terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Homem de Hoje é um 'Nada Megalomaníaco'

No eterno conflito entre teoria e prática, o mundo de hoje supervaloriza a prática. Nas seleções de emprego, exige-se que o candidato demonstre “pró-atividade”, “capacidade de trabalhar em grupo” e “liderança”. O mercado de trabalho está em busca de profissionais com curso técnico, aqueles que sabem melhor do que ninguém “como fazer” determinada função específica. Não há lugar para cabeças pensantes. Elas são teóricas demais. Nos consultórios de psicologia, os clientes chegam desejando saber “como fazer” para resolver seus problemas. Não estão interessados no processo de auto-conhecimento. É teórico demais. Eles buscam respostas práticas, e que sejam, de preferência, simples e rápidas, pois já marcaram um milhão de compromissos para depois da sessão.

Mas, o exagero sempre acaba na contradição, e o caso aqui não é diferente. Assim, vemos que as pessoas mais práticas dos dias atuais também são as mais teóricas. Elas possuem o conhecimento sobre práticas que extrapolam sua experiência de vida, e por isso se põem a teorizar sobre o “como fazer” coisas ou sobre o “como se deveria fazer” coisas das quais nada sabem. São teóricas porque seu conhecimento prático não é vivencial, é teórico. Aí, elas se colocam a opinar e a aconselhar sobre qualquer assunto que for posto em debate, já que as pessoas que mais opinam e aconselham são justamente as que menos sabem. Para tudo já têm um conselho e uma opinião formada. Na Psicologia, a urgência de conseguir resultados práticos nos fez entrar na era das terapias breves. O cliente traz um problema específico e o psicólogo, em no máximo 10 sessões, vai instruí-lo no “como fazer” para superá-lo. Não há tempo a perder. E o primeiro a supervalorizar a prática é o próprio psicólogo. Rejeita todas as teorias como “ficções explanatórias especulativas”. O único porto seguro é a ciência que nos informa objetivamente “como fazer” as coisas corretamente. Quanto mais jovem e inexperiente o psicólogo, maior sua tendência para crer que nos livros e da ciência ele poderá obter a compreensão que não soube extrair, por conta própria, da vida em si mesma. A ciência é a nova luz, o caminho, a verdade e a vida. 

Carl Gustav Jung escreveu que “As pessoas apenas racionais têm pouca influência; tudo nelas se resume ao discurso, e com discurso não se vai longe.” O conhecimento se transformou em informação. A informação circula livremente; todos têm acesso a ela. Logo, todos têm conhecimento sobre tudo, todos sabem “como fazer” qualquer coisa. As questões mais importantes são decididas em enquetes e pesquisas de opinião cujas únicas opções são um SIM ou um NÃO, um ser a FAVOR ou CONTRA. A própria vida se transformou numa prova de múltipla escolha em que a resposta padrão é o “chute”. Todos sabem de tudo, e ninguém é capaz de mudar nada. O indivíduo cheio de teorias práticas já aceita como verdade incondicional que ninguém sozinho é capaz de produzir nada. Apenas o trabalho em equipe, o trabalho em grupo é produtivo. A pessoa isolada não exerce mais influência alguma. A pessoa não vale mais nada. 

Paradoxalmente, a mesma pessoa que não vale nada e que está cheia até o bico de teorias práticas que não valem nada é a que mais cultiva a fé cega na sua força de vontade e no seu poder pessoal. O homem de hoje é um NADA megalomaníaco. Está tão vazio de si mesmo quanto está cheio de fé no poder de sua “pessoa”. Mas, o que esse homem pode fazer de concreto por si mesmo e pelo mundo em que vive? O que ele pode fazer a não ser vestir a camisa de sua empresa como se fosse uma segunda pele e usar seu poder pessoal para anular a si mesmo na busca da maior produtividade? Quão longe ele poderá ir munido apenas de um manancial de teorias práticas vazias e da crença na sua força de vontade? Que futuro nos reserva esse mundo?

Este texto é uma postagem original da página PSICOLOGIA NO COTIDIANO no facebook. Curta a página 'Psicologia no Cotidiano':

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