sábado, 24 de novembro de 2012

Por que Desejamos Ser Úteis?

Nossa sociedade vive a doença do utilitarismo. Só valorizamos o que pode ser útil. Ao nos depararmos com algo desconhecido, a primeira pergunta que fazemos é “Para que serve isso?”. Serventia e utilidade se tornaram os critérios fundamentais do valor que damos a alguma coisa. Aquilo que não serve para nada é dispensável, não tem sentido. Por isso, procuramos o sentido das coisas na sua utilidade. Porém, o que talvez esteja escapando à nossa compreensão é que só buscamos o sentido de alguma coisa na utilidade quando somos incapazes de compreender o seu sentido real. 

Segundo Aristóteles, a utilidade é um meio, não o fim. Talheres são úteis porque servem para comer, e nisso reside o seu valor. Entretanto, o que é mais importante: os talheres ou aquilo para que servem? É lógico que comer é mais importante que os talheres. Talheres são importantes apenas porque servem para comer. Semelhantemente, todas as coisas úteis são menos importantes do que aquelas para as quais elas servem. Assim, as coisas mais importantes são aquelas que não servem para nada. Essas são boas em si mesmas. 

Entre as coisas mais importantes, a mais importante de todas é a vida. Todas as coisas úteis devem sua utilidade em função de tornar nossa vida feliz. A vida deve ser boa em si mesma, pois não há nada mais importante do que ela. Mas, para que a vida seja boa em si mesma, é preciso encontrar nela o seu verdadeiro sentido, e isso não é tarefa fácil. E na dificuldade de encontrar para a vida um sentido autêntico, tentamos compensar a sua falta de sentido fornecendo a ela uma utilidade. A tão freqüente busca de uma utilidade para a vida é um sintoma do tanto de gente que vive uma vida sem sentido... e nem se dá conta disso! 

O sentido da coisa útil está numa coisa diferente dela mesma. O sentido do talher não é o talher, mas o comer. E assim é com tudo mais. Porém, como é possível dar uma utilidade à existência? A existência abarca tudo. Assim, a existência útil é útil em função de que? A existência útil só pode ser útil em função dela mesma. Por isso, as pessoas que buscam uma utilidade para a existência transformam sua vida num contínuo “fazer”. Elas estão sempre “fazendo alguma coisa”, estão sempre “produzindo”, estão sempre “ativas”. Mas, estão fazendo o que? produzindo o que? Não importa! O importante é fazer e produzir, não importa o que! O meio é mais importante que o fim. Para essas pessoas, a existência tem que ser útil em função de si mesma. Por isso, a existência precisa ser uma atividade contínua cuja função é única e exclusivamente... “fazer” o existir! Logo, sua existência não encontra sossego, não encontra repouso... não encontra paz! 

A vida não é útil em função de nada. A vida é boa em si mesma. Logo, o sentido da vida não pode ser dado pela sua utilidade. A vida não serve para nada. Ela não pode ser o meio de fazer ou produzir a própria vida. A vida é a finalidade da própria vida; a vida é um fim em si mesmo. Se a vida se transforma no meio de produzir a própria vida, seu sentido se perde. O sentido da vida só se encontra na quietude, no sossego, no silêncio. Mas, é justamente quando estão quietas que as pessoas percebem que a vida não serve para nada. E esse vazio, que deveria ser pleno de sentido, é experimentado como angustia. A angustia logo se transforma em ansiedade, e aí vem o pensamento “Tenho que me levantar e fazer alguma coisa!”. 

Nós desejamos ser úteis porque não aprendemos a viver e a deixar a vida estar. Não conseguimos fazer nossa existência se contentar consigo mesma; precisamos fazer com que ela se torne útil para alguma coisa; e, como esse “alguma coisa” é a própria existência, ficamos como cachorros loucos, correndo atrás do próprio rabo, usando a vida para “fazer” a própria vida. Seria muito mais fácil simplesmente viver! Mas, as coisas mais fáceis são as mais difíceis, e mais as simples as mais complicadas de se entender. 

Este texto é uma publicação original da página 'Psicologia no Cotidiano' no facebook. Curta a página ‘Psicologia no Cotidiano’ para receber automaticamente em seu perfil os novos textos assim que forem publicados. 

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