segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Situação do Psicólogo Clínico Brasileiro

Observações preliminares:

1) Este post é baseado na minha experiência profissional como psicólogo clínico em Belo Horizonte, e a estou generalizando para todo o Brasil. Caso alguém pense que esta generalização é indevida, peço desculpas desde já.

2) A situação das clínicas de Psicologia relatada aqui é a situação que encontrei naquelas em que trabalhei. Espero que haja muitas exceções à regra, não apenas em Belo Horizonte, mas em todo o Brasil. Novamente, se alguém considerar minha generalização indevida, peço desculpas de antemão.

A Psicologia Clínica no Brasil pede ajuda; ou melhor, parece que sua situação está precária há tanto tempo, que ela se esqueceu de que nada está bom. Está conformada, quieta, comemorando os 50 anos de sua profissionalização neste país. Entretanto, dificilmente poderíamos entender a Psicologia Clínica no Brasil como uma profissão. É assim que o dicionário Aurélio define a expressão:

Profissão sf. 1. Ato ou efeito de professar (4). 2. Atividade ou ocupação especializada, da qual se podem tirar os meios de subsistência; ofício.

O psicólogo clínico geralmente professa sua convicção nas técnicas e teorias que regem sua ocupação, que é bastante especializada. Nesse sentido, o exercício da Psicologia Clínica no Brasil é uma profissão. Mas, tirar sua própria subsistência através do exercício da clínica é uma tarefa herculínea para o psicólogo brasileiro. Poucos, em média, conseguem esse feito. Nesse sentido, a Psicologia Clínica brasileira é uma ocupação que mais se assemelha a um hobby do que a uma profissão. E, quando falo em hobby, não estou insinuando que o psicólogo exerce a clínica com pouca seriedade ou dedicação. Existem hobbies que exigem muito de tudo isso, além de profunda paixão. Aliás, é justamente nesse sentido que falo da clínica em Psicologia como um hobby: Uma ocupação mantida em grande parte pela paixão, mas que não retribui com o sustento àquele que a exerce.

O principal problema enfrentado pelo psicólogo clínico é a falta de interesse, por parte da sociedade, pelo serviço que ele deseja prestar. Ele estuda com a convicção de que está se preparando para dar às pessoas algo que elas precisam, só para mais tarde descobrir que nem sempre aquilo que as pessoas precisam (ou que nós pensamos que elas precisam) é aquilo que elas querem. A clínica em Psicologia exige do paciente um esforço que as pessoas em geral não estão dispostas a fazer - e muito menos a pagar por. Ela exige o confronto com problemas dos quais muitas vezes passamos a vida inteira fugindo, e dos quais pagaríamos de bom grado para continuar sem ter que enfrentar. Assim, o psicólogo descobre que enquanto há pouca demanda e interesse pelo serviço que ele está oferecendo, os consultórios dos psiquiatras vivem abarrotados de gente que a eles retornam uma, duas, três vezes, indefinidamente. Não se trata de uma questão de culpabilizar médicos, psiquiatras ou não. A Medicina está fazendo o papel dela, investindo na pesquisa de medicamentos que possuem sua importância. Se o uso desses medicamentos é exagerado, talvez esse exagero tenha dois lados: a) Os medicamentos fornecem às pessoas aquilo que elas querem, não necessariamente aquilo que elas precisam, ou seja, uma forma de aliviar o problema sem resolvê-lo; b) As pessoas não são educadas a tratar seus problemas de outra forma. Esta é uma questão cultural cuja responsabilidade não pode ser depositada numa única profissão, no sistema de saúde ou nos governantes. A cultura é sempre um produto da coletividade.

A faceta mais perigosa da falta de interesse da sociedade é a sua internalização pelo psicólogo clínico. O psicólogo aprende que ele é o principal interessado naquilo que ele faz, e aprende a tratar com naturalidade o fato de viver num mundo que não deseja particularmente aquilo que ele tem a oferecer. Há muitas conseqüências negativas disso tanto para o exercício da clínica quanto para o estabelecimento efetivo da Psicologia Clínica como profissão.

No exercício da clínica, o psicólogo enfrenta a falta de interesse de seus pacientes fazendo a eles todo tipo de concessão. O paciente é tratado na conta devida de um cliente. O psicólogo toma a falta de interesse do paciente como um problema seu, e que, portanto, deve ser resolvido pela “melhora” dos serviços prestados por ele. Entre essas possíveis melhoras se inclui a flexibilização de horários, a diminuição dos honorários, ligações pagas do próprio bolso ao paciente que falta para lhe perguntar suas razões e garantir sua presença na próxima sessão, e o que é pior: Intervenções clínicas cujo único propósito é manter o paciente ao mesmo tempo satisfeito e interessado. Em meio à angustia constante da possibilidade de perder seus pacientes, o psicólogo se esquece de que o interesse na melhora é, deve ou deveria ser do paciente, não dele, psicólogo. Se o paciente não colabora trazendo questões, problematizando e elaborando o que lhe é retornado, se começa a faltar ou a atrasar, então o psicólogo começa a fazer muito mais o tipo de um entertainer do que o tipo que lhe é próprio. Ele passa a dizer e a fazer muito mais aquilo que o paciente quer que ele diga e faça do que aquilo que ele, na sua consciência profissional, considera ser o necessário a ser dito e feito.

No efetivo estabelecimento da Psicologia Clínica como profissão, o psicólogo aprende a tomar como natural o fato de que ele é sempre o interessado em prestar seus serviços, jamais as clínicas em que ele trabalha. Não há empregos para psicólogos clínicos. Ao contrário da maioria das demais profissões de saúde, não há demanda suficiente por serviços de Psicologia Clínica que justifique a contratação de um psicólogo clínico. A profissão de psicólogo clínico é autônoma quase por definição. E não é apenas o psicólogo que toma com naturalidade o fato de não haver empregos para a profissão que exigiu dele tanto tempo, dinheiro e dedicação para se especializar. É o próprio Conselho Federal de Psicologia que toma isso como um fato natural e consumado. Num e-mail recebido por mim em resposta ao apelo que fiz, junto ao CFP, pelos psicólogos clínicos, consta o seguinte:

A psicologia clínica é a área que concentra a maior parte (mais de 50%) dos psicólogos, seja atuando em consultórios particulares (principalmente) seja em clínicas, conforme pesquisa realizada pelo IBOPE em 2004. Por ser uma atuação predominantemente de caráter autônomo, está sujeita às particularidades e vicissitudes de tal situação profissional no contexto social e econômico brasileiro. 

O CFP não apenas toma como natural o fato de a Psicologia Clínica ser uma profissão de caráter quase exclusivamente autônomo. Ele também reconhece implicitamente as dificuldades geradas por isso e lava inteiramente suas próprias mãos: “Infelizmente”, nos diz o CFP nas entrelinhas, “a precária situação profissional dos psicólogos clínicos está ligada à conjuntura econômica e social do Brasil. Não temos nada a ver com isso.” A falta de interesse da sociedade pela Psicologia Clínica se reflete na falta de interesse do próprio Conselho Federal de Psicologia pela situação profissional daqueles que ele deveria representar.

Frente à inexistência de empregos para psicólogos clínicos, o profissional que decide por essa área tem, como muito bem reconhece o CFP, duas possibilidades: Tentar ou o consultório particular ou as clínicas de Psicologia espalhadas por aí. Se ele não tiver uma fonte segura e constante de encaminhamentos de pacientes, a tarefa de manter um consultório particular se mostrará quase impossível. Restará a ele as clínicas de Psicologia. Nos contratos de serviço com elas, o psicólogo geralmente aluga seu espaço de trabalho e espera delas receber pacientes conveniados, em sua grande parte. Formalmente, o psicólogo não presta serviço algum à clínica; é a clínica que presta ao psicólogo seus serviços (o aluguel da sala), e por isso o psicólogo não tem direito de receber dela nada além do espaço que alugou. O encaminhamento de pacientes ao psicólogo pela clínica não faz parte do contrato. É quase uma “cortesia”. A clínica, por sua vez, recebe o pagamento fixo pelo aluguel, todo mês. Ao psicólogo não é dada qualquer garantia de que conseguirá retirar de seu trabalho pelo menos o necessário para pagar o aluguel. A situação é perversa porque, se por um lado o psicólogo está apenas alugando um espaço para trabalhar, por outro ele provavelmente não o faria se não fosse pela perspectiva de fazer sua cartela de pacientes com os encaminhamentos da clínica. O psicólogo que aluga seu espaço na clínica tem o direito de levar para dentro dela seus pacientes particulares. A clínica lhe aluga seu espaço para que ele assim proceda, e espera, por direito, receber o seu fixo no final do mês. Entretanto, o atrativo utilizado pelas clínicas é o encaminhamento de pacientes. É em vista da possibilidade de receber novos pacientes que o psicólogo paga à clínica para estar lá. Mas, a clínica não se responsabiliza caso os pacientes encaminhados sejam em número pequeno e insuficiente até para que o psicólogo honre seu contrato de aluguel. Mais do que isso: Para a clínica é quase indiferente se o psicólogo está produzindo, se está atendendo muito ou pouco. Independentemente disso, seu aluguel fixo está garantido. A clínica não tem interesse no trabalho do psicólogo; não tem interesse em vê-lo trabalhar mais e prosperar. E uma vez que as clínicas cobram do psicólogo aluguel pelo preço de mercado, e repassam a ele entre dez e vinte reais por consulta de paciente conveniado (geralmente, muito mais próximo dos dez do que dos 20 reais), o psicólogo precisa atender uma grande quantidade de pessoas, contando que elas não faltem a nenhuma sessão, somente para pagar o aluguel. O resultado é que a conta quase nunca fecha, e o psicólogo clínico paga para trabalhar.

O psicólogo clínico brasileiro, que aluga seu espaço nas clínicas de Psicologia, paga para trabalhar. Isso torna sua situação pior do que a de qualquer estagiário. Todo estagiário recebe para trabalhar. Ao final do mês, seu saldo é positivo, ainda que pequeno. Na verdade, até o trabalho escravo, por definição, é mais vantajoso que o trabalho do psicólogo clínico. O escravo não recebe nada, mas tampouco paga para trabalhar. O psicólogo paga um valor fixo à clínica todo mês, e não tem garantia alguma de receber nem o necessário para quitar esse fixo. E o pretexto que geralmente se escuta dos donos de clínicas é que em longo prazo esse é um negócio vantajoso para o psicólogo. A questão é: Como o psicólogo vai se manter e pagar o aluguel da clínica até que esse “longo prazo” se realize, se o que ele ganha com seu trabalho é menos do que paga à clínica para trabalhar? Nem todos os psicólogos têm recursos para manter esse “luxo” por um longo prazo. E a faceta mais perigosa dessa situação é que, mais uma vez, o psicólogo clínico internaliza esse discurso, repetindo-o e reproduzindo-o, dizendo por aí que em longo prazo essa situação lhe será vantajosa, achando tudo mui normal e benéfico para si mesmo. O psicólogo está duplamente sozinho: (1) Ele não é fiel nem à sua própria causa, repetindo o discurso dos que lhe exploram e (2) é representado por um conselho que explicitamente o deixa à sua própria sorte:

No caso de atuação em consultórios particulares, sozinho ou dividindo com mais psicólogos (sublocação), orienta-se que os profissionais busquem resguardar sua atuação profissional enquanto pessoa física, providenciando acordos entre si (verbais ou por escrito) e cumprindo suas obrigações legais, como a obtenção do alvará de localização e alvará sanitário da sala, a inscrição como profissional autônomo junto à Prefeitura e ao INSS, dentre outros.

No caso de atuação em clínicas de psicologia ou multiprofissionais, as quais devem então estar constituídas como Pessoa Jurídica, orienta-se que o psicólogo busque estabelecer acordos claros de prestação de serviços ou de utilização do espaço, para que seus direitos e deveres sejam resguardados. Caso necessário, o psicólogo pode buscar orientação junto ao Sindicato dos Psicólogos de Minas Gerais (contato: 3261-4909/5776).


O Conselho Federal de Psicologia explicitamente relega o profissional representado por ele à sua própria sorte quando ele quer estabelecer contrato com uma clínica. Ao invés de criar normas e propor leis que evitem a exploração do psicólogo, o CFP apenas o aconselha a “tomar cuidado”, lhe desejando boa sorte!

Se esse modelo de clínica de Psicologia ainda existe, então os psicólogos que nela atuam estão conseguindo se manter. Como isso é possível? A resposta a esse problema vai tocar em questões já levantadas: (1) A Psicologia Clínica é um hobby, não uma profissão; (2) o psicólogo não é fiel a si mesmo e não tem consciência de classe; (3) o psicólogo acredita que seu trabalho interessa apenas a ele mesmo, e a mais ninguém.

É fato que mais de 90% dos psicólogos brasileiros são mulheres. Mulheres são mais receptivas, estabelecem relações intimistas com mais facilidade, são mais acolhedoras, mais empáticas, compreensivas. Essas são qualidades que se encaixam perfeitamente no perfil ideal do psicólogo, e por essa razão a grande quantidade de mulheres psicólogas engrandece a profissão. Por outro, no entanto, o número elevado de psicólogas nos traz dificuldades. Mulheres casadas são geralmente sustentadas pelos maridos. E isso não é diferente no caso das psicólogas. Assim, as psicólogas não carregam sobre as costas o peso da necessidade de buscar sua subsistência. O pagamento da psicóloga geralmente fica todo com ela, ou então entra apenas como um complemento da renda do marido. As clínicas supracitadas atraem em grande parte psicólogas casadas, que não têm a preocupação direta com o ganho. São psicólogas em busca, acima de tudo, de satisfazer o ideal de produtividade. São pessoas em busca de sua auto-estima e de uma resposta para a sociedade que está sempre a lhes perguntar: “O que você faz?” A essa pergunta elas podem responder: “Sou psicóloga. Eu trabalho, eu produzo e adoro o que faço.” Os profissionais masculinos encontrados nessas clínicas são aqueles que em geral ainda vivem com os pais.

Para os psicólogos que tentam em vão extrair seu sustento da profissão, a Psicologia Clínica como hobby é uma imposição; para essas psicólogas, isso é quase indiferente. Se elas puderem ganhar dinheiro com a Psicologia, ótimo! Se não puderem, está tudo bem. Elas não vão deixar de casar, de ter filhos e de terem a vida “delas” por isso. Essas psicólogas trabalham pela sua auto-estima. O trabalho delas não tem importância significativa para o provimento do casal e não tem importância para a clínica em que trabalham. A clínica ganha muito mais com o aluguel que elas pagam do que com os parcos reais retirados dos repasses efetuados pelos planos de saúde referentes aos atendimentos realizados por elas. E caso um psicólogo, em busca de seu sustento, diga ‘não’ a uma dessas clínicas, elas podem contar com o ‘sim’ de toneladas de psicólogas casadas ou que moram com os pais, e que estão lá fora ávidas por um paliativo para sua baixa auto-estima. Caso os psicólogos clínicos constituíssem uma classe de profissionais que trabalha pelo sustento próprio, e por provedores de família, o diálogo com essas clínicas e com qualquer um que explore o trabalho do psicólogo seria posto em outros termos. A exploração não aconteceria com tamanha facilidade, mesmo com a omissão do CFP a respeito.

Não dá para mudar o fato de a Psicologia Clínica ser predominantemente exercida por mulheres. Mas, é possível mudar nossa atitude profissional. Em primeiro lugar, o psicólogo deve parar de fazer concessões abusivas aos seus pacientes. Deve se conscientizar que o principal interessado no tratamento e na melhora deve ser o próprio paciente. Uma postura mais austera no trato com o paciente não significa necessariamente uma postura menos acolhedora, empática ou receptiva. A disciplina é fundamental no exercício de qualquer atividade, e o psicólogo deve ser disciplinado e exigir do paciente que ele também seja. Essa mudança de postura certamente afastará dos consultórios aqueles pacientes mais relapsos e menos interessados, mas será sentida, por sua vez, como incentivo àqueles que querem se dedicar a um trabalho sério. Em segundo lugar, o psicólogo deve aprender a dizer não à exploração do seu trabalho. Não deve aceitar trabalhar em clínicas a não ser que seu saldo seja positivo no final do mês. Deve procurar fazer acordos em que a clínica ganhe proporcionalmente ao seu próprio ganho e à sua produtividade. Se o psicólogo produzir muito e ganhar muito, a clínica também ganhará. Se não produzir nada e não ganhar nada, a clínica nada ganhará. O psicólogo deve saber que a cada concessão abusiva sua a um paciente, e a cada sim dado àqueles que lhe exploram, toda a classe sai perdendo. Quem faz concessões excessivas não dá o valor devido ao seu próprio trabalho, e quem não valoriza seu próprio trabalho não pode cobrar a valorização dos outros. O psicólogo clínico está habituado a trabalhar sozinho em seu consultório. Por isso, ele se torna individualista. Acredita que o único interessado em seu trabalho é ele mesmo, e não percebe que o interesse pelo trabalho de seu colega também pode despertar o interesse dele pelo seu, e que uma classe de profissionais interessados no trabalho uns dos outros aprende a ter mais auto-estima, produz mais e desperta, naturalmente, o interesse das pessoas em geral. O psicólogo perde a consciência do valor daquilo que faz, e por isso se torna submisso e omisso.

Em relação ao nosso conselho, a primeira coisa que ele deve fazer é parar de justificar sua omissão nos respaldos da lei. Diz o e-mail que recebi do CFP:

O Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP/MG), autarquia federal integrante do Sistema Conselhos de Psicologia, criado pela Lei 5.766 de 20/12/71, tem como finalidade precípua “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de Psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe”.

Entretanto, a lei não impede que o CFP tenha atuação mais firme para auxiliar a Psicologia Clínica a se efetivar como profissão (coisa que ainda não aconteceu). O CFP pode criar medidas e propor leis que evitem a exploração do psicólogo e garantam que ele tenha um saldo positivo sempre que estiver prestando seus serviços em clínicas de Psicologia. Pode investir parte da anuidade paga por todo psicólogo em campanhas de conscientização da população sobre a importância do profissional psicólogo e os benefícios do serviço que ele pode prestar. Pode exigir que os planos de saúde paguem mais por cada consulta. Pode regulamentar melhor as clínicas escolas, que prestam serviços a preços simbólicos e atraem grande parcela da demanda em potencial do profissional formado. Pode trabalhar junto às empresas para mostrá-las a importância de ter psicólogos clínicos em seu quadro que trabalhem ao lado do profissional de RH. Não adianta nada o CFP lutar por carga horária de 30 horas de trabalho semanal se não há emprego para psicólogos. A quem essa medida atenderia? Não adianta nada o CFP mobilizar tanto empenho contra o ato médico e levantar a bandeira da “autonomia profissional” se a Psicóloga Clínica, na prática, funciona no Brasil como um hobby, não como uma profissão. O CFP precisa começar a enxergar a realidade. E a realidade é que ele arregimenta uma classe que pratica um hobby, não uma profissão. A autonomia profissional do psicólogo clínico na área da saúde passa muito longe do ato médico ou da conquista das 30 horas. Existem questões muito mais sérias e fundamentais concernentes a essa autonomia para as quais o CFP tem fechado os olhos.

O diretor de uma das clínicas em que trabalhei disse certa vez em comunicação pessoal que a Psicologia Clínica no Brasil deixou de ser um meio de vida para se tornar um modo de vida. Se quisermos mudar essa situação, cada um deverá fazer a sua parte. Muitas vezes, para termos a possibilidade de ganhar muito mais, precisamos ter a coragem de arriscar perder o pouco que temos. E o psicólogo clínico brasileiro tem sistematicamente se agarrado às suas migalhas, com medo de perder o pouco que tem. Nesses 50 anos de profissão houve pouquíssimos progressos - apesar das campanhas do CFP que dizem o contrário. Se continuarmos agarrados às nossas migalhas, jamais partilharemos o bolo das verdadeiras profissões.

Segue abaixo a íntegra do e-mail que recebi do CFP:

Prezado Daniel,

Em atendimento ao seu questionamento, esclarece-se o que se segue.

O Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP/MG), autarquia federal integrante do Sistema Conselhos de Psicologia, criado pela Lei 5.766 de 20/12/71, tem como finalidade precípua “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de Psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe”.

As ações deste Conselho visam sempre garantir o direito da população de obter serviços de psicologia com elevado padrão de qualidade e contribuir para o aperfeiçoamento técnico e ético da profissão, assim como busca a valorização da nossa profissão junto à sociedade.

A psicologia clínica é a área que concentra a maior parte (mais de 50%) dos psicólogos, seja atuando em consultórios particulares (principalmente) seja em clínicas, conforme pesquisa realizada pelo IBOPE em 2004. Por ser uma atuação predominantemente de caráter autônomo, está sujeita às particularidades e vicissitudes de tal situação profissional no contexto social e econômico brasileiro. 

No caso de atuação em consultórios particulares, sozinho ou dividindo com mais psicólogos (sublocação), orienta-se que os profissionais busquem resguardar sua atuação profissional enquanto pessoa física, providenciando acordos entre si (verbais ou por escrito) e cumprindo suas obrigações legais, como a obtenção do alvará de localização e alvará sanitário da sala, a inscrição como profissional autônomo junto à Prefeitura e ao INSS, dentre outros.

No caso de atuação em clínicas de psicologia ou multiprofissionais, as quais devem então estar constituídas como Pessoa Jurídica, orienta-se que o psicólogo busque estabelecer acordos claros de prestação de serviços ou de utilização do espaço, para que seus direitos e deveres sejam resguardados. Caso necessário, o psicólogo pode buscar orientação junto ao Sindicato dos Psicólogos de Minas Gerais (contato: 3261-4909/5776).

Acrescenta-se que quando há a constituição de Pessoa Jurídica, esta deve realizar inscrição no Conselho de Classe correspondente à atividade principal prestada, conforme Lei Federal n° 6839 de 1980. No caso de Clínica de Psicologia, deve realizar inscrição junto ao CRP, de acordo com Resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) n° 03/2007.

Ressalta-se que a psicologia tem ampliado seu campo de atuação para diversas áreas, sobretudo em políticas públicas, contribuindo com o reconhecimento e compromisso social da profissão, o que reflete positivamente para todos os profissionais. As entidades da psicologia devem ser fortalecidas com a participação ativa da categoria. O CRP-MG tem hoje em funcionamento várias Comissões e Grupos de Trabalho em diversas áreas da psicologia, abertas a participação dos psicólogos. Para mais informações, favor acessar o nosso site www.crpmg.org.br ou ligar no telefone 2138-6754.

O CRP-MG conta também com um plantão de orientação no caso de dúvidas referentes ao exercício profissional do psicólogo, com base na normatização profissional. Contato: Equipe Técnica, telefone 2138-6775.

Informa-se ainda que o Sistema Conselhos de Psicologia tem participado ativamente do movimento contra o Ato Médico, o que contribui com a valorização do profissional psicólogo perante outras categorias profissionais, assim como reforça entre os próprios psicólogos o seu valor e suas atribuições. Para mais informações, favor acessar o site do CFP www.pol.org.br.

À disposição para os esclarecimentos necessários.

Atenciosamente,

Carolina Medeiros Braga
Psicóloga Orientadora Fiscal CRP 04/25074
Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais - 4ª Região

Marta Elizabete de Souza
Conselheira Presidente
Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais - 4ª Região
XIII Plenário



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91 comentários:

  1. Daniel, li e reli tudo o que você escreveu...
    Sou psicóloga há 27 anos! Quando fiz vestibular ainda existia o " psicotécnico" para ver a aptidão ao cargo .... Vivo da psicologia. É O MEU SUSTENTO! Tenho um bom apartamento , carro popular, e conforto razoável _ tudo adquirido com o meu trabalho como psicóloga. Não trabalho em clínica!Ninguém põe preço no meu trabalho ou determina o que devo fazer. Sou autônoma por opção!!!! Não dependo do meu marido para nada!!!!!!!nada!!!!!Qdo me casei já tinha tudo comprado com meu dinheiro!
    Trabalhei como professora para pagar meus estudos , inclusive, fui sua professora no Zilah Frota mas tive que ir largando o magistério aos poucos pois o consultório me tomava muito tempo e era esta a minha profissão escolhida ... meu "ganha pão"!Entendo sua angústia... Não questiono sua competência pois tenho certeza que é enorme!
    Espero que você encontre uma solução ...Um grande abraço!

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    1. Eu sabia que essa parte da psicóloga casada iria gerar polêmica, tia Angela. A regra é válida para os tempos atuais, o que não significa que não possa haver exceções, principalmente entre quem se formou há mais tempo. Infelizmente, a situação retratada não é apenas a minha. É, penso eu, a situação atual da classe e de quem se formou nos últimos 15 anos.

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    2. Sim, a situação retratada não é apenas a do DANIEL, não é não!!! Reitero a posição dele!!! É só olhar para os lados!!! É geral e quase ninguém 'põe a boca no trombone', aliás, é lamentável esta posição de mudez eterna. Um abraço!

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    3. Ângela, queria trocar contato com vc para esclarecer algumas duvidas sobre essa carreira pode? Marquinhos Roberto meu face

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  2. Daniel , concordo (com muito pesar ) plenamente com o texto. Sou graduada em psicologia e nunca exerci a psicologia clínica exatamente pelos motivos explicitados acima : quando me formei já morava sozinha e era responsável por meu próprio sustento, coisa que seria impossível se eu escolhesse a clínica. Fato esse que não tenho orgulho e sempre lamentei pois dediquei quase 7 anos (quando mudei da FUMEC para UFMG perdi alguns semestres entre greves e matérias que tive que repetir)da minha vida estudando Psicologia. A saída ? Acabei migrando para outro campo do conhecimento onde minha formação contribui para pesquisa e onde tenho a possibilidade de sustentar minha família ( a Administração). Hoje sou professora de Marketing e pesquisadora do comportamento de consumo e se surgir a oportunidade de exercer Psicologia Clínica, vai ser um hobby, algo para colocar em prática os anos de estudos na faculdade porque meu sustento mesmo eu garanto dando aulas de marketing. Lamento esse quadro e o complemento afirmando que muitas escolhas são feitas não pelo desejo individual, mas pela projeção de carreira . Além de mim, presenciei vários colegas escolhendo outros ramos da Psicologia exatamente com a justificativa que precisavem garantir ao menos o próprio sustento e outros mudando de área. Parabéns pelo post e pela coragem de mostrar uma relaidade que muita gente prefere não enxergar.

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    1. Concordo colega , sou psicologo e passo pelas mesmas dificuldades citadas por você. Lamentavelmente o meu sonho de adolescência de ser um psicologo clinico esta perdendo força. Penso em estrategia para me sustentar e mais adiante voltar à clinica como "hobby" . Os ganho material lamentavelmente não coincide com o investimento que a gente faz . A dignidade de um profissional começa com um "bom pão na mesa".

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  3. Recomendo este texto: Freud e seu pai - Fechar os olhos

    http://giannell.sites.uol.com.br/Fecharosolhos.htm

    Política da psicanálise de acobertar os abusos, pois teria que acusar muitos pais. Então, remeter às fantasias e daí não se sai... Abraço
    Mirian Magia

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  4. Daniel sou estudante de psicologia e estou no 10º período, e tenho por opção e amor a área clínica. Me identifiquei com vários pontos do seu texto, compartilhei no facebook com meus colegas da faculdade e muitos deles se sentiram tocados por ele, de formas diferentes (e como você mesmo disse, teve parte que as meninas ficaram bravas com você, hehehe) Muito do que você vive é o que está acontecendo aos meus colegas de curso que acabaram de se formar e que provavelmente é o que acontecerá comigo. Mesmo assim, não desisto da área e farei de tudo para atuar nela e não apenas como um segundo emprego mas como minha profissão única e verdadeira. Muito legal o seu texto e o blog irei acompanhar por rss. Um abraço e continue lutando pela psicologia clínica!

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    1. Muito obrigado, Bruno! É muito legal ter esse feedback do pessoal que está se formando! Tenho um grupo de Psicologia no facebook no qual compartilhamos textos dos nossos blogs e outras matérias sobre Psicologia. Ele é aberto a todo psicólogo ou estudante. Se quiser fazer parte, você e seus amigos serão bem-vindos! Abraço!
      http://www.facebook.com/groups/psicologosdoface/

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  5. Caro Daniel, achei excelente seu texto, concordo em parte, mas há outros aspectos que mereceriam ser tocados. Por exemplo, no caso da Psicanálise, percebo que quem investe firmemente em uma análise pessoal, supervisão semanal e estudo dedicado, acab por colher bons frutos no consultório. Defendi uma tese sobre isso, chamada O trabalho do psicanalista: das dificuldades aos riscos do narcisismo profissional.
    Um grande abraço...
    LEANDRO ALVES RODRIGUES DOS SANTOS

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    1. Com certeza, Leandro. Mas, mesmo assim, há outras questões que dificultam bastante a formação de uma clientela em consultório particular.

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    2. Daniel, entendo as dificuldades práticas, me encontrei com elas quando comecei, mas notei que a dedicação à formação aliada a um trabalho honesto, bem embasado por uma análise pessoal (fiz dez anos de análise, duas vezes por semana e supervisão semanal por quase onze anos) e um estudo permanente, permitiram-me formar uma rede de encaminhamentos, não só dentro da comunidade psicanalítica, mas também entre os pacientes, que me ajudam a solidificar minha clínica. Também me pergunto porque certas pessoas, as vezes muito esforçadas, não tem a mesma facilidade ou talvez dificuldades incontornáveis. Realmente é um enigma....

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    3. Leandro, análise pessoal, supervisão, estudo permanente e trabalho honesto não são suficientes para se formar uma rede de encaminhamentos. O que forma uma rede de encaminhamentos é conhecer as pessoas certas, estabelecer contatos com as pessoas certas. Você pode fazer análise e supervisão por 50 anos, se dedicar com afinco e honestidade ao seu trabalho sem conseguir estabelecer esses contatos. E veja que, pelo seu depoimento, se você conseguiu manter uma análise duas vezes por semana e supervisão semanal desde o início, alguma fonte de renda alternativa você já tinha, ou alguém bancou isso pra você no início. Faça uma análise mais profunda da situação, e você certamente encontrará no seu caso as verdadeiras causas da formação da sua rede. Trabalho e estudo ajudam, mas sozinhos não levam a lugar algum. Principalmente nessa profissão, precisamos que algumas portas nos sejam abertas por terceiros. Gostamos de acreditar que vencemos com nosso esforço e dedicação, e é muito fácil e conveniente acreditar nisso. Infelizmente, raramente isso corresponde à realidade.

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    4. Meus caros, a verdade é que a psicologia, especificamente a clínica é pra pessoas 'ricas'. Ouvi isso na faculdade, mas como todo 'sonhador', me recusei a acreditar e por muito tempo fiquei nessa. No final das contas tive que ir pra área de RH, que não é só da psicologia, ralei bastante, pois não tinha quem me bancasse. Fui fazer análise muito tempo depois e só agora, quase 7 anos de formada estou tentando ir pra clínica. CONCORDO plenamente com o Daniel, que o conselho não defende em nada a 'profissionalização' da psicologia. Percebo que até os conselhos regionais não se preocupam com sua atuação, se está precisando de ajuda, será que eles oferecem a supervisão e a análise inicial dos recém formados? Infelizmente vem os boletos pra pagar, e se tem ou não tem, você paga do mesmo jeito. As faculdades querem vender o diploma, pois se formaram comigo muitas pessoas 'ricas' que nem assistir aulas iam, mas tinham dinheiro pra montar um lindo consultório e receber 'clientes' de seus 'padrinhos' de profissão. É triste, mas é a realidade.

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    5. Daniel, estou visitando todas pessoas que me ajudaram no inicio do meu percurso na clinica psicanalítica. Eu tinha uma profissão paralela que me ajudou nos primeiros 3 ou 4 anos do consultório ,mas rapidamente consegui estabilizar uma clientela minima que foi só crescendo até hoje. De fato fiquei pensando no que você escreveu, talvez você tenha razão... tem algo do próprio sujeito, creio que algo na linha de uma habilidade no jogo social, saber se mostrar e causar algo quando fala... Não sei ao certo...

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  6. Boa tarde Daniel!!
    Li seu texto e concordo com ele se você estiver falando de uma realidade vivida de 15 anos para cá, na qual se percebe a incompetência de profissionais, mas conhecendo profissionais brilhantes na área clínica.
    Sou aluna do 10° semestre e trabalho na clínica de Psicologia da faculdade em que estudo, e a 3 anos venho vivenciando o ultimo ano dos alunos e tendo contato com alunos recém formados, posso ver que muitos ainda não entendem qual é o verdadeiro significado desta profissão.
    Fico indignada com o descaso que tais alunos através de comportamentos e palavras definem esta profissão, me perguntando como será este profissional lá fora? Como eles irão ajudar na desmistificação da profissão do Psicólogo? Qual será sua contribuição para que a nossa classe possa ser reconhecida e possa fazer parte de um todo?
    Fico feliz quando ouço um aluno e outro falar que irão para área organizacional, tendo a visão que eles seriam mais um a ter uma profissão clínica exclusivamente para Hobby.
    Parabéns pela sua coragem em falar sobre o assunto, que deveria ser tratado com muito cuidado por todos.

    Odete

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    1. Obrigado, Odete. Alunos mal-formados, relapsos, desinteressados e profissionais recém-formados incompetentes não são privilégio da Psicologia, embora seja um fato que o aluno de Psicologia é particularmente pouco identificado com o que estuda. Mas, o brilhantismo por si só não é suficiente para se fazer uma carreira. É necessário fazer muita política, ter muitos conhecidos, muitos contatos, contar com a ajuda dos outros e também com a sorte. Eu só fui descobrir isso mais tarde, e da pior forma possível. Você ainda não se formou. Quando sair da faculdade vai compreender melhor essa situação.

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  7. Ótimo texto e que serve para pensar o estereótipo presente no imaginário popular a respeito do que é ser psicólogo, reforçado também pela prática acadêmica manifestada no discurso de muitos docentes e discentes, acerca do modelo idealizado do psicólogo clínico. Notei, depois de um certo tempo após formado (já são oito anos), que a idealização da psicologia clínica servia como uma seita, na qual o objetivo era formar seguidores de uma abordagem teórica/de uma personalidade, e nenhum compromisso com o avanço/progresso teórico da psicologia clínica. Repito sempre: a psicologia clínica não pode ser a limitadora da identidade do profissional da Psicologia. Complementaria o texto do blog apontando para o fato do quanto chama à atenção os próprios alunos de psicologia não comprarem aquilo que pretendem vender depois de formados. Destaque para o trecho "o psicólogo se esquece de que o interesse na melhora é, deve ou deveria ser do paciente, não dele, psicólogo..." Este trecho pode ser ampliado atualmente para a área da educação, na qual parece que cabe ao professor se preocupar com o (a falta) de interesse da maioria dos alunos quanto à própria formação. Correto Freud ao dizer as profissões do impossível: analisar, governar e educar.

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    1. Olá, Rogério. Eu também acho que a disputa entre as linhas teóricas se assemelha a uma disputa de seitas na qual o importante é se fazer prevalecer sobre as demais, não o verdadeiro avanço da Psicologia. Quer dizer, o profissional considera o avanço importante sim, desde que ele se dê através da linha defendida por ele. Os alunos são sim pouco identificados com o que estudam, e você lembrou muito bem o caso da educação, que realmente se assemelha bastante ao caso da psicologia clínica.

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    1. Sim, Ricardo. É uma situação bastante complexa e perversa. O máximo que podemos fazer é entender qual é a nossa parte nisso tudo e fazer o que é possível fazer, deixando como estão as coisas que não podemos mudar sozinhos.

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  9. Daniel parabenizo voce pelo texto também sou psicólogo aqui em Curitiba Paraná e muito do que vc relatou ai é de fato uma triste e lamentavel realidade. Te mado um forte abraço amigo tudo de bom e lembre-se, vc não esta só, assim como vc muitos de nós passamos por tudo o que vc postou ai. Danilo Balzon.

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  10. Nenhum texto ou "verdade" cobre todos os aspectos de uma profissão. O texto é interessante, mas assume algumas "verdades" que existem apenas na visão do articulista ou de pessoas com a mesma experiência negativa dele. Nenhuma profissão é exercida sem doação. Vejo o articulista como um profissional angustiado, sem perspectivas e buscando apoio para suas conclusões pessimistas. Uma supervisão ou mesmo uma terapia seria uma alternativa que o nosso articulista poderia considerar. Cito Nietzsche: “O homem indignado, ou quem está sempre dilacerando e rasgando a si mesmo (ou, em seu lugar, o mundo, Deus, a sociedade) com os próprios dentes, pode ser moralmente superior ao sátiro sorridente e satisfeito, mas em qualquer outro sentido ele é o caso mais comum, mais irrelevantem menos instrutivo. E ninguém mente tanto como o indignado.” (NIETZSCHE, 1992, p.34)

    Ricardo Portella.
    https://www.facebook.com/ricardoportellaa?ref=tn_tnmn

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    1. Você tem razão em vários pontos, Ricardo: 1) Nenhum texto cobre todos os aspectos de uma profissão; 2)Estou assumindo como verdades os aspectos da profissão de psicólogo clínico que correspondem à minha experiência; 3) Minha intenção ao publicar esse texto foi claramente a de buscar a afinidade com profissionais que vivem as mesmas dificuldades, uma vez que vejo nisso uma maneira de mobilizar a classe. Mas, você também está errado em tantos outros pontos. 1) Nunca me faltou doação. E se estou angustiado, é justamente pelo fato de minha doação até este ponto ter sido grande, e o retorno pequeno; 2) A perspectiva que vejo na Psicologia Clínica é realmente pequena, mas não estou, de forma geral, sem perspectiva alguma. Felizmente, ao longo dos anos também tenho investido na carreira acadêmica; 3) Não estou mentindo; 4) Você me sugere a supervisão e a terapia como se eu as nunca tivesse feito ou não as fizesse, e como se elas pudessem solucionar as questões culturais e políticas das quais eu tratei; e, finalmente, 5) Não estou angustiado neste sentido nietzschesco. Não estou revoltado e não estou dilacerado e nem dilacerando o mundo. Acho que foi você que tentou me dilacerar, ou melhor, escondeu-se atrás de Nietzsche para fazer isso. Não ficou claro pelo seu perfil se você trabalha com Psicologia ou não. Mas, pela sua insinuação de que minha condição se deve à falta de doação, levanto a hipótese de que você talvez não tenha alcançado o sucesso apenas com seu próprio esforço, ou apenas na base da "doação". É muito comum pessoas que se deram bem na vida com a ajuda de outras pessoas se sentirem angustiadas perto daquelas que ainda estão lutando sem tanto sucesso. Isso as faz lembrar que o esforço, a luta e a doação às vezes são ingratos, e que elas próprias não conseguiram o que têm apenas com sua doação, mas que tiveram oportunidades que nem todos têm ou tiveram. E quando a identidade delas não é forte o bastante, isso doí muito, pois elas passam a vida tentando crer que são o produto apenas do seu esforço e da sua doação. Frente a essa dor, racionalizam a situação, criticando os que não conseguiram o sucesso afirmando que lhes faltou doação e implicitamente explicando seu próprio sucesso pela doação que, segundo elas, faltou àqueles. Ninguém é apenas o produto de seu próprio esforço e doação. E, curiosamente, são justamente aqueles que mais facilidades tiveram na vida os que mais levantam a bandeira do "querer é poder", premissa-mor da filosofia de botequim. É por isso que, no extremo dos defensores dessa filosofia de botequim, temos filhinhos de papai matando mendigos nas ruas. E afirmo isso sem me esconder atrás de filósofo algum.

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    2. Prezado Daniel, de fato, você não me conhece. Fiz uma análise do seu texto e sou da opinião que juízos de valor não condizem com a condição de um bom psicólogo clínico. Caso você ainda não tenha ouvido falar em "Argumentum ad hominem", procure saber o que é. Não nos escondemos atrás de filósofos, nos apoiamos sobre os seus ombros...

      Acusar pessoas de sucesso de favorecimento não é próprio de pessaos que lutam. O senso comum por vezes é falho. Principalmente o que diz "Se ele ganhou, roubou ou foi favorecido; se eu ganhei fui competente. Se eu perdi, fui roubado, se ele perdeu, deve ter merecido". Normalmente, não deve ser o seu caso, as pessoas que assim pensam são as primeiras a achar que uma mulher só chega a algum lugar de "der para o chefe"... Puro preconceito e falta de respeito pelo esforço alheio.

      Caso você queira saber mais sobre mim, procure pelo meu nome na Internet, acesse o meu Lattes... Talvez você mude de opinião sobre os adjetivos que pensou para mim.

      Meu nome completo: Ricardo Portella de Aguiar.

      Não somos inimigos, apenas discordamos.

      Sucesso! Você escreve muitíssimo bem!

      Ricardo Portella.

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    3. Ricardo, agora não estou no consultório. Estou escrevendo para um blog no qual faço apontamentos críticos. E, não existe crítica sem juízo de valor. É um absurdo você emitir um juízo de valor sobre minha condição de psicólogo clínico apoiado no fato de eu emitir juízos de valor num blog. Ainda mais tendo sido você quem disse ser impróprio de um bom psicólogo clínico emitir juízos de valor. Contraditório, não acha?

      Sobre os argumentos ad hominem, ao invés de mostrar uma visão diferente dos fatos, você "discordou" do meu texto dizendo que sou angustiado, sem perspectiva, indignado, mentiroso, que precisava de terapia e supervisão, que me sentia moralmente superior ao sátiro... ufa! Entre outras coisas. Se você realmente discorda do meu texto, por que não exerce sua discordância de maneira construtiva, mostrando a mim e aos outros uma visão diferente dos fatos? Muitas vezes, não são as condições externas e mundanas que precisam ser modificadas, mas nossa visão sobre elas. Talvez, eu e os demais não estejamos conseguindo entender as coisas da melhor maneira, e uma mudança de perspectiva poderia nos ser muito útil.

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    4. Ricardo Portella, você é vil. Você ataca a pessoa e não a ideia. O caráter da mãe influência, mas não define o comportamento do filho. Uma ideia parida tem vida própria. Analise sua veracidade através de dados de realidade, não inferindo e ferindo o seu criador. Se você é psicólogo, você deve ser péssimo. Consegue fazer alguém se sentir pior até através de um comentário no blog.

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    5. Gostei da resposta do Daniel e amigo anônimo ao Ricardo. Seu texto Daniel é inquietante, provocador e necessário, principalmente ao exigir postura do CFP, que devem sim zelar pelo bom trabalho dos profissionais mas, deveriam de igual forma ter um zelo pela dignidade da classe. Vigiam demais e apoiam pouco. Se reduzissem em 50% o valor da anuidade já estariam ajudando, afinal de contas o que fazem com tanto dinheiro? Se exigissem melhor regulamentação da profissão como CORREM atrás da anuidade e do bom trabalho do profissional, o exercício da profissão seria respeitado e valorizado.
      Fonseca

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    6. Ricardo Portela desenvolve e defende sua idéia nas cuecas do pensador. Quando assim o faz, deixa uma dúvida desconcertante: Quem é você é o que é você? Um ser pensante ou o sumo de um livro expremido desesperadamente em um momento de busca? Obviamente não cabe a mim responder e sim, perguntar.

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  11. Daniel, muito corajoso e real o seu texto. Sou formada há 10 anos e até dezembro passado atuava na área organizacional. Cansei, pois nessa área, vc é muito mais, mil vezes mais, administrador (pelo menos essa foi a minha vivência). Hj estou em busca de uma reaproximação com as "teorias psicológicas" para sentir-me psicóloga. Crise de identidade! Apesar das dificuldades, acredito verdadeiramente q somos profissionais muito úteis a essa sociedade e seu mal-estar. Devido à essa crença, continuarei investindo. Invista na sua meta, mantenha o seu foco e atingirás o seu objetivo. Grande abraço!

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    1. Tereza, te desejo tudo de bom e muita boa sorte! Obrigado por suas palavras!

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  12. Caro Daniel
    sou de S. Paulo e também tenho uma visão crítica a respeito do Conselhos Regionai paulista e do CFP muito semelhante a sua. De fato, falta às entidades que representam a categoria uma defesa do trabalho do profissional. Também falta aos profissionais a valorização do próprio trabalho.
    A meu ver, a questão é ainda mais complexa porque vivemos em uma sociedade que não valoriza a SAÚDE, seja física ou mental. Veja a situação do sistema de saúde no país inteiro.
    Esses dias estava lembrando da música Ideologia, do Cazuza, especialmente dos versos "Eu vou pagar a conta do analista, pra nunca mais ter que saber quem eu sou".
    Você tem razão, as pessoas preferem continuar alienadas, inclusive, muitos de nós psicólogos.
    Acho que todos os profissionais da saúde deveriam ser mais unidos para reivindicar melhores condições de trabalhos tanto nas esferas públicas quanto nas privadas. Alguns problemas sociais que existem poderiam ser evitados ou atenuados se houvesse intervenção multidisciplinar (médicos, psicólogos, assistente social, terapeuta ocupacional etc) com o respaldo e incentivo do governo e da sociedade.
    Ah! Sou casada e não vivo da renda do meu marido, e seu comentário (nesse contexto) pareceu-me um pouco machista, embora tenha compreendido que você retratou a realidade que percebe, mas esse é apenas um detalhe do seu desabafo. Seus argumentos são pertinentes sim e espero que não se cale. Vou divulgar seu texto entre meus colegas de profissão, para que nós possamos refletir e exigir mais dos órgãos que nos representam e exigir de nós mesmos mais respeito pela nossa profissão! Boa sorte!
    Fátima

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    1. Oi, Fátima;
      Sim, eu também acho que muito poderia ser feito se os psicólogos fossem mais unidos e tivessem mais coragem de falar e debater sobre nossas dificuldades. E, desculpe sobre a parte sobre as psicólogas casadas, mas como eu falei no início, estou falando da minha experiência. Obrigado pelo apoio! Abraço!

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  13. Olá Daniel.

    Segunda-feira, dia 27 de agosto uma colega de trabalho muito entusiasmada, ao chegar me parabenizou: "Parabéns pelo seu dia!". Eu a retribuí com estranheza, "Parabéns pelo quê?" e ela disse "Pelo dia do Psicólogo!". Eu a agradeci sabia que era o Dia do Psicólogo, mas não me senti digno pelo reconhecimento. Tenho um cargo público razoável que não é da área da psicologia. No meu último ano de curso realizei todos os estágios com ênfase na área clínica, que é área que mais me atrai. Acredito ter atendido com dignidade meus pacientes como estagiário , eu dei o meu máximo, não faltei nas supervisões e nunca precisei cancelar uma sessão. Eu e meus pacientes sempre fomos pontuais. Gosto mais de questionamentos do que respostas: Por que um paciente sem condições financeiras não consegue se tratar dignamente nessa droga de país de política de "ideação social inclusiva"? Por que só a "classe burguesa" consegue pagar suas sessões? (oitenta, cem, cento e vinte reais a sessão). Os pobres, e eu me incluímos nessa classe ainda são tratados como os leprosos da história da loucura? Podem checar, o SUS tem um abastecimento grande de psicotrópicos para distribuir, por que o governo em vez de contratar mais psicólogos clínicos, preferem manter licitações com verdadeiros impérios de corporações farmacêuticas? Alguém já tentou fazer essa conta? Se já fez gostaria de saber, é mais caro comprar medicamentos e distribuir do que contratar um cara que estudou cinco anos ou mais para realmente tratar do sofrimento mental? Gostaria de terminar meu relato e desabafo com uma experiência que aconteceu nesse mesmo dia 27 de agosto, uma outra colega de trabalho me pediu desesperadamente para eu indicar um psicólogo para ela, ela tem noção do sofrimento psíquico dela e me falou humildemente "Sei que você é psicólogo, não posso desabafar com você porque você me conhece há um tempo, eu preciso falar com uma pessoa que não me conhece". Ou seja, ela sabe que sofre e sabe que um profissional da mente humana, que trata seu paciente com neutralidade pode ajudá-la. Pois bem, a psicóloga que indiquei pra ela atende numa clínica que cobra 70 reais a sessão. Entendo esse valor, pois a profissional precisa pagar a locação da sala e uma secretária, mas ainda sim impossível da minha colega pagar, assim como eu também se precisar da terapia. Rastreei os CAPS da região e a regra é a mesma, primeiro deve marcar uma consulta com o clínico geral de depois ela encaminhar para um psicólogo ou psiquiatra, que pode levar messes. Nesse meio tempo minha colega sofre. Eu sofro, porque somos tratados pelo governo como indigentes, leprosos, servimos apenas para ter um título de eleitor e ser obrigado a eleger um candidato partidário. Psicologia clínica na prática parece mesmo um hobby, mas não deveria porque as teorias psicológicas provam o contrário. O tratamento psicológico funciona e é nele que acredito.

    Rodrigo
    Cargo: Psicólogo Indigente

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    1. Obrigado pelo seu depoimento, Rodrigo! Minha intenção foi justamente a de falar a profissionais com experiências semelhantes à minha. Grande abraço!

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  14. Adoro contradições!
    O que tinha a ser dito, já o foi.
    Não chegaremos a um consenso, pois funcionamos diferente. Tenho uma visão otimista do mundo e você nem tanto. Além do mais, ser crítico não é sinônimo de ser amargo. Respeito a sua opinião e é só. Quanto aos adjetivos, posso ter me excedido, mas não usei todos os que você cita, os excedentes são frutos de uma leitura sua, quiça inconsciente, não do meu discurso. A visão diferente dos fatos é a seguinte: nem sempre as coisas ocorrem como você diz; suponho que a sua visão esteja distorcida pela sua experiência, que acredito seja negativa. Um bom livro (já batido, mas bom para quem está começando) é "Cartas a um jovem terapeuta". Leitura fácil, otimista e didática. Espero que você consiga superar seu pessimismo e que tenha muito sucesso como profissional. Você escreve muito bem, argumenta muito bem, nota-se que é educado e que teve mais oportunidades do que a maioria dos nossos sofridos compatriotas, embora afirme que não. Desculpe se fui rude, mas no debate, por respeito à inteligência alheia, não costumo ter pena do oponente. Um abraço!

    Convido você a entrar para o nosso grupo no FACE:
    https://www.facebook.com/#!/groups/psibrasil/

    Ricardo Portella.

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    1. Mas, veja só como são as coisas: Eu te peço uma visão diferente dos fatos e a única coisa que me diz é repetir que "nem sempre as coisas ocorrem como você diz" para em seguida voltar a usar um argumento ad hominem (o mesmo já usado antes) referindo-se à minha experiência ao invés de se referir a fatos. Em seguida, volta a me dar conselhos.

      Se você discorda do que eu digo, é redundância dizer que nem sempre a coisas acontecem como eu falo. Também é redundância dizer que meu relato é fruto de minha experiência. Eu mesmo digo isso no início do texto. Entretanto, o meu relato é sobre fatos. E insistir novamente no argumento ad hominem de que estou falando pela minha experiência, ao invés de rebater fatos com fatos diferentes ou com uma perspectiva diferente dos mesmos fatos é mais do que redundância, é simplesmente não dizer nada.

      Você não precisa ter "pena" do oponente. Precisa apenas aprender a debater.

      Eu também adoro contradições. Mas, há uma ENORME diferença entre amar as contradições e ser contraditório.

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    2. Daniel, viva com isso. Você fez um relato da sua experiência. Existem outras tantas experiências diferentes. Todos nós tivemos dificuldades, mas a visão pessimista não pode prevalecer. Conheço Engenheiros que optaram por outras atividades, Arquitetos que foram trabalhar com Informática, Psicólogos que fizeram Engenharia, pois não tinham vocação para a Psicologia. Quem sabe não seria essa a saída... Outra coisa, onde foi que você cursou Psicologia? Você é Psicólogo? Pelo que vi no seu perfil, você é Filósofo... Está correto isso? Se sim, podemos ter chegado ao âmago da questão! O conflito entre a filosofia e a psicologia está jogando você em um lugar onde as respostas devem ser conclusivas, onde tudo deve ser dito, onde a redundância não tem lugar, onde a análise dos fatos é a única forma de se ter uma discussão "proveitosa". Relaxe... Nem sempre temos que dizer tudo! Não sou obrigado a dizer a você o que você quer ouvir. Contente-se com isso, não fique ansioso. Vamos discutindo, como se estovéssemos em uma mesa de bar, tomando coca-cola. Como você mesmo disse, aqui é um Blog, não é uma tribuna nem um espaço terapêutico. O seu relato é ou não é fruto da sua experiência? Ou são fatos? Fiquei confuso...

      Fique calmo, não estamos em uma disputa. Ninguém aqui precisa ganhar nada...

      Um abraço.
      Ricardo Portella.

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    3. Ricardo, meu relato é baseado nos fatos da minha experiência. Existe experiência sem fatos? Existem fatos que estão além da experiência? Creio que não. Só tomamos conhecimento dos fatos pela nossa experiência. Sou formado em Psicologia (bacharel e título de psicólogo), bacharel e mestre em Filosofia, tentando o doutorado. Como já havia dito, eu invisto na carreira acadêmica.

      Não existe conflito entre Filosofia e Psicologia.

      A Filosofia não exige respostas conclusivas. Muito pelo contrário: Ela preza pelos questionamentos, coisa, aliás, que você não fez. Você já chegou fazendo afirmações conclusivas sobre meu estado de espírito e minhas intenções ao escrever o texto. Se, ao invés disso, você tivesse levantado algumas questões, como manda o bom fazer filosófico, já se teria produzido alguma coisa aqui.

      A Filosofia não exige que tudo deva ser dito. Muito pelo contrário, uma das premissas mais difundidas entre os filósofos é a de Wittgenstein: "Aquilo que não se pode dizer, deve-se calar." Ele quis dizer com isso que não devemos dizer nada sobre aquilo que não conhecemos ou não podemos conhecer.

      A redundância não tem lugar em lugar algum, nem na Psicologia, nem na Filosofia, a não ser quando a intenção é o furtar-se de questões filosóficas ou psicológicas.

      Não é a Filosofia que nos obriga a lidar com os fatos. A Filosofia sempre foi muito criticada justamente por não se pautar nos fatos, e por tecer argumentações sutis sobre aquilo que está fora do nosso conhecimento. Essas temáticas filosóficas constituem a 'metafísica'. Ainda há muitos filósofos metafísicos (Wittgenstein foi um crítico da metafísica). A exigência, nesse caso, de nos atermos aos fatos, se deve à circunstância de eu ter relatado os fatos da minha experiências, dos quais você diz discordar. E não há outra forma de você discordar de fatos a não ser por discordar que os fatos alegados sejam realmente fatos (o que te obriga, evidentemente, a apresentar aqueles que, em seu ponto de vista, são os verdadeiros fatos), ou por discordar que minha perspectiva sobre os fatos está equivocada (o que te obriga a apresentar a sua). Não somos obrigados a debater sobre fatos. Podemos debater argumentos metafísicos. Mas, uma vez que você discorda dos fatos apresentados, não há debate proveitoso a não ser que o debate se dê sobre fatos.

      Você não é obrigado a dizer nada. Estou tentando te mostrar que se você não fundamentar sua discordância com fatos, no caso em questão sua discordância ficará sem fundamento. A estratégia de tentar fundamentá-la em argumentos ad hominem não é válida aqui.

      Abraços

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    4. Daniel,
      fato decorre da experiência, concordo. Mas, não basta a experiência de um para termos uma teoria. Isso você, como mestre, já sabe. Não discordo do seu ponto de vista. Apenas acho que ele está distorcido pela sua experiência negativa. Seus argumentos estão cobertos de mágoa e de pessimismo. Foi isso que eu disse. Não quero debater metafísica, pois não sou especialista no assunto. Os fatos que você apresenta são equivalentes aos meus, você,assim como eu, não tem um levantamento de dados sobre o que fala. Sua argumentação está baseada em sua experiência pessoal e não em dados coletados. Se a sua fonte (experiência pessoal) é suficiente para suportar a sua tese, a minha (também experiência pessoal) é suficiente para discordar da sua tese. Resumindo, nem eu nem você podemos garantir que estamos certos. logo, você pode estar errado, assim como eu.

      Obrigado pela oportunidade de debate. Não são muitas as pessoas que se dão a esse trabalho com tanta educação.

      Um abraço!
      Ricardo Portella.

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    5. Também agradeço, Ricardo. Abraço.

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    6. Ricardo, para quem está somente 'relaxado' debatendo, voce escreve muito..
      Será que aquelas indicações de que o Daniel deveria fazer análise, insistentes e repetidas, tinham outro endereço?

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    7. O colega Ricardo deveria chegar menos pretensioso. Chega todo pomposo prescrevendo tratamentos e se julgando superior tentando denegrir um texto que levanta várias questões interessantes simplesmente por narcisismo, por inveja. Colega, você não precisa usar uma máscara de que está atacando o Daniel porque você é positivo e superior, suas mensagens nas entrelinhas deixam claro a criança egoísta que você é por baixo dela.

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  15. Oi, Daniel
    De modo geral, estou de acordo com o que você escreveu, mas acho que algumas ressalvas merecem ser analisadas. Por exemplo, o CRP-01 teve duas iniciativas interessantes ultimamente: a primeira foi uma parceria com a Qualicorp para oferecer aos psicólogos planos de saúde abaixo do valor de mercado, a outra foi o curso de laudos e pareceres, já na segunda edição, a um valor módico. Entretanto, isso ainda é pouco perto do que é preciso fazer. Concordo com você que a relação de sublocação é quase sempre perversa, marginal e indigna. Pretendo escrever um texto que comente melhor o seu, pois são muitos os pontos sobre os quais gostaria de discutir.
    Parabéns!
    Um abraço,
    Vladimir

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    1. Olá, Vladimir!

      O CRP-04 também tem parceria com a Unimed-BH, e também oferece alguns cursos. Mas, os pontos principais do meu argumento dizem respeito à falta de atuação na defesa da psicologia clínica como profissão. Abraço!

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  16. Olá Daniel;
    São justamente essas discussões que sinto falta na psicologia!
    Parece que os psicólogos clínicos não podem se comunicar, falar de sua experiência, de estratégias, por que se não, outros psicólogos "pegarão" seus pacientes.
    Pelo menos é essa impressão que eu tenho!
    Enquanto a odontologia existe sites, blogs específicos para atuação em consultórios particulares, nós, psicólogos ficamos escondidos nas nossas clínicas, e tenho impressão que esperando o paciente bater á porta.
    Atuo na clínica há quase 3 anos, realmente, como seu texto disse, não preciso necessariamente dess renda, mas até o momento! Me formei jovem, mas quero a minha independência financeira, e logo, mas claro, já adquirir algumas coisas nesse tempo, com a renda exclusiva da clínica.
    Conversando com outros profissionais, percebo que se leva um tempo realmente para se estabelecer, alguns dizem cerca de 3 a 5 anos, aí claro, muitos desistem; foi assim com muitos colegas, alguns até subloquei minha clínica, mas logo desistiram.
    Acho que são muitas questões envolvidas no texto, algumas tragas por você e outras que nós psicólogos, precisamos "acordar"!
    O consultório é uma empresa, ao mesmo tempo que o paciente é O PACIENTE; por isso precisa de gestão, organização e planejamento! Percebo a dificuldade de trabalhar com novos serviços, trablhar com propaganda, respeitando nosso código de ética; eu pelo menos nunca ouvi falar dessas coisas na faculdade.
    Precisamos romper com algumas coisas, pois o mercado de trabalho também mudou.
    Mas considero que o mais importante é percebermos a nossa realidade e tentar mudar...

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    1. Oi, Kelly!

      Obrigado pelo seu depoimento. Além de tudo isso o que você falou, ressalto o tanto que é difícil encontrar psicólogos dispostos a fazer sociedade para abrir uma clínica junto. Três ou quatro psicólogos, que aluguem uma sala em conjunto, construam um Cnpj e o nome de uma clínica têm muito mais chances de conseguir credenciamento em convênios e de prosperarem do que se tentarem isso sozinhos. Mas... o psicólogo é individualista por natureza.
      Abraço

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  17. Olá, DANIEL!

    Parabéns pelo seu depoimento!

    Sou formado há 27 anos e vejo que nada mudou substancialmente no exercício de nossa profissão. É lamentável. Vou reler com calma o seu texto e depois retornarei aqui. Enquanto isso, peço que divulgue esta petição que criei recentemente, acessando o seguinte link:

    http://www.avaaz.org/po/petition/Contrate_um_psicologo_em_sua_empresa/?crmyibb

    Por gentileza, se concordar, assine e divulgue, faltam muitas assinaturas para que esta ação seja relevante!

    Abraços do José Luiz (inscrito no CRP 06ª Região - São Paulo)

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  18. Ola Daniel,
    Estava pesquisando no google o que fazer da minha vida, ja que estou formada desde de 2007, fiz formacao psicanalitica , mas ainda nao consigo chegar nem perto de uma independencia financeira. Tenho 30 anos, moro com meus pais (nem o marido pra me sustentar eu tenho) e estou chegando a uma situacao de desespero, pois vivo me perguntando até quando vou investir, pagar e esperar. Acrescentaria que, alem de pagar pra trabalhar, nossa profissao custa muito caro: é supervisao, analise, pos-graduacao, investimento em testes e material pra quem usa, é taxa de autorizacao de trabalho autonomo na prefeitura, etc. Fora isso, muitas vezes os psiquiatras fazem uma formacao rapida em psicoterapia e fazem um tratamento 2 em 1 e que os pacientes aceitam pagar pois nao precisam investir em dois profissionais. Tambem concordo que o conselho nao nos ajuda, nem sequer divulgam a profissao, ja que, ainda hoje, muita gente nao sabe a diferenca entre psiquiatra, psicologo e psicanalista. Minha analista me disse "só tem sucesso na clínica quem nao desiste e investe seu desejo", mas sinceramente nao sei como nao desistir. O pior é que sempre procurei experiencia e estudo sobre a clínica. Se fosse procurar trabalho em RH, que nao gosto, provavelmente nao conseguiria trabalho por nao ter experiencia e por que sabemos que dentro das corporacoes tudo é arranjado entre indicacoes e amigos e parentes de gente de cima.
    Outra coisa que acho um absurdo é nao ter muito espaco para psicologos nas escolas. Pelo menos aqui em Florianopolis as escolas nao tem interesse em ter psicologos, o que achei muito estranho. O pior é que para as escolas as vezes é melhor investir em esragiarios. Alias, nunca vi um estagio remunerado na clínica.
    Muitos me chamam de pessimista, mas eu sou realista e me sinto fracassada nessa profissao. É muito dificil ter que ver que o sonho da psicologia pode morrer, mas o que fazer senao procurar um sustento e ver a clinica como um hobby e um hobby caro.

    Abraco,

    Renata

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    1. Renata, única coisa que posso fazer é me solidarizar com você. E eu já estou formado desde 2001... imagina só! Eu me arrependo da escolha que fiz. Não vale a pena mesmo.

      Abraço!

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  19. Olá, Daniel.

    Excelente seu texto. Faz tempo que eu penso a respeito. Uma amiga minha, colega de consultório, fez um comentário que me fez pensar mais ainda a respeito dessa nossa situação. Aqui em Curitiba também há uma outra opção que é ter uma professora como mentora, apoiadora e encaminhadora de pacientes e isso geralmente gera um fluxo interessante de encaminhamentos. Mas o funil é pequeno e a grande maioria desiste mesmo. É uma pena.

    Pensando nisso, no início do ano passado, eu levantei uma questão com os colegas, que é o de fazer marketing da nossa profissão, divulgá-la de forma mais efetiva, ser mais proativo na questão da divulgação de nosso trabalho. Bom, enfim, eu surpreendentemente recebi uma recepção negativa dos colegas, dizendo que na nossa profissão não havia lugar pra isso, que era contra as regras do CRP, e por aí vai. O detalhe é que nem sequer eu disse o que eu pensei a respeito. Pena.

    Eu tive um suporte desde o começo, a 10 anos atrás, trabalhando como psicólogo. Tenho um emprego que me garante uma renda, o que me trouxe muita tranquilidade pra trabalhar. Mas eu sempre acreditei em divulgar o trabalho, mostrar aos que precisam o que vc pode oferecer. E hoje colho frutos disso, tenho um fluxo bom de pacientes, encaminhados por pacientes, ex-pacientes, colegas, familiares, médicos, enfim, vários profissionais que podem trabalhar em conjunto conosco.

    Acho que falta à nossa categoria a promoção do que pode ser feito. E podemos ajudar muito as pessoas. Será que se elas entenderem o como não vão querer mesmo?

    Trago essa opinião como uma forma de abrir a discussão em busca de soluções, enquanto nossos conselhos não acordam pro que está acontecendo com nossa profissão.

    Ps. Vou compartilhar esse texto no meu facebook, para meus colegas, se vc não se importar. Caso se importe, me avise.

    Abraço.

    Robson Pinheiro Pereira
    Curitiba

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    1. Olá, Robson;

      Concordo muito que a solução passa pela divulgação do nosso trabalho. Só não sei muito bem como fazer isso. Acredito que há muitas pessoas que precisam de psicólogo e que não procuram um por falta de informação e preconceito. É aí que eu vejo que os conselhos poderiam entrar. Acho que é dever deles fazer essa campanha de infornação e conscientização junto à população. Fico revoltado de ver como nossos conselhos e nossos sindicatos se preocupam tanto com a situação de todo mundo, menos com a dos psicólogos. Aprendemos a ser uma essa classe que se preocupa com todas as classes, menos consigo mesma. Claro que pode divulgar meu texto; te agradeço por isso. Eu também tenho uma página no facebook. Criei a página justamente como tentativa de divulgar meu trabalho. Se gostar da página e quiser divulgá-la, também agradeço:

      www.facebook.com/cotidianoepsicologia

      Abraço!

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  20. Gostei muito do que escreveu, Daniel. Estava aqui tentando entender a dificuldade com a clínica, com os atendimentos, com o envolvimento mesmo dos 'clientes'. É uma dura realidade essa que vc retratou. Sou de Barbacena, MG, e acredito que, pelas bandas de cá, o quadro é ainda pior. Talvez a possibilidade de remanejo seja melhor aí. Estamos em apuros. Salve-se quem puder!! Abraço

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  21. Ao leitor que escreveu três comentários e se identificou apenas como "Nathalia", só publicarei os comentários se houver identificação do autor por um perfil do Google ou outro qualquer aceito pelo blogger. E, não se preocupe que publicarei os três, e os três devidamente respondidos!

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  22. Realmente. Sou psicólogo, especialista em Psicologia jurídica e com experiência na clínica. Só achei um pouco exagerado a comparação entre nosso trabalho clínico e serviço escravo tendendo a classificar melhor o trabalho escravo. No entanto, não acho que esta regra sirva somente à Psicologia clínica, ela se estende à ciência psicológica: temos psicólogos no serviço público por uma questão judicial e não por necessidade; temos psicólogos em escolas (e que vão à escola uma ou dua vezes por mês) por uma questão pragmática ou mesmo jurídica - que trabalho é realizado uma ou dua vez numa escola? E a continuidade do trabalho anterior? Há somente demandas sazonais? todos esperam do psicólogo um trabalho prático, cuja solução do problema é imediata; espera-se também algo burocrático: laudear documento, aplicação de teste e nada mais que isso. Acredito que a profissão tem caído muito em decorrência dos valores sociais a que vivemos: tudo tem que ser para ontem o imediatismo tomou conta e nosso trabalho requer desejo e tempo - desejo de querer mudar e tempo para esperar a mudança.

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  23. Estava optando por fazer Psicologia primeiro, como 2a. faculdade, por paixão...em detrimento do Mestrado. Depois de ler este blog, fiquei confusa e com receios e até desmotivada...o que vocês aconselhariam? Fazer Mestrado em Educação ou a Graduação em Psicologia? Sou graduada em Letras, pós em gestão escolar fora do país e MBA em Gestão Empresarial. Quero trabalhar com desenvolvimento de pessoas, coaching e RH, não necessariamente, clínica. Eu sempre trabalhei na área de ensino e atualmente, sou gestora em escola de idiomas, mas sempre fiz gestão de pessoas. Sei que adoro ler tudo sobre psicologia e chequei a fazer o primeiro semestre e tranquei. Estava a-do-ran-do...

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  24. Bom dia Daniel,

    sou recém formado. É triste e doloroso ler todos esses relatos de experiências negativas. De fato, busco trabalho há 6 meses na psicologia e não consegui por "falta de experiência". Tenho 22 anos e é muito difícil para um iniciante a clínica. Tenho projetos em mente, de fazer sites, propagandas, marketing na clinica, área que sempre foi a minha preferência. Sei de toda essa dificuldade, mas tenho esperanças. Tenho dúvidas quanto ao cadastramento para planos de saúde, você sabe como funcionam?

    Em tempo, suas ideias e seus argumentos fazem muito sentido. Também acho que a psicologia em geral por ser na grande maioria feminina e de mulheres em geral que buscam a profissão por uma auto-realização e não por outros motivos (como realização financeira), agravou a situação da psicologia clinica. Não estou sendo preconceituoso nessa afirmação, até porque eu também sou sustentado e recebo apoio financeiro, mas quero e vou viver da psicologia.

    Mas é angustiante, estar formado, como psicólogo e não enxergar perspectivas, 6 meses já se passaram. Ainda não sub aloquei nenhum consultório porque prefiro me preparar mais antes e não sair atendendo. Até porque com a nossa formação, sem especialização é muito difícil ser um bom Psicólogo Clínico.

    Enfim, acredito muito na psicologia, mas nem tanto nos psicólogos. Visto que tem muitos profissionais banalizando com maus atendimentos, má formação e tudo que você citou. Lamento também não ter a força do Conselho e muito menos dos Sindicatos, em busca da divulgação e da desmistificação do preconceito que ainda se tem em torno da psicoterapia.

    Obrigado por fazer com que tantos profissionais infelizmente se identifiquem com seu relato, continue lutando pela Psicologia Clínica.

    Abraços,
    Vitor Rodrigues
    Psicólogo

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    1. Vitor,

      Os planos de saúde geralmente só cadastram psicólogos que tenham pessoa jurídica. E é difícil conseguir cadastramento. Não seja tão idealista achando que cursos e especializões vão te tornar um profissional mais competitivo na clínica, porque não vão. O que conta na clínica é ter uma fonte de indicação de pacientes. Se não tiver isso, pode ter o melhor currículo do mundo que não adianta. Clínica é atividade autônoma, não há emprego na área. Por isso, os contatos que você tiver serão muito mais importantes que sua formação. Essa é a dura realidade.

      Abraço

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  25. Não escrevo tão bem como vc, mas me identifiquei com muitos aspectos que vc aponta. Quanto a clínica, devo compartilhar que fui chamada pra abrir uma empresa, me tornando uma pessoa jurídica, para dar continuidade aos atendimentos que fazia no ambulatório de um plano de saúde. A demanda de clientes é muito maior do que, sozinha, dava conta de atender. Assim ofereci para algumas psicólogas a possibilidade de atenderem estes pacientes e dividirmos o aluguel das salas. E o que vc colocou como sendo uma exploração eu percebia todo mês quando o valor a pagar pelo aluguel da sala era fixo e o faturamento oscilava de acordo com os atendimentos realizados. De um lado eu compreendo que o psicologo que está atendendo e pagando aluguel da sala com a possibilidade de encaminhamentos da clinica(no caso, eu era a clinica) se coloque numa posição de "explorado" mas e o aluguel da clinica que eu tinha que pagar tb era fixo e eu tb estava sob a mesma condição miserável de esperar que os pacientes não faltassem, que o numero de pacientes fosse suficiente para compor os gastos. Com isso eu concordo com vc que é uma situação indigna, oferecer um serviço com qualidade, por um valor que é acessível a população de plano de saúde e que em contrapartida não tem reconhecimento pelo proprio usuário do serviço. Quero deixar registrado que uma "clinica" não é diferente do psicologo que está buscando atender, é uma responsabilidade muito maior, diante de tantos impostos e exigências legais que são pertinentes a estrutura de uma empresa, que na verdade surgiu pela vantagem de não arcar com custos trabalhistas, onerando ainda mais o profissional de psicologia. Estou tão ou mais insatisfeita com esta realiade do que qualquer profissional que já passou pela experiência de buscar credenciamento junto a planos de saúde. Estamos entre clientes exigentes e necessitados de atendimento, de um lado, e de outro de uma empresa que não considera o conteúdo do atendimento em psicologia, somente pensa em reduzir custos, criando estratégias pra que o cliente não busque ou desista do serviço em psicologia. Sim, sou casada e não sei como seria se meu marido não bancasse as contas porque o que ganho é consumido pelo exercício da profissão, me sinto segura, pela minha experiência pessoal, em dizer que a clinica é elitizada, é para poucos, e que não interessa à esta forma de organização política que vivemos, tal qual a educação. me sinto refém de uma condição profissional que até então era claramente vista por mim como vocação. Mas a realidade é que interessa muito mais pra mim ser psicóloga do que para os pacientes, triste constatação que faço a partir de seu texto. Mas importante discutir isso neste nível de clareza que vc traz.
    Abraços

    Carmen Regina Pereira Corrêa
    CRP 06/68411

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  26. Psicólogos na maioria das vezes não são pragmáticos.
    Afirmam: "Precisamos discutir sobre isso, é preciso debater sobre aquilo"
    "Correm" de um lado para o outro, firmam discussões pouco práticas na internet e dificilmente se propõem a resolver problemas.
    Poderia me alongar mas enfim, minha humilde opinião: Paciente buscam ótimos profissionais e isso não depende exclusivamente de uma rede de contatos.
    Deveríamos mudar sim, mas nossa formação que é péssima.

    Abraços práticos.

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  27. Nossa............que bom ler este texto,os comentários,tudo!Estava pensando em cursar psicologia,sou de Betim-MG e não sabia que a situação era tão critica.Minha primeira opção,é direito,mas como estava na dúvida,achei alguém que pôs a boca no trombone e disse a verdade que muitos não querem dizer.
    Minha professora, do curso de administração(técnico),já havia falado sobre as dificuldades e que , ela só tinha sobrevivido por que tinha seus pais para pagar.
    E também sempre falava,que a profissão é linda,mas não dá dinheiro,e não enriquece ninguém.
    Bem ,você só afirmou o que ela disse!!!!!!
    Obrigada,vou mesmo seguir a área jurídica,minha primeira opção!

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  28. Olá, já faz mais de um ano que tens postado seu texto. Gostei muito, achei apenas exagero a citação em comparação aos escravos, mas o resto fora tudo muito interessante e reflexivo.

    Vou citar a última resposta que li dos usuários de seu blog, esta da Carmen Regina:
    "Mas a realidade é que interessa muito mais pra mim ser psicóloga do que para os pacientes, triste constatação que faço a partir de seu texto."

    Por que cito isto?
    Pois é o que o texto provoca, entre muitas outras coisas, sem dúvida.

    Sou formado faz pouco tempo, formei-me praticamente um mês antes do seu texto. No entanto, já havia me antenado para esta realidade. No meu último ano de curso, havia a opção de escolha para estagiar entre organizacional e clínica. Os que optassem pela clínica poderiam procurar tal experiência em hospitais ou policlínicas ou qualquer outro lugar que oferecesse um serviço de clínica ou próximo disso. Ou ainda, realizar uma prova de seleção para conseguir as vagas do SPA (Serviço de Psicologia Aplicada), a clínica. Como eu disse, já estava antenado das dificuldades deste hobby... por isso, após fazer a prova de seleção (e ser congratulado), decidi procurar outra experiência, fora do SPA. Consegui e foi maravilhoso... no entanto, uma vez formado é por sua conta.

    Faz pouco mais de um ano (quase a idade do seu texto) e a dificuldade é imensa. Tenho uma vantagem: não preciso pagar aluguel para ter meu consultório, mas não significa que não haja gastos... Meus pais me ajudam muito, mesmo assim não pretendo ser sustentado (ou melhor, ter meu consultório sustentado por eles, pois tenho uma renda extra do meu trabalho - que em nada envolve psicologia, meus pais me ajudam a manter o consultório pois sabem do valor e dedicação que dou a ele). Imagino quem ainda precisa locar um consultório, os gastos são muito grandes.

    Recentemente, pensando pelo lado da divulgação, comecei a produzir cursos onlines, com conteúdos voltados para psicólogos. Mas tudo o que gira em torno é sempre uma alternativa a clínica. Não consigo viver só com "psicologia". A não ser que eu siga para outra área de atuação.... o que não pretendo (organizacional).

    Tenho pensado nestas questões (semelhantes as suas). Uma analogia que gosto de fazer é que a nossa cultura é: não temos cultura para terapia. Mais ou menos 500 anos atrás, quando os europeus chegaram ao Brasil, encontraram na praia os índios NUS, eles não precisavam de roupas. Hoje, os índios existentes andam de roupas. Se perguntas a qualquer pessoa: tu precisas de roupas? A resposta é óbvia. No entanto, há 500 anos, se perguntasse aos índios: Tu precisas de roupas? Eles diriam: "É de comer?"

    A analogia é: pergunte a uma pessoa "Tu precisas de psicólogo?" A pessoa responde "eu não!"
    Algo como: não temos cultura para ir ao psicólogo resolver nossas questões. Mas temos cultura para comprar um remédio (mesmo que seja caro) e acreditar que isso tirará o "nó" da garganta por um falecimento de um ente querido que não conseguimos esquecer. Talvez eu esteja usando a palavra "cultura" em um contexto idealizado, mas tenho certeza que está a compreender o sentido de minhas palavras.

    Ainda como estagiário, fui estagiário na área escolar e lembro que fui fazer uma palestra em uma escola e antes de começar um pai disse: "Não precisamos de psicólogos, antigamente não tínhamos isso e ninguém virou deliquente por isso". Confesso, naquele tempo a vontade era de esganar o "infeliz", mas felizmente uma colega, mais madura que eu na época, teve argumento para combatê-lo e disse: "Antigamente se sabia menos sobre os ser humano... etc".

    Estas experiências que conto, apenas fortalece a ideia de "não temos cultura para ir ao psicólogo".
    A combinação com as palavras de Carmen Regina e seu texto, faz refletir: o que é preciso para "criar" esta "cultura" que nos falta?

    Izak Cordeiro

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  29. Não poderia concordar mais com um texto. É exatamente tudo o que penso.

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  30. Oi Daniel, sou psicóloga clínica há 5 anos. Aqui em Fortaleza-CE a situação também não é das melhores, no início pagava para trabalhar e posso dizer que só agora estou começando a respirar na clínica. É triste pois lidamos com a sazonalidade dos clientes, não temos salário fixo, 13 salário, tudo é muito incerto.
    Por vezes me angustio bastante e até me pego pensando em outra profissão.
    Como dizia minha orientadora na época de estágio:o pagamento do psicólogo é mais afetivo do que efetivo.
    Mas valeu a sua reflexão.
    Ats, Kédina Sá

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  31. Oi Daniel, sou psicóloga clínica há 5 anos. Aqui em Fortaleza-CE a situação também não é das melhores, no início pagava para trabalhar e posso dizer que só agora estou começando a respirar na clínica. É triste pois lidamos com a sazonalidade dos clientes, não temos salário fixo, 13 salário, tudo é muito incerto.
    Por vezes me angustio bastante e até me pego pensando em outra profissão.
    Como dizia minha orientadora na época de estágio:o pagamento do psicólogo é mais afetivo do que efetivo.
    Mas valeu a sua reflexão.
    Ats, Kédina Sá

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  32. Voce falou do estagiário e chegou até a comparar com o trabalho escravo. Mas concordo com suas informações, inclusive, pode generalizar, pois é exatamente assim que acontece em todo o país, infelizmente. A realidade é: pagamos caro pra ter esta formação, seja na questão de tempo, dinheiro e dedicação e no final das contas, paga-se pra trabalhar. Parabéns por seu texto.

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  33. Alo. Escrevo de mocambique, africa, adorei a tua idei

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  34. Considerações justas e com muita razão. Mas como contraponto diria que existe um reflexo social não considerado. O Fato desta geração de 15 anos para cá querer começar a vida profissional POR CIMA. Em lugar de aceitar que existe uma jornada natural e que o estabelecimento profissional não se dá a curto prazo. Mas, ainda sim, por que fazer tudo tão difícil né? As Colocações e questões abordadas são em parte pertinentes. Abraços

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  35. Olá Daniel. Gostei muito do seu texto, apesar de ter tido a sensação de que generalizou um pouco quando traçou o perfi das psicólogas mulheres. Conheço várias que não são sustentadas pelos maridos e que vivem o mesmo drama que eu ou você. Dito isso, concordo plenamente contigo. Nossos Conselhos são fraquíssimos em defender os interesses dos profissionais. Os sindicatos também não fazem muita coisa. Mesmo empregados em instituições, temos normalmente salários baixíssimos. E não se fala em pisos dignos. A clínica, que para mim é uma paixão, funciona como complemento de renda ao salário indigno que recebo em meu emprego na rede de saúde mental do Rio de Janeiro. Infelizmente o CFP está mais interessado em dar respostas, através de notas públicas, sobre notícias que viralizam na internet do que pensar na dignidade dos psicólogos.

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  36. Daniel, faço esses questionamentos desde que me formei em 1996. Tenho 05 especializações na área em Psicoterapia Breve, nutrição, saúde mental, análise bioenergetica e adolescentes. Estou fazendo. Mestrado no hospital das clínicas com pacientes que sofreram traumatismo cranioencefalico e curso agora uma especialização em neuropsicologica. Nunca ganhei dinheiro com a minha profissão. Como você diz infelizmente não consigo obter o rendimento necessário para minha subsistência, tenho outras fontes de renda para complementar meu trabalho.

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  37. Oi Daniel,parabéns pelo texto que retrata todo meu sentimento em relação a psicologia clínica nos últimos 3 anos da minha prática como também ao abandono do conselho a nós profissionais da psicologia,pois meu sentimento é puramente de abandono.Nossos salários são uma vergonha,os preços pagos pelos planos de saúde denigrem a nossa prática.Fiz investimentos em especializações direcionados a clínica porém o retorno financeiro é surreal.Tenho outras fontes de renda que me dão suporte na minha subsistência por isso ainda me mantenho na psicologia clínica aliado ao amor a profissão.
    Parabéns pelas reflexões e por compartilhar sentimentos que também nesse momento são os meus.

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  38. ser psicólogo é estar aberto a orientar e a reorientar um individuo em suas misérias e entranhas. Nâo é fácil mas também nâo é impossível

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  39. Gostei muito de encontrar e ter lido este texto. Tenho 22 anos e estou no último ano do curso de Psicologia. Já percebi a situação do mercado, pena que tarde demais. Lembro que, quando estava no terceiro ano, uma professora me disse que havia feito uma pesquisa com calouros, sobre o porquê da escolha da Psicologia como profissão e quais os motivos (objetivos ou subjetivos) considerados para optar por tal profissão. O resultado foi o seguinte: 100% dos calouros alegaram ter escolhido a Psicologia por motivos subjetivos, seja por uma pretensa aptidão pessoal, como possuir empatia, facilidade de escuta, etc, ou por possuir uma curiosidade acerca da literatura da Psicologia, aliada com um interesse de conhecer aspectos psicológicos de si e dos outros. Segundo esta professora, nenhum dos calouros havia feito uma pesquisa de mercado a priori sobre as áreas de atuação e que, segundo ela, não haviam feito uma escolha "racional".
    Eu mesma fui uma destas alunas que escolheu a Psicologia por inclinações subjetivas, e a realidade só foi bater na minha porta no último ano, no qual fiz e estou fazendo estágios. Vi que muitas áreas na qual optei estagiar possuem um viés muito mais filantrópico do que empregabilistico. Dentre as áreas que mais desanimei, cito a área Hospitalar. Estagiei em um hospital particular, conveniado com a universidade, e me surpreendi com a falta de profissionais dentro de um hospital de grande porte. A única psicóloga contratada era a minha supervisora, que era psicóloga hospitalar, clínica e ainda supervisora dos alunos da universidade. Com tantas responsabilidades, esta psicóloga em questão, abriu cursos de aperfeiçoamento, aprimoramento e de especialização no próprio hospital e, como é quase impossível um único psicólogo dar conta de todos os chamados, cada um dos alunos destes cursos de "pós" assumiu uma das áreas dos hospital e começaram a atender, sob supervisão não dela, mas sim dos alunos que já estavam no segundo ano de especialização. Ou seja, a psicóloga só aparecia de vez em quando no hospital, pois todos os seus alunos atendiam e assinavam os prontuários por ela, já que eles não eram contratados, mas sim psicólogos recém formados e alunos destes cursos. Alias, quem me supervisionava no hospital não era ela mas sim estes alunos. Na ausência destes alunos, em determinadas épocas do ano, alguns psicólogos ex-alunos eram convidados pela própria psicóloga contratada e assinavam um contrato de vínculo com o hospital, mas não um vínculo empregabilistico, igual o dela. Vendo isto, ficava pensando: o que será destes psicólogos, que estão investindo dinheiro nestes cursos da área hospitalar, mas que vão enfrentar um mercado restrito?
    Posso estar generalizando, mas considerando aspectos quantitativos acerca da área, como o número de hospitais de determinada região e o número de psicólogos contratados, acredito que os mesmos não conseguem absorver nem 10% do alto número de psicólogos que se formam todos os anos, nas diversas universidades do país.
    Contudo, pretendo seguir carreira acadêmica e investir nessa área. Sei que é a área que demanda mais tempo e pouco retorno financeiro durante muitos anos, todavia, tenho consciência que novamente estou fazendo uma escolha calcada em inclinações subjetivas que é, obviamente, o gosto por ensinar, porém, agora tenho conhecimento sobre as dificuldades e os desafios que irei enfrentar buscando e atuando nesta área.
    Abraços

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  40. Concordo com seu texto. Acrescento apenas que esta situação é vivenciada pela maioria dos profissionais da área no país e se desdobra para todas as áreas da Psicologia. A situação é alarmante e o CFP faz muito pouco pela classe que "defende"!
    Quando estava cursando o 3° semestre me questionei muito se continuaria com Psicologia, decidi que sim, hoje não sei ainda se me arrependo ( me questiono todos os dias) mas o que tenho passado para conseguir um trabalho digno ( ainda não consegui) é angustiante, e não só pra mim mas pra minha familia também.

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  41. Boa Noite, Daniel.
    Meu nome é Paulo Antônio, sou psicólogo e atuo no Espírito Santo a 23 anos como psicólogo clínico. Estava pesquisando sobre como a nossa categoria se coloca a respeito desta questão e achei o seu texto. Quero lhe escrever que o achei muito interessante, corajoso, sensato, honesto, inteligente e comprometido com a realidade.
    Acredito que existem algumas coisas que precisam ser pensadas.
    Também não tenho uma boa imagem dos Conselhos, mas, vejo isto como uma consequência da mentalidade da própria categoria, da qual tenho impressão de ter uma auto imagem frágil enquanto profissão de saúde, dona do seu próprio nariz, e capaz de intervir de verdade, de forma potente na vida das pessoas.
    Mas de forma alguma me refiro a meu consultório como gabinete. Gabinete é muito pequenininho, e minha ação não, mesmo que que a profissão neste mundo seja difícil. Um consultório de psicologia precisa de mais ou menos coisas conforme a abordagem, mas não dá para ser um gabinete.
    Também acho que no momento em que o psicólogo começou a fazer um monte de concessões ao paciente, deixou de ser psicólogo porque deixou de atuar como tal. Quando o paciente quer sair da terapia, o seu movimento deve ser trabalhado, mas ele deve sair. Até mesmo porque senão estará ali, mas não estará em terapia.
    Sobre "mais de 90% dos psicólogos brasileiros são mulheres", e que "Mulheres são mais receptivas, estabelecem relações intimistas com mais facilidade, são mais acolhedoras, mais empáticas, compreensivas. Essas são qualidades que se encaixam perfeitamente no perfil ideal do psicólogo", posso lhe escrever que questiono se isso tenha relação com a psicologia. Acho mesmo que aqueles que se encaixam neste perfil ideal, a partir deste encaixe, deixaram de ser psicólogos.
    Acho mesmo que nós enquanto categoria precisamos de um espaço para pensar a profissão.

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  42. Parabéns pelo texto Daniel!
    Também sou psicóloga, me formei há 17 anos. Para dificultar mais ainda, recém formada tive que mudar de estado por problemas pessoais/familiares e como tinha que me sustentar e sustentar familiares (mãe e irmão) fui obrigada a deixar a psicologia de lado e trabalhar "de verdade": 40 hs, carteira assinada e salário no fim do mês. Passei em concurso (outra área), fiz outra graduação (outro concurso), mas sempre reservando um dinheirinho para um curso aqui, uma pós ali, tentando voltar a área psi. Atualmente tenho pensado mais efetivamente em voltar a psicologia. Trabalho concursada meio horário (em um emprego que não me satisfaz) e estou fazendo outra formação em clínica (a gente sempre acha que precisa se capacitar mais...). Enfim, quero voltar a clínica e me deparei com seu texto que é tudo que penso e que me afastou da psicologia todos esses anos!!! Sinceramente estou perdida!!!
    Alessandra.

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  43. Olá Daniel!
    Foram tantas as coisas que esse seu texto e todos esses comentários provocaram em mim (sim, li todo o desenrolar) que posso dizer sinceramente que estou atordoado. Sou psicólogo há 3 anos e entendo perfeitamente seu posicionamento neste artigo que é muito válido e gerou troca de ideias preciosas, e não só lamentos como alguns podem pensar.
    Não trabalho em clínica por muitos motivos claramente abordados em seu artigo. Trabalho juntamente à Assistência Social em uma prefeitura, o que me traz certo conforto (é um trabalho que digo ser tranquilo, mas com exigências não correspondentes à realidade e muito difíceis de se mudar pois vêm do governo, por ex.).
    Eu ainda penso se teria me dado melhor em outra profissão, mas creio estar indo relativamente bem como estou. Ainda penso em atuar em clínica, mas de forma parcial, com outro emprego fixo, salário fixo, para dar contrapartida com a clínica... é o hobby que você falou e que na maioria dos casos é realidade.
    Sei que não se pode (com raríssimas exceções de alguns bem-nascidos e apadrinhados) começar a clínica e logo estar bem-sucedido nela, sei que demanda algum tempo, normalmente alguns anos para dar retorno e estabilidade mínima. Isso assusta e desanima muito os que desejam esta área e elitiza ainda mais a psicologia clínica.
    Entendo que o público deve sim ser mais educado culturalmente para usufruir dos serviços psicológicos clínicos e que é imperativo termos uma organização dos serviços públicos que coloque o psicólogo como um agente de transformação que possa atender mais facilmente indivíduos que necessitam, e não manter esse modelo que foi citado de "ir ao médico - esperar - ver se consegue vaga no caps" etc.

    Parabéns pelo artigo e continue escrevendo, eu gostaria de ter tanto conhecimento e capacidade de escrita como você demonstra ter.

    Lucas

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  44. Gostei demais. Poxa, se residisse em MG faria supervisão contigo! Estou no celular, não consegui compartilhar esse seu texto excente para o meu grupo de amigos -psicólogos incriveis- recém formados, como eu e assusta com a incongruência dos discursos percebidos na academia, com o real da prática clínica! Para seu texto ficar, definitivamente, persuasivo retiraria a o trecho em que tu tratas da relação entre a identidade profissional e o gênero. Não concordo muito! Tem muitas mulheres se esforçando para sobreviver dessa profissão. Eu mesma sou uma dessas. Noiva de um professor. Amei o comentário de um dos seus leitores sobre as profissões do impossível. Gente, isso precisa ser levado para as academias. Os alunos vêm muito ingênuos, querendo mudar o mundo e depois sofren crises graves com a identidade profissional, que foi utópica desde muito cedo! A minha foi. Quando as professoras, sobretudo, as de psicanálise falavam parecia que saiam flores e corações dos olhos dos alunos. Tudo muito bonito...... lindo..... mas, longe do cenário mais próximo ao da selva, pois quase não dá para a subsistência! TRISTE, mas absolutamente verdadeiro!

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  45. oi daniel. ja passei dos 40 e penso sinceramente em mudar de profissao. desde os 15 anos de idade me interesso por psicanalise. sempre li sobre o assunto e, obviamente, me graduei em psicologia. meus pais tinham uma situacao financeira muito boa. fiz uma boa faculdade, livros em abundancia, analise 3 vezes por semana e supervisao na epoca certa, sempre com os melhores psicanalistas . nessa epoca, la pelos 20 anos, via minha analista e mais tarde meu supervisor, profissionais bem mais velhos e bem famosos, cobrarem de mim um valor alto por atendimento. minha ex psicanalista cobra hoje 400 reais a consulta, mesmo valor que meu supervisor cobra. eu supunha entao, na epoca, que assim como eles, eu teria um dia um consultorio cheio de pacientes pagando 400 reais por consulta. atenderia uns 10 por dia. 4 mil reais ao dia. me pareceu bom. meus pais faleceram e herdei tudo. fiz formacao psicanalitica na melhor sociedade na minha opiniao, comprei uma sala no melhor predio comercial da cidade. assim que inaugurei meu consultorio, atraves de meus contatos com pessoas influentes, consegui credenciamente nas grandes seguradoras. meus contatos com pessoas "ricas" nunca me adiantaram nada para ter pacientes. eu supunha que, alguem que pudesse se dispor a pagar 400 reais por consulta e ser atendido 3x por semana como eu fiz, procuraria alguem famoso, com livros publicados, que apareca na tv e de aulas nas grandes faculdades. nessa epoca fiquei dividido entre exercer a profissao no consultorio quje tinha acabado de comprar ou me dedicar a carreira academica, mestrado, doutorado etc. para ser "famoso"
    comeca entao a "chover" pacientes de plano de saude. meu horario lota da noite para o dia. ja trabalhei ate aos sabados. coisa de 20 a 30 pacientes ao dia, um atras do outro. so que, como os planos pagam pouco e eh uma trabalheira pedir senha, preencher guias etc, muitas vezes nem cobrava por preguica ou falta de tempo. ate que contratei uma pessoa para esse fim. o que ganhava no consultorio era na epoca para mim o que voce no seu texto relata sobre as psicologas casadas rsrs. so que hoje com mais de 40, apesar de ter imoveis alugados que me dao uma renda suficiente para eu fazer o que quiser, secretamente me sinto uma fraude. eu nunca teria o apartamento que moro, o consultorio que tenho, o carro que dirijo, as viagens que faco com minha profissao. dificil descrever essa sensacao. com 20 ou 30 anos, ganhar 30 reais por consulta (brutos) eh irrelevante. mas atualmente, por mais dinheiro que eu tenha eh humilhante. nao sei se errei em nao ter me divulgado e me tornado famoso como um calligaris ou joel birman. como fazer carreira academica se eu ficava no consultorio de 10 da manha as 22 horas? adorando o que fazia? e mais, nessa epoca, os planos so cobriam 12 consultas por ano. havia entao sempre a esperanca de que um deles quisesse continuar particular. alguns quiseram, mas pagaram no maximo 100 reais uma vez por semana. os pacientes de plano de saude me procuram porque lhes parece que eh gratuito. nao ha respeito algum com frequencia salvo rarissimas excecoes. enfim. eh uma pena. nao quero ter mais um imovel alugado (meu consultorio) e ficar de pernas para o ar levando vida de playboy. gostaria por exemplo, que conseguisse trocar de carro, um bom carro como o que tenho hoje e nao um modelo popular, nao digo nem comprar mas pagar os condominios pelo menos do proprio consultorio e do apartamento que vivo. que minhas viagens para o exterior de classe executiva e bons hoteis fossem pagos por todo o esforco que fiz na faculdade, na formacao psicanalitica que foram mais 5 anos apos a faculdade, nos anos de analise e supervisao, nos estagios nao remunerados. sei que sou bom no que faco. "merecia" ganhar para isso. me desculpem nao quis ostentar se tenho ou nao dinheiro. se nao fosse a heranca dos meus pais, nem consultorio hoje teria. acho que provavelmente faria como colegas de faculdade fizeram: direito para passar em concurso ou ser vendedor de loja. eh uma pena. abraco obrigado pela atencao

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    1. Bom Dia!

      Verdade meu caro, infelizmente estamos assim, aliás sempre estivemos nesta situação, salvo algumas exceções!!!

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  46. Ei Daniel,
    Interessante ver como o seu texto serviu de disparador para uma boa e necessária discussão. Nos corredores, entre colegas da clínica, rola este tipo de comentários, sobre a não valorização do profissional. Por momentos sinto que não somos levados tão a sérios por um grupo de pacientes;por outro , vejo pessoas realmente interessadas, que necessita e aproveitam do processo terapêutico . A questão finananceira tambem pesa para o paciente.
    Nao creio nessa passividade do psicólogo , ao meu trabalho isso não se aplica. Não seguro o paciente, de forma alguma. O que trato de fazer é investir nas chamadas networks, para não ficar a mercê do querer dos mesmos.
    Abraços
    Gil

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  47. Oi Daniel.. interessante como sua publicação foi em Agosto 2012 e nada mudou, salvo a quantidade de pessoas que leram. Infelizmente poucas pessoas que formaram comigo estão satisfeitas com psicologia clínica.
    Todo início do ano vem aquele valor altíssimo da anuidade juntamente com outras contas extras como IPVA, IPTU e muitos outros. Realmente não vemos retorno deste valor, sendo que já investimos tanto na graduação de pelo menos 5 anos. Sem contar com os cursos, pós graduação,mestrado, dourado que temos que fazer se quiser ter maiores chances de ter retorno financeiro.
    Acredito que um outro problema que não foi citado é a saturação da Psicologia em geral. O governo facilitou muito o acesso às universidades (isso é bom!) e esqueceu de ampliar o mercado de trabalho..resultado: muitos Psicólogos formados e pouco mercado, principalmente (mais uma vez) para a clinica.
    Juntando tudo isso à crise econômica que o Brasil vem sofrendo atualmente, o mercado de trabalho do Psicólogo fica realmente afetado. Outra:quando o cidadão está passando por dificuldades financeiras devido a inflação e altos pressos... a primeira coisa que eles cortam... adivinha?

    Fica aqui registrada a minha insatisfação...
    Abraços
    Érica

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  48. Bom Dia!!!

    Assino embaixo que você escreveu, profissão para ser usado como hobby

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  49. Como eu queria ter lido este texto no início da minha graduação! Hoje, mais adulta, vejo que fiz uma escolha precipitada, pois não levei em conta estes aspectos do mercado de trabalho, especialmente da área clínica. Lembro que tinha ouvido professores, durante a graduação, a respeito das dificuldades que a maioria enfrentaria, mas como uma boa estudante otimista e sonhadora, não dei ouvidos, porque, afinal, poderia ser uma fase passageira, dificuldades momentâneas que, com um pouco de persistência, seriam superadas. Acreditava piamente na ideologia de que "tudo pode aquele que crê em seus sonhos", e que só os perdedores desistem, por isso merecem o que têm. Porém, tudo mudou quando eu comecei a ter aulas na área de Psicologia Social, quando comecei a me aprofundar nas causas das desigualdades sociais, e percebi que eu, enquanto mulher, solteira, de classe baixa, oriunda de escolas públicas, sem contatos influentes, bem como sem financiamento dos pais, isto é, que trabalhava para se sustentar, teria muito mais dificuldades para adentrar no mercado de trabalho, na área clínica, principalmente por morar em uma cidade na qual o mercado se encontra extremamente saturado e concorrido, em relação à outras capitais do Brasil. Além disso, cursei a graduação em uma universidade particular pouco renomada, que descobri que, somado à falta de experiência aliada à ausência de cursos de pós graduação, diminuía ainda mais minhas chances, diante da concorrência do mercado em todas as áreas da psicologia. Não escondo que fiquei muito triste com minha situação, pois sempre lutei muito para dar um destino melhor à minha família, que nem sequer estudaram, sempre trabalharam na roça ou em subempregos, e de repente descubro que não conseguiria o tão sonhado "sucesso profissional" que, infelizmente, é lido por pessoas da minha classe como "sucesso financeiro", sendo esta uma necessidade considerada muito mais básica do que "ser feliz com o que se faz". Esta última, infelizmente, se tratando na Psicologia, é um luxo, visto que só os mais ricos, acríticos, tomados pela moral cristã caridosa, que ajudam sem levar (quase) nada em troca, ou seja, que se esquecem que vivemos em uma lógica capitalista, conseguem ter. Estes, saem por aí, romanticamente dizendo que "ama o que faz", mas duvido muito se teriam a mesma empolgação de dizer tais palavras se viessem de origem pobre, sem financiamento inicial, ou investimento pessoal (currículo/terapia) e, claro, sem os contatos sociais que abrem tantas portas neste meio. Longe de desestimular os futuros psicólogos, gostaria que os mesmos desenvolvessem um espírito crítico, que deixassem um pouco de lado essa visão romanesca da profissão e passassem a olha-la de forma crítica e realista, para o bem de todos e pelo futuro da categoria.
    Abraços e boa sorte a todos!

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  50. Daniel, olá!

    Primeiramente, gostaria de elogiá-lo pelo diagnóstico lúcido e pelo protesto. Faço coro total a você (só acrescentaria, para agravar ainda mais a situação, a concorrência por parte dos pastores, e que tem recrudescido com o aumento das igrejas evangélicas rs). Mas responda-me o seguinte: compensa abrir pessoa jurídica a fim de firmar convênios com, por exemplo, uma UNIMED? Ou é muito arriscado, levando-se em consideração os encargos da pessoa jurídica?

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  51. Gente, esse texto diz muito o que penso sobre a dificuldade em se ganhar dinheiro com a psicologia clínica! Aliás, esse site do professor Felipe, é muito bom! http://www.psicologiamsn.com/2013/06/psicologo-ensina-dicas-de-como-ganhar-dinheiro.html

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  52. Em pleno 2016 eu concordo com você Daniel. Já estou indo para 6 anos de formada e com muita luta para permanecer na clínica. O retorno é mínimo e já estou duvidando se vai compensar continuar investindo.

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  53. O conselho poderia estipular uma tabela de preços mínimos justos.Outros conselhos profissionais possuem uma tabela de preços minimos dos serviços. Outra coisa que imagino seria o interrelacionados com neurologista e psiquiatras.Afinal as três profissões de completam! Por vezes dizem que é antiético mas a propaganda é a "alma do negócio". Tem que se agredir o mercado ! Minha opinião de leigo!

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    1. No CRP daqui tem uma tabela com valores mínimos, médios e máximos, mas geralmente são valores muito altos e que não são cumpridos porque senão você não tem paciente rs.

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