sábado, 24 de novembro de 2012

O Medo de Se Envolver é Proporcional ao Medo de Perder

Muito se fala do quanto os relacionamentos na atualidade são transitórios. Saudosistas de um passado recente relembram como os relacionamentos eram mais estáveis algum tempo atrás, talvez se esquecendo que a estabilidade de então não era necessariamente sinônima de felicidade. O que tem sido desconsiderado é que se alguns relacionamentos atuais são mais transitórios, outros ficaram mais sérios, e por vezes duram muito mais do que deveria durar um relacionamento saudável. 

Namoro hoje é coisa séria. Quando um casal chega a oficializar o namoro, isso significa que o relacionamento ficou sério, e o que se espera de um relacionamento sério é a estabilidade. A invenção da aliança de compromisso veio dar ao namoro um significado que somente o casamento tinha. Perdeu-se o sentido do namoro como um relacionamento que serve para conhecer melhor o parceiro. Na verdade, esse sentido não se perdeu de fato. Ele apenas foi acrescido de outro: Enquanto há algumas décadas atrás esse ‘conhecer o parceiro’ significava um relacionamento que podia ou acabar a qualquer momento ou durar muito tempo, agora, para se entrar nele, é preciso ter a garantia de que ele vá sim durar bastante tempo. 

Se não houver uma garantia de que o relacionamento será estável, a pessoa não se sente à vontade para se envolver. Algumas décadas atrás, essa garantia não existia; ela ia sendo gerada pelos rumos do relacionamento, e mesmo assim a pessoa não via empecilhos para se envolver. Ela se envolvia com o parceiro sem se preocupar demasiadamente com o futuro, e se o namoro viesse a terminar, ela estava livre para namorar novamente e se envolver de novo. É claro que eu estou generalizando. As pessoas nunca foram assim tão “bem resolvidas”. Mas, o princípio que estou discutindo era verdadeiro: Não havia garantia de estabilidade no namoro, e ainda assim as pessoas se envolviam nele, mesmo que viessem a sofrer depois. 

As pessoas hoje sentem mais medo de se envolver. Por isso, elas precisam de uma garantia, ou da ilusão de uma garantia. A aliança de compromisso é um dos símbolos dessa ilusão. Entretanto, as pessoas que sentem mais medo de se envolver são justamente aquelas que mais sentem medo de perder o parceiro depois que já estão envolvidas, mesmo que o relacionamento seja sofrível e infeliz. Conseqüentemente, existe nelas a tendência de segurar o parceiro e preservar o relacionamento a todo custo. O relacionamento só acaba quando um não consegue mais olhar na cara do outro. Ironicamente, a estabilidade simbolizada pela aliança acaba sendo conquistada, mas o seu preço é um sofrimento muito maior do que o sofrimento que se queria evitar. 

Quem não é livre para se envolver não é livre para se desprender daquilo em que se envolveu. Quem procura garantias para se envolver acaba transformando o envolvimento em dependência, e a dependência é fonte de muito mais sofrimento do que o sofrimento que se pretendia evitar com elas. Alguns relacionamentos de hoje são pueris e transitórios porque as pessoas não confiam mais em ninguém. Acreditam que existe nos outros uma tendência para abandoná-las. Mas, elas não confiam nos outros justamente porque não confiam na própria capacidade de superar o término de um relacionamento e partir para outro. E quem vive assim cheio de medos vai inevitavelmente projetá-los nos outros: “A ameaça vem dos outros, não de mim mesmo.” Por sua vez, alguns relacionamentos de hoje são longos e imaturos por serem baseados na dependência, não no envolvimento. Mesmo o namoro de poucos meses às vezes apresenta o desgaste de um casamento de décadas, e o casal ainda assim faz de tudo para preservá-lo, como se a aliança de compromisso tivesse sido forjada com sangue! A afetividade madura é aquela que é livre para se envolver e livre para deixar ir embora. Parece que nem a nossa geração e nem a geração de saudosistas do passado deu conta de compreender isso muito bem. 

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2 comentários:

  1. Antigamente sabia-se que não haveria opção (dissolver o casamento) e sem esta opção a obrigação de fazer dar certo - algumas vezes - funcionava.

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  2. "A afetividade madura é aquela que é livre para se envolver e livre para deixar ir embora"

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