sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Sofrimento que Não Encontra Palavras é Abafado Com Drogas

A população brasileira sempre sofreu de miseráveis condições materiais: Fome, doença, falta de habitação, morte prematura. Conseqüentemente, o brasileiro sempre deu muita importância ao sofrimento de origem material; àquele sofrimento que é visível aos olhos. Essa atitude se reflete na atitude política encontrada nas universidades brasileiras: O jovem estudante militante fala da eliminação da miséria e da diferença de classes como se isso bastasse para acabar com o sofrimento do mundo. Conseqüentemente, acredita-se que quem não passa por necessidades materiais não tem razão alguma para sofrer. Qualquer sofrimento que não seja por motivos materiais é simples “psicologismo”. Somente o sofrimento de ordem material é real.

Na verdade, há outra forma de sofrimento que o senso-comum reconhece como real: O sofrimento amoroso. O mesmo estudante que vai às ruas protestar contra a desigualdade social publica versos românticos no jornalzinho do DA de sua universidade. Nossa sociedade vive nos extremos do materialismo e do romantismo. Os constantes problemas econômicos do Brasil hipertrofiam aqui a ilusão de que os problemas reais são os materiais. Mas, o ‘materialismo do sofrimento’ existe, ao lado do ‘sofrimento romântico’, como as duas formas básicas de sofrimento que são aceitas no mundo ocidental como ‘reais’. Se você não sofre por causa da fome, da doença, da morte de pessoas próximas, por dificuldades financeiras ou por problemas de relacionamento amoroso - ou pela falta desses problemas - então você não tem motivos reais para sofrer. Mas, e o que dizer do sofrimento que não se enquadra em nenhum desses tópicos? Aposto que muitos dos que estão lendo esse artigo agora estão se perguntando: “Que motivos uma pessoa pode ter para sofrer senão os de origem romântica ou material? É até possível pensar em alguns, mas uma análise cuidadosa mostra que eles também são de origem ou romântica ou material.” 

Sim, é possível reduzir todos os problemas a motivos românticos ou materiais. Freud reduziu as causas de todos os nossos problemas à pulsão de auto-conservação e à pulsão sexual, mais tarde reconhecendo que a pulsão de auto-conservação também era sexual. Freud foi um homem muito além de seu tempo, e nos deixou uma teoria que até hoje não foi bem compreendida. Mas, ele também era um homem de seu próprio tempo, e sua teoria também mostra isso. Se por um lado a redução de todos os problemas a motivos românticos e materiais expande a nossa consciência, por outro ela limita o significado que é possível dar ao sofrimento. O sofrimento que não encontra o significado preciso nas palavras adequadas é experimentado como angustia, e a angustia é a via de acesso tanto à ansiedade quanto à depressão. 

As pessoas não sabem dizer por que sofrem. Elas ficam deprimidas sem saber por que, sofrem crises de ansiedade sem motivo consciente. Muitas delas levam uma vida aparentemente perfeita. Têm tudo do bom e do melhor, são bonitas, estão se relacionando e amando, e ainda assim são deprimidas ou ansiosas. Muitas delas estão cheias de explicações que remetem ao passado, às suas primeiras relações afetivas com os outros e com o mundo. Mas, não são capazes de encontrar as palavras certas para expressar o sentido profundo que o seu sofrimento tem para elas AGORA! Elas sofrem agora, na relação com o mundo em que vivem HOJE, mas não sabem dizer nada sobre isso. Sabem apenas explicar o sofrimento de hoje pelo sofrimento de ontem. No fim das contas, o sofrimento permanece sem explicação. 

O sofrimento que não adquire sentido nas palavras é abafado com medicação. O Brasil chegou ao topo do ranking nas vendas de antidepressivos e outros ansiolíticos. Isso exige uma reflexão profunda da classe médica que receita essas drogas como água, dos psicólogos e suas tentativas de explicar o sofrimento de hoje pelo sofrimento de ontem, deixando o próprio sofrimento sem explicação, e das pessoas em geral que estão sempre preferindo as soluções mais fáceis e as explicações mais convenientes ao invés de buscar a compreensão e o significado autêntico do seu sofrimento.

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2 comentários:

  1. E se encararmos o sofrimento como algo que faz parte da vida, que vem da exterioridade, da nossa relação com o mundo, e é inevitável? Se, ao invés de focarmos todas as nossas energias para tentar extinguí-lo, pudéssemos pensar de que forma ele pode contribuir para o nosso amadurecimento pessoal?
    Vivemos e repetimos a todo momento um discurso de que devemos procurar demonizar os nossos sofrimentos, como se eles unicamente fossem conseqüências de que há algo errado em nós e que devemos "consertar" … mas até que ponto podemos considerar essa interferência como algo necessário, obrigatório? Apenas quando a existência daquele indivíduo está sendo resumida apenas a potencialização dos seus sofrimentos? … enfim, muitas perguntas!

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    1. Rondinelli, eu já penso que o senso-comum se esforça por ver sempre o lado positivo do sofrimento, e se esforça justamente para ver nele a possibilidade de crescimento. Eu também acho que o sofrimento é uma coisa natural, e que não precisa ser demonizado. Mas, justamente por isso, ele deve ser encarado naturalmente como sofrimento, como um pesar natural da vida, e não como a possibilidade de uma coisa boa. O esforço em ver no sofrimento sempre um lado positivo demonstra a incapacidade de aceitar naturalmente os pesares inevitáveis da vida.

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