segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Por que é Tão Difícil nos Sentirmos Livres?

Toda criança, frente aos limites e proibições impostos a ela por seus pais, já sonhou em crescer para poder fazer tudo o que quisesse (como se a idade adulta representasse a total liberdade). A maioria dos adolescentes, ao se deparar com um mundo dominado por restrições, leis e regras sociais, sonha com uma sociedade alternativa, onde “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”, como se uma sociedade sem leis representasse uma sociedade livre. Adultos alimentam sonhos e ambições profissionais que tem apenas o céu por limite, como se na conquista ilimitada do mundo eles pudessem se tornar completamente livres, e seu valor como indivíduo pudesse se realizar sem restrição alguma.
A realização individual não se encontra na ausência de limites. A vida sem limites não é livre, apenas desamparada. São os limites que nos amparam. Quando recebemos um abraço, os limites que o corpo de outra pessoa impõem ao nosso são os limites do nosso próprio corpo. Na consciência das limitações impostas pelo outro, realizamos a plena e aconchegante consciência de nós mesmos. Uma pessoa que nunca recebe um abraço jamais experimenta as restrições de outro corpo contra o seu, e por isso mesmo fica desamparada. Entretanto, as mesmas restrições que nos definem também definem o alcance de nossas ambições: Expandir, transcender, ultrapassar todos os limites, indefinidamente. O corpo aconchegante do outro que nos abraça é o limite que queremos transcender. Mas, todo o esforço de o apertarmos com os dois braços é inútil. Os limites jamais cedem; o que não significa que a experiência de tentar sempre ultrapassá-los não seja extremamente realizadora e digna de nossa mais sincera entrega. 

A criança que recebe a restrição de muitos limites sonha em viver sem eles; aquela que não recebe limite algum faz todas as pirraças para provocar sua imposição. Os limites não definem apenas aquilo que somos, mas aquilo que queremos ser. Por isso, transcendê-los não significa eliminá-los, mas reposicioná-los, reestruturá-los. Tolo é aquele que acredita na liberdade como ausência de limites. Tolo é aquele que acredita nos limites como impedimento da liberdade. Livre é aquele que não se deixa aprisionar por seus limites, mas que também não prescinde deles. Liberdade é a habilidade de flexibilizar os próprios limites; de respeitá-los e defendê-los quando necessário, de ultrapassá-los quando possível; jamais de derrubá-los ou eliminá-los. 

Aquele que vê os limites como barreiras à liberdade e que sonha com uma liberdade sem limites jamais vai se sentir livre. Pois, ainda que lhe fosse possível viver num mundo em que sua vontade tivesse livre curso, a simples falta de restrições à vontade representaria a ela o maior de todos os limites. Afinal contas, a vontade almeja simplesmente ir além de seus limites - sejam eles quais forem. E a vontade que não encontra limites para transcender é uma vontade impedida de agir, é uma vontade limitada ao extremo. 

Os que preservam a atitude adolescente por toda a vida, que interpretam toda forma de restrição do comportamento como uma afronta à liberdade, que acham que a única forma de viver é viver sem limites, e que seguem a premissa do “é proibido proibir” amam as restrições que tanto os cerceiam, adoram os limites que tanto criticam, veneram as proibições que tanto condenam. Para esses, é na afronta, na transgressão e na revolta que se encontra a mais absoluta realização de sua vontade. Um mundo em que não houvesse nada para afrontar, nada para transgredir, nada contra o que revoltar-se seria um mundo desprovido de sentido. É apenas na afronta, na transgressão e na revolta que essas pessoas se sentem plenamente livres. Quanto mais autoritário e proibitivo for o mundo em que elas vivem, mas regozijante será sua sensação de liberdade. 

Só nos sentimos livres quando somos limitados pelo mundo ao nosso redor. Ter consciência da liberdade é ter consciência de nossos limites. Para tanto, é preciso compreender que a liberdade só existe dentro de certas limitações. Nisto está a dificuldade, pois as pessoas em geral opõem ‘liberdade’ e ‘limites’. Assim, quem opõe os limites à liberdade só vai se sentir plenamente livre quanto mais duros forem os limites que lhe são impostos, e vice-versa. 

Este texto é cópia de uma postagem da página 'Psicologia no Cotidiano', no facebook. Entre e curta a página! 

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