segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Não Há Mudança Sem Aceitação de Si Mesmo

Muitas pessoas procuram um psicólogo porque desejam mudar alguma coisa em si mesmas. Chegam insatisfeitas com o que são e com o que fazem, e esperam que o psicólogo ajude a transformá-las. E a mudança pretendida, apesar de viável, acaba se tornando um processo complicado devido à dificuldade que a pessoa em psicoterapia tem de entender uma verdade bastante paradoxal: Não é possível mudar a si mesmo sem aceitar a si mesmo. 

No entanto, essa verdade, apesar de paradoxal, é bastante óbvia: A pessoa que deseja mudar algo em si mesma não gosta do que é. Conseqüentemente, sua auto-estima é baixa. Ela deseja se sentir bem consigo. Mas, para isso, seria necessário que ela se aceitasse como é. As pessoas geralmente entendem com facilidade essa parte do raciocínio; sabem que para se sentir bem consigo mesmas precisam se aceitar como são; mas, colocam a essa aceitação uma condição: “Antes de me aceitar como sou, preciso mudar em mim mesma aquilo que me desagrada.” 

Há uma ilusão muito grande nessa forma de pensar. A pessoa que deseja mudar a si mesma pensa em seu próprio ‘eu’ como se ele fosse uma coisa ou um objeto que ela mesma poderia modificar. É como se ela fosse ao mesmo tempo o sujeito que age e o objeto que sofre a ação. Mas, o objeto que sofre a ação não existe; existe apenas o sujeito. Sujeito e objeto são, nesse caso, a mesma coisa. Quem tenta mudar a si mesmo tateia o ar; age sobre um objeto inexistente, e um objeto inexistente não pode ser modificado. Conseqüentemente, vai continuar sem realizar a mudança pretendida e vai continuar sem se aceitar como é. 

A pessoa que deseja se aceitar como é coloca para tanto uma condição: Realizar em si mesma algumas mudanças. Com isso, ela cai vítima de uma ilusão e de um paradoxo: Ela acredita na possibilidade de modificar um objeto que não existe, e quer aceitar a si mesma como é desde que ela se torne diferente do que é. O paradoxo a coloca numa sinuca de bico, e ela não consegue perceber isso porque está presa na ilusão de que é possível solucioná-la! 

A mudança não pode ser condição para a aceitação de si. A aceitação deve ocorrer incondicionalmente. E quando a aceitação ocorre, uma segunda ilusão se desfaz: A pessoa que deseja mudar a si mesma acredita que a mudança e a aceitação são duas ações diferentes. E quando a aceitação se realiza, ela finalmente compreende que a aceitação de si mesma já é a mudança pretendida por ela. Quem deseja deixar de ser tímido descobre que aceitar a própria timidez significa deixar de lado o constrangimento por ser tímido e, com isso... deixar de ser tímido! Quem deseja se tornar menos ciumento descobre que aceitar o próprio ciúme e parar de sofrer por causa dele significa, na verdade... deixar o ciúme de lado! Quem se sente sozinho e deseja fazer mais amigos ou encontrar um parceiro amoroso descobre que ao aceitar a própria solidão, perde o medo de ficar sozinho e que, perdendo o medo de ficar sozinho, pára de colocar ao redor de si aquelas defesas que, prevenindo-o de ser mais uma vez machucado ou abandonado, também o mantinham longe das pessoas e... sozinho! 

Expressões como ‘mudança’, ‘crescimento’ e ‘transformação’, quando aplicadas ao desenvolvido pessoal, são metafóricas e enganosas. Todas elas possuem um significado ligado à idéia de ‘movimento’; mas, quando consideradas literalmente, elas nos induzem justamente ao estado oposto, à estagnação. Não existe crescimento, mudança ou transformação. O amadurecimento ocorre apenas no conhecimento e na aceitação daquilo que já somos.

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Um comentário:

  1. VALEU. O SEU TEXTO É MUITO INTERESSANTE. DEUS TE CAPACITE, ILUMINE E ABENÇOE SEMPRE.

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