sábado, 10 de novembro de 2012

Por que As Pessoas Têm Tanta Curiosidade Mórbida?

Grande parte das pessoas sente prazer em ver cadáveres, saber e espalhar notícias de desastres. Enquanto isso, a outra parte se compraz em criticar e achar tudo isso ridículo. De onde vem nossa curiosidade mórbida? 

Para definir o que uma coisa é, precisamos compará-la com outras coisas semelhantes e diferentes. Assim, se houvesse apenas uma pessoa no mundo, e se ela jamais tivesse se relacionado com ninguém, ela não saberia definir o que é um ser humano. Mas, todos vivemos rodeados de pessoas, e temos ao nosso dispor muita gente para nos servir de comparação e para nos ajudar a definir o que é um ‘ser humano’. Nós definimos e entendemos nossa própria humanidade conhecendo outras pessoas e compreendendo, na comparação que fazemos entre a forma de existência delas e a nossa, o que vem a ser um ‘ser humano’ propriamente dito. Entretanto, não podemos viver dentro da pele de ninguém mais além da nossa. Do que se passa dentro da pele dos outros, fazemos apenas uma idéia. A compreensão que se resume a uma idéia é idealizada; trata-se de um ideal. O entendimento idealizado que fazemos da realidade dos outros, nós o usamos para definir nossa própria realidade. O ideal é o critério que define o real, e não temos outro além dele. Porém, este é um critério falho por princípio, pois o ideal é oposto ao real por definição. 

Dentro da nossa pele, vivemos uma realidade feita de carne e osso. Sofremos com nossa fraqueza, tememos a morte. Vivemos sempre em contato com a fragilidade humana que nos é própria, tanto a física quanto a emocional. Porém, a realidade humana das demais pessoas é idealizada por nós. Temos a tendência de considerar que a fragilidade que nos é própria está ausente nelas. É como se fôssemos a única pessoa de carne cercada por uma humanidade de semi-deuses. E todos nós contribuímos para que os outros formem de nós mesmos essa imagem. Todos se esforçam por esconder suas fraquezas. Todos se esforçam para passar aos outros a mesma imagem semi-divina que os outros também nos passam. 

Mas, existe uma fragilidade indisfarçável, e trata-se, justamente, da maior de todas. Ninguém consegue disfarçar a morte. Ninguém consegue passar aos outros a imagem de que “não está morto”. Quando a morte chega, ela aparece sem disfarces. Passamos a vida toda disfarçando nossa mísera mortalidade humana, e quando a morte chega, todos os disfarces caem por terra. Infelizmente, é apenas na morte que as pessoas revelam plenamente que também são feitas de carne e osso, como nós. 

A morte dos outros é a ocasião que a pessoa comum tem de rebaixar o ideal ao real; é a ocasião em que ela pode diminuir a distância entre a imagem idealizada que faz da realidade alheia e a imagem humanamente crua que faz da sua própria. É neste instante que ela percebe que o outro é feito de carne, como ela, e que a carne do outro também fenece e deixa de ser, como também a dela um dia vai deixar de ser. 

Porém, assim como há aquele que se compraz em rebaixar o ideal ao real, há aquele que se compraz em elevar o real ao ideal. Enquanto uns procuram no outro semi-divino a fragilidade e a mortalidade, outros procuram em si mesmos a força e a imortalidade do outro semi-divino. Para esses, a constatação de que o outro é mortal serve como um lembrete de que eles também são mortais, e isso é algo que eles prefeririam não ter que se lembrar jamais. Para essas pessoas, tudo o que se relaciona à morte é detestável, e a curiosidade mórbida dos outros é repugnante. Tanto aquele que cultiva a curiosidade mórbida quanto aquele que lhe sente repulsa estão em conflito com a sua pobre e frágil existência de carne e osso. E não há nada mais humano que isso.

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3 comentários:

  1. Dentro dessa discussão, eu fico imaginando também o papel da mídia atual na banalização da violência e da morte. Aqui na Bahia tem vários programas televisivos que passam no horário do almoço e que mostram cenas fortes de pessoas que são mortas (apenas colocando um efeito visual para "amenizar" a imagem) das mais variadas causas possíveis (geralmente pessoas das periferias urbanas); se não bastasse, os apresentadores desses programas se colocam como deuses da justiça e da verdade, reforçando preconceitos sociais e distorcendo o posicionamento ético que tais profissionais deveriam ter ... eu acredito que tudo isso reforça ainda mais a visão da morte como mero aspecto quantitativo e banal.

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  2. Estou escrevendo uma monografia de pós sobre a má influência da mídia no direito criminal, expondo as pessoas e as condenando antes mesmo de a sentença ser exarada... daí, na busca por respostas à disponibilização da mídia para notícias criminosas existe, de início, porque há demanda dessa programação. Então comecei a estudar mais porque o ser humano apresenta essa natureza de se atrair pelo curioso e o mórbido... Esse seu texto é muito mesmo interesssante e complementa algumas lacunas da ideia toda da mono. Parabéns e obrigado pelo texto!

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