domingo, 4 de novembro de 2012

A Pior Solidão Está no Sentimento de Inferioridade

O facebook apenas imita a vida. Assim como no facebook as pessoas estão excessivamente preocupadas em passar aos seus contatos a imagem de que sua vida é cheia de sucesso, otimismo, amores e amigos, na vida real as pessoas também querem passar a mesma imagem. Quem nunca sentiu que sua vida era tremendamente sem graça depois de abrir o facebook e ver tantas fotos de casais apaixonados e baladas cheias de amigos do peito? São tantos os sorrisos... tantas as alegrias! Na vida real também acontece a mesma coisa. As pessoas ao nosso redor estão sempre sorrindo, estão sempre felizes. Invejamos até seus os problemas, pois elas os encaram com tamanha dose de otimismo e confiança no futuro que chegamos a indagar: “Poxa, deve ser tão bom ter essa certeza de que o futuro será maravilhoso! Por que não consigo ter a mesma certeza em relação ao meu?” 

Não é fácil viver cercado de pessoas tão perfeitas. Onde fica tudo aquilo que, de tão humano, não se encaixa nessa perfeição? Fica enterrado bem no fundo da alma, bem escondido de tudo e de todos. Na minha experiência como psicólogo, grande parte dos clientes chega até o consultório com uma imagem extremamente negativa de si mesmos. Não é raro o caso de eles procurarem o psicólogo por estarem sentindo medo de serem loucos ou coisa do tipo. Então, depois de se sentirem um pouco mais seguros, eles confessam que são incomodados por algumas inseguranças, pensamentos e desejos. Tudo o que eles pensam, desejam ou temem é muito comum, tudo absolutamente humano. Entretanto, eles trazem firme a convicção de que apenas eles é que pensam ou se sentem daquela maneira. Eles se sentem diferentes de todas as pessoas do mundo, diferente para pior, e por isso começam a pensar que são loucos ou que possuem problemas que os outros não têm. Nem de longe passa pela cabeça deles que as mesmas pessoas que, ao redor deles, vivem se esforçando por lhes passar aquela imagem de perfeição, também têm os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos que eles... só que fazem de tudo para escondê-los. 

O mais irônico é que, fora do consultório, esse cliente também se esforça por passar aos outros a imagem de que sua vida é perfeita, e de que ele também não pensa e não sente as coisas que acabou de confessar há pouco para o psicólogo. Ele também é parte do problema. E nem passa pela cabeça dele que a mesma solidão que ele sente na convivência com pessoas que se esforçam por passar a imagem de perfeição também é sentida, por essas mesmas pessoas, na companhia dele. 

Se o nosso lado ‘humano demasiado humano’ fosse compartilhado, o sentimento de inferioridade - originado da ilusão de sermos a única criatura imperfeita num mundo de divindades - e a conseqüente solidão que acompanha esse sentimento não existiriam. A pior solidão se encontra na ilusão de se estar sozinho na imperfeição. A tão aclamada alegria do povo brasileiro, que jamais perde o sorriso em meio a tantas dificuldades, é perfeitamente compreensível. Se você vive num ambiente em que todas as pessoas ao redor partilham as mesmas dificuldades que você, o peso delas é muito menor. Se todas as pessoas ao seu redor estão desempregadas, a responsabilidade de arrumar um emprego e a angustia de estar desempregado serão pequenas. O mais provável é que você se reúna com os amigos que estão na mesma condição e, numa roda de bar, componha um samba sobre o tema, em meio a muitos sorrisos. Agora, se você vive num ambiente em que todas as pessoas estão empregadas e prosperando, e só você está desempregado, o peso da responsabilidade e da angustia é muito maior, e apenas com muita dificuldade você fará graça com o assunto. 

O compartilhamento do ‘humano demasiado humano’ é o que nos torna iguais a todas as pessoas. E só há paz de espírito quando estamos realmente identificados com aqueles que nos rodeiam. 

Este texto é uma postagem da página ‘Psicologia no Cotidiano’ no facebook. Curta a página ‘Psicologia no Cotidiano’. 

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