sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Principal Inimigo da Psicologia São os Psicólogos

O pior inimigo da Psicologia são os psicólogos. Em nenhuma outra ciência ou disciplina encontramos profissionais contrários aos conceitos que lhe são peculiares. Não existem físicos que sejam contrários aos conceitos físicos e que alegam ser necessário que a Física se desenvolva a partir de conceitos não-físicos. Isso pareceria absurdo. Além de não haver razões que justifiquem o desenvolvimento de uma Física não-física, também seria bastante difícil imaginar a simples possibilidade de Física semelhante. O mesmo vale para a Química, a Biologia, a Sociologia, etc. Entretanto, desde a alegada fundação da Psicologia como ciência em 1879 por Wilhelm Wundt, sempre existiram psicólogos contrários a conceitos psicológicos e que alegam ser necessário à Psicologia ser não-psicológica. As principais alternativas propostas por tais psicólogos aos conceitos psicológicos são os biológicos e comportamentais, e os principais motivos alegados por eles para rejeitá-los são a sua imprecisão e a dificuldade de observá-los e mensurá-los.

Defensores da psicologia biológica sustentam uma visão de mundo que confunde ‘objetividade’ com ‘realidade’. O objetivo, ou seja, o relativo ao objeto, é o real. O subjetivo, relativo ao sujeito, é o fantasioso, excêntrico, pessoal. A Biologia nos apresenta uma perspectiva objetiva do homem, ou seja, uma perspectiva na qual o homem é conhecido desprovido daquilo que ele próprio é capaz de conhecer e experimentar apenas na privacidade de sua relação consigo mesmo. Em outros termos, a Biologia apresenta o homem desprovido de subjetividade. Para os entusiastas da objetividade, a subjetividade a contamina, comprometendo sua natureza absoluta com critérios relativos de verdade. Portanto, a subjetividade deve ser excluída da objetividade, e a objetividade deve ser limpa de toda subjetividade. A subjetividade só aparece como matéria de estudo biológico quando reduzida a termos biológicos. Pode-se dizer, inclusive, que o objetivo do estudo neurocientífico do homem é conseguir traduzir sua subjetividade em termos objetivos, ou seja, traduzir a subjetividade de forma a eliminá-la completamente da ciência. Nesta perspectiva pura, absoluta, realista e concreta, o homem é pretensamente apresentado naquilo que ele é, ou seja, ele é apresentado na sua objetividade.

Defensores da psicologia comportamental, ou behavioristas, também confundem ‘objetividade’ com ‘realidade’. Entretanto, eles tomam um caminho ligeiramente diferente. Para B. F Skinner, fundador do Behaviorismo Radical, ainda que o estudo da neurociência possa ser objetivo, processos neurológicos não podem ser observados no instante em que o comportamento ocorre. Isso torna o estudo desses processos inútil numa análise do comportamento. Assim, a explicação comportamental é buscada em suas condições iniciais, ou estímulos, e no histórico das conseqüências que por ventura o reforçaram ou o extinguiram. Se a subjetividade “objetiva” da neurociência é inútil na explicação do comportamento, mais ainda a subjetividade enquanto tal. Neste ponto, o behaviorista compartilha a visão do neurocientista, tomando explicações subjetivas como especulativas e infundadas. Para o Behaviorismo, a subjetividade também só entra na conta daquilo que deve ser explicado, não como o que explica o comportamento. Nesse sentido, ela é reduzida a termos comportamentais, ou reduzida ao efeito ou função de estímulos e contingências de reforço.

Colocar um rótulo na neurociência hoje é muito difícil, uma vez que existem neurocientistas de todas as tendências: Desde o neurocientista psicanalista, que busca uma interface entre Psicanálise e neurociência ao neurocientista eliminacionista, que considera toda forma de psicologia uma ficção e que prevê para o futuro próximo a eliminação do vocabulário mentalista ou psicológico e sua substituição pelo vocabulário neurocientífico, inclusive na vida diária. Porém, mesmo o neurocientista psicanalista, na medida em que é neurocientista, considera que a neurociência pode contribuir de alguma forma com a Psicanálise, ou que a neurociência é capaz de produzir certo saber que a Psicanálise sozinha não conseguiria.

O behaviorista, por sua vez, é mais uniforme nas suas posições. Ele considera que conceitos psicológicos devem ser explicados pela análise de variáveis comportamentais. Behavioristas são muito sensíveis à crítica de que o Behaviorismo desconsidera a subjetividade. Eles se unem um coro uníssono para responder que o Behaviorismo trata a subjetividade como comportamento, ou como parte daquilo que deve ser explicado. Fazem questão de não entender que a crítica se refere à desconsideração da subjetividade como parte da explicação, não como parte do que deve ser explicado. Toda explicação behaviorista se reduz à análise do contexto em que o comportamento ocorre e do histórico de suas conseqüências. A exclusão de variáveis subjetivas das explicações behavioristas é, inclusive, parte fundamental dos trunfos que o behaviorista acredita possuir contra as demais psicologias: Uma vez que o Behaviorismo descarta variáveis subjetivas como desnecessárias, explicações behavioristas seriam mais simples do que aquelas que delas fazem uso necessário. Assim, os behavioristas, não fornecendo aos críticos uma resposta adequada, e distorcendo o sentido das críticas que lhes são dirigidas, vêem sua linha de análise ser criticada sempre com as mesmas questões, encontrando nisso o ensejo para se fazerem de mal-compreendidos e para acusar os críticos de falta de conhecimento acerca do Behaviorismo.

Não costuma nos causar muito espanto a afirmativa de que conceitos psicológicos precisam ser explicados ou fundamentados por explicações biológicas. Nossa visão de mundo e cultura é bastante compatível com este tipo de posição. Frente ao incontestável fato de que o corpo morre e apodrece, a conveniência nos manda valorizar o sujeito, a mente e as emoções como os elementos da alma imortal, para assim assegurarmos a crença na continuidade da existência após seu aparente término. Mas, durante o tempo em que a “alma” está presa ao corpo, a mesma conveniência nos manda concebê-la como subjugada a ele, e à nossa mente como determinada por causas biológicas. Asseguramos assim a passividade no tratamento das questões relacionadas ao humor e à saúde mental em geral. Mas, quando a questão trata das melhores coisas da vida, como o amor e a paixão, novamente a conveniência manda rejeitar a perspectiva que reduz tudo isso a meras reações químicas, uma vez que na fantasia do amor eterno, a paixão transcende a efemeridade da vida na Terra. Nossa posição em relação ao valor da subjetividade sobre a objetividade é bastante contraditória e ditada pela conveniência. No espectro dessa contradição, o sujeito pode ser valorizado ou desvalorizado ao extremo, dependendo das circunstâncias. Assim, mesmo a absoluta desvalorização do neurocientista eliminacionista encontra em nossa cultura sua justificativa, e mais ainda a encontra aqueles que praticam alguma forma de dualismo, como o psicólogo que alia Psicologia e neurociência.

Ainda que o neurocientista seja psicólogo ou psicanalista, e que procure um lugar ao sol para os conceitos psicológicos, sua postura não faz jus a de um defensor da Psicologia. O que seria da Física e da validade dos conceitos físicos se seus praticantes buscassem para eles fundamentos em conceitos não-físicos? O que seria da Física se os físicos acreditassem que pesquisas em disciplinas não-físicas pudessem ajudar a compreender melhor os conceitos físicos?

É evidente que entre a Física, a Química e a Biologia existe uma interseção teórica. Entretanto, essa interseção é muito diferente da que se procura estabelecer entre Psicologia e Biologia. Quando um conceito químico ou físico é utilizado na Biologia, ele é utilizado na sua forma natural. Ele não é traduzido ou reduzido a uma denominação biológica. Um conceito físico ou químico aplicado à Biologia permanece físico ou químico, e uma vez aplicado ao campo biológico, a ele se ajusta perfeitamente, não alterando nem a sua natureza para o biológico e nem a natureza do campo biológico para o físico ou o químico. Ele assim se torna biofísico ou bioquímico. A interseção teórica entre as ciências físicas torna isso possível.

Na relação entre Psicologia e Biologia, essa interseção teórica não existe. Ela precisa ser inventada, e o processo de sua invenção é a redução inter-teórica. Em outros termos, um conceito psicológico só pode ser aplicado ao campo biológico caso ele se torne biológico. Ele pode até preservar sua nomenclatura psicológica, mas será fundamentado ou explicado por termos biológicos. Quando um conceito psicológico é aplicado ao campo biológico, sua natureza é alterada para o biológico; quando conceitos biológicos são aplicados ao campo psicológico, a natureza do campo é alterada para o biológico. Não existe psicologia biológica. A expressão ‘psicologia biológica’ é uma contradição nos próprios termos e representa uma junção sem sentido de palavras tal qual a expressão ‘quadrado circular’. Não existem quadrados circulares. Ou existem círculos ou quadrados, mas jamais um círculo quadrado ou um quadrado circular. Semelhantemente, ou existe a Psicologia ou a Biologia, jamais uma psicologia biológica ou uma biologia psicológica.

Defensores de uma interface entre Psicologia e Biologia por vezes levantam a bandeira do politicamente correto alegando que a busca deste diálogo compõe a tão bem-aventurada “multidisciplinaridade”, e que nenhuma disciplina sozinha dá conta do homem por inteiro. Entretanto, a multidisciplinaridade assim posta e definida trata da prática das profissões da saúde, enquanto nossa questão aqui é teórica. Por mais que a Psicologia sozinha não esgote as demandas do homem no campo da saúde, isso não significa que ela não possa - e não deva - se desenvolver como uma disciplina independente. Se por vezes pacientes em psicoterapia precisam ser encaminhados ao psiquiatra para tratamento psicofarmacológico, ou se a Psicologia ainda está longe de fornecer a todas as doenças a alternativa de um tratamento psicológico, isso não significa que os conceitos psicológicos não devam ser desenvolvidos qua psicológicos para adquirirem em seu conjunto a forma apropriada de uma Psicologia.

O psicólogo pode atuar em conjunto com o neurocientista no oferecimento de uma abordagem holística do homem, mas não existe possibilidade de a Psicologia e a neurociência estabelecerem um diálogo teórico. Qualquer tentativa de levar esse diálogo avante resultaria no esforço de reduzir a Psicologia à Biologia, ou no monólogo das ciências biológicas consigo mesmas. A necessidade de um diálogo teórico entre Psicologia e Biologia só se revelaria no caso de certas faculdades mentais serem biológicas. Mas, nem o homem e nem a sua mente se dividem em partes biológicas ou psicológicas. Psicologia e Biologia oferecem perspectivas epistemológicas distintas para o homem inteiro. O homem pode ser inteiramente estudado por um ponto de vista psicológico e um biológico, entre outros. ‘Cérebro’ é o nome que se dá à mente quando estudada numa perspectiva biológica; ‘mente’ é o nome que se dá ao cérebro quando estudado numa perspectiva psicológica.

As restrições dos behavioristas aos conceitos psicológicos estão intimamente ligadas à forma ingênua pela qual Skinner descreveu a relação entre sujeito e mundo. Skinner a traduziu na relação entre organismo e ambiente, ou entre ‘ambiente interno’ e ‘ambiente externo’. A premissa fundamental do Behaviorismo Radical alega que as manifestações comportamentais podem ser diretamente explicadas pelas condições do ambiente externo, do mundo, sem precisar passar pelas variáveis do ambiente interno, ou do organismo. Além disso, Skinner alegava que quando o comportamento é explicado por variáveis internas (neurocientíficas e psicológicas), as condições iniciais do comportamento e suas contingências de reforço deixam de ser analisadas, como se o psicólogo que assim procede estivesse “inventando explicações”, ou criando ‘ficções explanatórias’, terminologia utilizada pelo autor. Em suma, Skinner considerava que explicações subjetivas, sejam tais explicações postas em termos psicológicos ou biológicos, obscureciam a análise das verdadeiras e objetivas causas do comportamento.

A distinção que Skinner estabeleceu entre ambiente interno e ambiente externo implica a distinção entre atividade cerebral ou mental, por lado, e o ambiente mundano, do outro. Behavioristas geralmente professam a convicção sumamente ingênua de que a atividade cerebral ou mental sozinha não pode explicar nada, visto o cérebro ou a mente representarem uma estrutura que só é posta em atividade por estímulos. Behavioristas tratam os estímulos externos como realidades físicas, existentes objetivamente no mundo. Entretanto, a atividade cerebral ou mental é por si só perceptiva e sensitiva; estudá-la não significa nada mais que conhecer o ambiente mundano tal qual experimentado pelo sujeito. Estímulos não são realidades físicas; são elementos da experiência, e a experiência é sempre subjetiva - relativa ao sujeito que experimenta.

Teorias psicológicas descrevem e explicam o funcionamento da mente ou do sujeito. Mas, teorias psicológicas não tratam de um mundo à parte do ambiente externo. Muito pelo contrário: Elas explicam as relações do sujeito com o ambiente externo pelo ponto de vista do sujeito; ponto de vista que interessa à Psicologia. Assim, teorias psicológicas não ignoram as condições do mundo externo. Ao invés, são elas que dão sentido à relação causal ou funcional entre estímulos e histórico de reforçamentos, por um lado, e o comportamento, por outro.

A Psicanálise é considerada, em geral, a psicologia mais subjetiva ao nosso dispor. Porém, mesmo Freud e Lacan tratavam a perspectiva biológica do homem como uma ‘parte’ deste em relação com sua mente ou sua subjetividade. Para os autores, a parte biológica do homem por vezes funciona como o fundamento de funções psíquicas, por outras como o fundamento único de funções diversas. Essa sorte de dualismo ontológico (dualismo que considera o homem dividido numa parte biológica e noutra psicológica) ainda não abandonou a Psicologia. Mesmo a Psicologia mais desenvolvida em seus conceitos psicológicos é dualista, e ora busca ou fundamentá-los na Biologia ou reduzi-los a termos biológicos.

Quer se trate do psicólogo dualista, que busca o fundamento de conceitos psicológicos na Biologia, quer se trate do psicólogo comportamental ou behaviorista, que descarta os conceitos psicológicos como desnecessários à Psicologia, o fato é que os psicólogos são os primeiros a duvidar da pertinência e da substância daquilo que deveria ser seu objeto de estudo. A Psicologia não conta nem mesmo com a defesa dos próprios psicólogos. A submissão que ora se vê das práticas psicológicas em relação às práticas médicas está fortemente ligada ao descrédito com que o  psicólogo brinda os conceitos psicológicos e as explicações formadas com eles. Mesmo o psicólogo que tenta defender a Psicologia contra o descrédito a ela desferido pela opinião pública ou por outras profissões da saúde acaba prejudicando-a ainda mais. O psicólogo dualista ainda não entendeu qual o lugar que a Psicologia ocupa na explicação e no tratamento do homem. Ele acredita na divisão entre partes biológicas e psicológicas, e frente à demonstração de fatos “conclusivos” sobre a descoberta de causalidades biológicas para afecções psicológicas, encontra apenas duas alternativas: Ou abaixar a cabeça e reconhecer a primazia da Biologia sobre a Psicologia ou fincar o pé, cruzar os braços e negar peremptoriamente todas as evidências apresentadas, revelando assim todo o seu despreparo intelectual e profissional. O caso do psicólogo comportamental é ainda mais grave uma vez que a premissa fundamental do Behaviorismo Radical o obriga a caracterizar explicações biológicas como “internalistas” e assim a desconsiderá-las por princípio como desnecessárias, uma vez que ele, behaviorista, continua preso à distinção infundada entre ambiente interno e externo.

As fortes evidências apresentadas pela biologia do cérebro, ou neurociência, não podem simplesmente ser descartadas sob a alegação de desnecessárias. E também não podem ser combatidas pelo psicólogo que pretenda demonstrar a existência de causas psicológicas concorrentes mais importantes que elas. O psicólogo que age de uma maneira ou outra presta um desserviço à Psicologia. Que as causalidades neurocientíficas não são desnecessárias na explicação do comportamento fica muito claro quando a distinção infundada entre ambiente interno e externo é solucionada. Que as causalidades neurocientíficas não são concorrentes das psicológicas fica bastante claro, por sua vez, quando o dualismo ontológico é resolvido, e o psicólogo se torna capaz de compreender que elementos psíquicos e orgânicos não coexistem no homem, mas que Psicologia e Biologia apresentam perspectivas epistemológicas distintas para os mesmos fenômenos, e que a primazia, seja da Biologia, seja da Psicologia, não diz respeito à prevalência de um tipo de causalidade sobre o outro, mas das considerações sobre os efeitos positivos que o tratamento psicológico ou o tratamento médico podem produzir naquele caso.

Esta é a posição adequada que o saber psicológico deveria ocupar entre os diversos saberes que embasam as práticas de saúde. É em defesa deste lugar que o Psicólogo deveria levantar a voz em favor da Psicologia. Entretanto, o psicólogo só será capaz de tanto no dia em que a Psicologia for uma disciplina autêntica; uma disciplina constituída unicamente pelos conceitos adequados - os psicológicos - e que seja capaz de fornecer uma perspectiva completamente sua sobre o homem na sua inteireza.

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Um comentário:

  1. E aí, xará! Mais um texto interessante. Vamos por partes:

    "A expressão ‘psicologia biológica’ é uma contradição nos próprios termos e representa uma junção sem sentido de palavras tal qual a expressão ‘quadrado circular’."

    Depende do que estamos querendo chamar de "psicologia biológica" ou "biologia psicológica". Numa aula que tive na semana passada, vi um autor sugerindo que a psicobiologia é o ramo científico que estuda eventos biológicos a partir de teorias e métodos psicológicos. A Análise Biocomportamental, por exemplo, propõe-se a estudar os processos comportamentais (reforço, extinção, punição, operações estabelecedoras etc.) sob uma perspectiva biológica. Esse é o tipo de interdisciplinaridade que me agrada: descrever processos comportamentais/psicológicos neurobiologicamente. Como você disse, uma coisa não anula ou suplanta a outra; são perspectivas epistemológicas distintas, porém estudam os mesmos fenômenos.

    "Teorias psicológicas descrevem e explicam o funcionamento da mente ou do sujeito. Mas, teorias psicológicas não tratam de um mundo à parte do ambiente externo. Muito pelo contrário: Elas explicam as relações do sujeito com o ambiente externo pelo ponto de vista do sujeito; ponto de vista que interessa à Psicologia. Assim, teorias psicológicas não ignoram as condições do mundo externo. Ao invés, são elas que dão sentido à relação causal ou funcional entre estímulos e histórico de reforçamentos, por um lado, e o comportamento, por outro."

    Ok: teorias psicológicas podem levar em conta o ponto de vista do sujeito, mas podem TAMBÉM levar em conta o ponto de vista do cientista/profissional. Como estudar os mecanismos psicológicos/comportamentais de morcegos, pombos e, por que não, de um autista? Até podemos inferir como é que eles se comportam privadamente (teoria da mente), mas não precisamos ficar nos colocando no lugar deles para identificar e manipular variáveis ambientais de interesse. Se o ponto de vista do outro importa para compreendermos muitas coisas, o ponto de vista próprio do cientista é imprescindível para a compreensão do fenômeno-como-um-todo (relação do indivíduo com o mundo). (Aliás, o que o cientista imagina/infere ser o ponto de vista do outro é justamente mais um ponto de vista do próprio cientista!)

    "[...] quer se trate do psicólogo comportamental ou behaviorista, que descarta os conceitos psicológicos como desnecessários à Psicologia [...]"

    Desde que fique claro o que se está dizendo por inteligência, extroversão e memória, o behaviorista não os precisa descartar. A propósito, publiquei um texto recentemente que fala sobre o assunto: http://circulosavassi.blogspot.com.br/2012/08/termos-psicologicos-disposicionais-em.html?showComment=1346614275519#c4892435434905358843

    No mais, ok: não precisamos abaixar a cabeça para descrições bioquímicas do comportamento. Possuímos nosso(s) nível(eis) de análise próprios, que são independentes e complementares. A despeito disso, creio que as abordagens psicológicas/comportamentais que vão se firmar serão aquelas que melhor se comunicarem com os demais níveis de análise. E, neste ponto, não consigo deixar de pensar que, se o objeto de estudo da psicologia for simplesmente o comportamento privado, ou a subjetividade, as coisas vão se complicar para o nosso lado (ou já estão complicadas!). A inferência do ponto de vista do outro é importante para compreendermos melhor os fenômenos de que temos interesse, mas isso per se me parece insuficiente para fundamentar uma prática consistente/efetiva, que mereça reconhecimento/credibilidade. É por isso que eu prefiro pensar que um objeto de estudo melhor é o comportamento-como-um-todo, que envolve não só o comportamento privado (subjetividade), mas QUALQUER tipo de relação indivíduo-ambiente.

    Um abraço!

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