Quem não sonha não vive”; “nunca deixe de sonhar”; “nunca desista de seus sonhos”. Quem nunca leu, ouviu, repetiu ou compartilhou algo do tipo como se isso fosse o supra-sumo das verdades da vida? 

Nossa sociedade é dependente de sonhos. É claro que a vida de um adulto exige que ele faça projetos e se preocupe minimamente com o futuro. Mas, essa preocupação um tanto quanto objetiva com o futuro não significa que as possibilidades futuras devam se tornar o sentido da nossa vida e nossa principal mola propulsora. Afinal de contas, se são os sonhos que dão sentido à vida, o que será de nós na velhice, quando já não houver tempo hábil e possibilidades de realizar sonho algum? Como resolveremos a questão do sentido da vida quando formos velhos? 

Só há um motivo para sonharmos tanto: A insatisfação com o que somos e temos no presente. Quem passa a vida inteira sonhando, emendando um projeto no outro, sem cessar de sonhar jamais, vive uma vida inteiramente insatisfeita. Nunca pára de sonhar para começar a viver. De que nos serviriam os sonhos se fôssemos realmente felizes no presente? No entanto, a pessoa que nunca pára de sonhar, que vive e transmite essa “filosofia dos sonhos”, está sempre em alto astral, sempre cultivando o “pensamento positivo”. São pessoas que se negam a enxergar o que lhes desagrada: Interpretam as perdas e os percalços como passos “necessários” para o sucesso e a conquista; a porta que se fecha como o prenúncio da abertura de duas janelas; o descer a ribanceira como a ocasião de acelerar para subir a colina. A pessoa que vive sonhando é vítima de um otimismo crônico que a impede de reconhecer e receber com naturalidade os pesares naturais da vida, e com isso acaba se tornando incapaz de perceber que a sua própria vida se transformou num profundo pesar. 

A pessoa que não pára de sonhar sofre de um otimismo crônico porque se tornou incapaz de receber com naturalidade os pesares inevitáveis da vida. A mola propulsora de seu otimismo é a ansiedade; ansiedade frente ao que ela não pode controlar no presente; ansiedade frente ao futuro que ela não pode assegurar. A ansiedade é o fogo que mantém seu balão voando, bem acima do chão da realidade, e em luta constante com a gravidade que o puxa para o abismo da depressão. Nossa sociedade sonhadora é também a que mais se deprime. Muitas pessoas não suportam o ar rarefeito das alturas do otimismo crônico, e se deprimem como pesos mortos nos abismos da realidade. 

Quanto mais alto for o vôo do otimismo crônico, menor será o fôlego para superar as adversidades. E quando não for mais possível negar a falta de ar da angustia, a depressão será o fim inevitável. O otimismo que deveria tornar a pessoa mais forte a fragiliza ainda mais. E a depressão que se queria evitar com ele acaba se tornando uma ameaça ainda mais real. A força necessária para superar adversidades e realizar sonhos nos é dada pela capacidade de vivermos despertos na realidade do agora. Quem vive sonhando jamais acorda para a vida, e é na vida desperta que os sonhos podem se tornar realidade. Portanto, paremos de sonhar e comecemos logo a viver. 

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