terça-feira, 13 de novembro de 2012

Não Existe Sofrimento Aqui e Agora

As causas do nosso sofrimento estão relacionadas ao futuro. Aquelas que identificamos no passado também são projetadas no futuro. A lembrança de um evento passado significado como perda é causa de dor hoje porque a perda do passado é sentida como falta no presente, e a falta presente é sempre acompanhada do desejo de que ela seja ressarcida ou superada no futuro, mesmo quando estamos cientes de que isso não será possível. Ainda que a perda seja definitiva, o desejo do ressarcimento permanece. Nesse caso, impossibilitados de desejar que o futuro seja diferente, desejamos que o passado tivesse sido outro. Mesmo assim, o desejo está ligado ao futuro: A um futuro que já passou e que não se tornou presente da maneira que gostaríamos. O desejo sempre aponta para o futuro, mesmo que se trate do desejo de que o passado tenha sido diferente; ele sempre aponta para um tempo que não existe. A diferença está em se ainda acreditamos que esse tempo possa chegar ou se já sabemos que a possibilidade desse tempo se realizar já passou e não existe mais. 

Além do desejo, a outra causa do sofrimento é o medo. E, assim como ele, o medo sempre aponta para o futuro. Se estivermos cara a cara com um leão faminto e trêmulos de pavor, nem por isso a causa do medo estará no presente. Não é o fato de estarmos cara a cara com um leão faminto que nos causa medo, mas a possibilidade real de que ele venha nos atacar no próximo instante. Não é o presente que nos dá medo; é o futuro. Além do mais, o que é o medo senão o desejo de que algo não aconteça? 

A única causa do sofrimento é o desejo, e o desejo aponta para um tempo que não existe: Para um passado que não se realizou e que permaneceu como futuro que não passou, para um presente diferente do atual e que permanece como futuro que não se presentificou, e para o futuro que nunca chega e que, por isso, é o futuro sempre futuro. Mas, no presente real, aqui e agora, não há sofrimento. É evidente que sempre experimentamos o sofrimento no presente, mas isso ocorre porque nosso pensamento está sempre preso a um tempo que não é o agora. Quando nos concentramos no instante presente e no lugar presente, descobrimos que o sofrimento pode estar em todo tempo e em todo lugar, menos aqui e agora. Por breves instantes, todos nós já conseguimos essa façanha. Quem nunca passou por um bebê na rua e sorriu para ele de corpo e alma, naturalmente? Quem nunca se deparou de repente com um espetáculo da natureza e se sentiu, mesmo que por um breve instante, totalmente em paz? São ocasiões em que nossa mente consegue estar onde nosso corpo está. São raras e breves ocasiões em que nosso pensamento não vaga por tempos e lugares diferentes do aqui e agora. São breves e raras ocasiões em que não há uma gota de sofrimento em nós. 

Os motivos que nos fazem sofrer estão num tempo que não existe. Portanto, as causas do sofrimento não existem. Tudo o que existe, existe aqui e agora, e aqui e agora não existe sofrimento. A Psicanálise nos diz que sofremos porque perdemos o objeto de nosso desejo há muito tempo, e que nosso destino é procurar indefinidamente, sem jamais encontrarmos, o objeto uma vez perdido. Eu também acho que o objeto nunca será encontrado; não porque a perda seja definitiva, mas sim porque ela jamais ocorreu. Se a perda nunca ocorreu, podemos cessar as buscas a aprender a viver aqui e agora. A chave da felicidade não está em buscar indefinidamente algo que jamais será encontrado, mas em cessar a busca pelo que não existe e aprender a viver com o que existe. 

Será essa uma tarefa fácil? Viver aqui e agora é a coisa mais simples. Entretanto, o problema das coisas mais simples é que só compreendemos sua simplicidade depois de as termos realizado. Para quem ainda não realizou a simplicidade das coisas mais simples, não há nada que pareça mais difícil. Por isso, é importante não se deixar iludir pela dificuldade aparente. Basta lembrar que as dificuldades também nunca estão presentes, mas sempre projetadas num tempo que não existe. Assim, elas também não existem.

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2 comentários:

  1. Tudo isso me faz lembrar algo que minha mente constantemente retoma: o medo de meus avós falecerem. Eu vivo com meus avós desde criança, os considero como meus legítimos pais; olhando pela ótica do cotidiano, por eles apresentarem idade mais avançada, constantemente me pego pensando em como iria sofrer se os perdesse, se eles morressem em breve, e outros pensamentos similares projetados no futuro. Tudo isso está baseado no medo da perda, em algo que ainda não se concretizou; e, analisando as suas colocações, vejo o quanto perdemos tempo focando em coisas que não aconteceram e deixamos de viver o presente, o agora. Há algumas semanas, quando me peguei pensando nisso, chamei minha vó para conversarmos, e disse a ela o quanto ela é importante na minha vida, e o quanto sou grato por tudo que eles já fizeram por mim, e que não quero esperar eles morrerem para poder expressar isso ... enfim, desculpe se prolonguei ou falei coisas desnecessárias, é apenas um relato pessoal e superficial que fortalece suas conclusões. Abraços.

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    1. Rondinelli, obrigado pelo seu depoimento! Fique à vontade para comentar o que e quanto quiser. Um abraço!

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