terça-feira, 17 de julho de 2012

O Problema da Psicologia Evolucionista

Daniel Dennett, em seu Darwin’s Dangerous Idea, defende a tese de que a evolução do homem seguiu um projeto sem projetista, ou seja, de que não havia um plano inicial que a evolução deveria realizar, e muito menos um planejador. Nesse sentido, o impulso sexual, por exemplo, não foi projetado com a finalidade de buscar a reprodução e a preservação da espécie. Antes da evolução do impulso sexual, não havia um projetista que elaborou o projeto de nos reproduzirmos e preservarmos a espécie. O impulso sexual é um efeito ou um produto da evolução, que foi norteada por cada modificação no genótipo sexual que nos tornou reprodutores mais eficazes. Assim, o projeto de evolução do impulso sexual não se norteou pela eficácia reprodutiva que ainda estava ausente em nosso comportamento sexual e que existia apenas na mente do planejador. Ela se norteou por cada modificação genética que nos tornava reprodutores mais eficazes no presente, selecionando cada uma destas modificações e transmitindo-a às novas gerações de indivíduos.

A evolução de nosso impulso sexual não obedeceu à finalidade de nos tornar mais eficazes na reprodução. Foi a eficácia reprodutiva como uma conseqüência presente do impulso sexual posto em ação que o tornou selecionável, não a busca, pelo impulso sexual, de uma eficácia reprodutiva nele ainda ausente.  Isso nos permite reconstruir historicamente o projeto seguido pela evolução do impulso sexual, mas não nos permite afirmar que esse projeto existia a priori e que ele significava a finalidade a priori a ser seguida pelo processo evolutivo.

Dennett repete a tese de Darwin: Um órgão ou função é selecionado em vista de suas conseqüências adaptativas. Nosso impulso sexual não passou pela seleção natural porque ele nos permite ter prazer, mas porque o ‘prazer sexual’ nos tornou reprodutores mais eficazes, ou seja, nos tornou mais adaptados ao meio. A evolução do impulso sexual também não obedeceu à finalidade de nos tornar mais eficazes na reprodução; seu design foi sendo gradualmente moldado com base nas conseqüências presentes de nosso comportamento sexual que nos tornaram mais eficazes na reprodução.

O impulso sexual é um produto ou efeito da evolução, e as causas de sua evolução não são teleológicas ou finalistas. Entretanto, qual é a função do impulso sexual posto em ação? Certamente o comportamento sexual exerce uma função, segue uma finalidade, mas qual? Neste ponto, um psicólogo evolucionista diria que, tendo a evolução do impulso sexual nos tornado mais eficazes na reprodução, que a função ou finalidade do impulso sexual é a reprodução ou a preservação da espécie, e que a função evolutiva do impulso sexual é a causa final do comportamento sexual individual.

Assim, a tese da Psicologia Evolucionista pode ser dividida em duas premissas:

a) Faculdades cognitivas ou comportamentos exercem uma função determinada pelo processo evolutivo;

b) A função evolutiva de uma faculdade cognitiva ou comportamento exerce papel explicativo de faculdades cognitivas ou do comportamento individual.

A segunda premissa depende da validade da primeira.


                                            a) O Problema das Funções Evolutivas

A Psicologia Evolutiva é herdeira da Sociobiologia. A Sociobiologia pode ser definida de maneira simplificada como uma forma de ‘Behaviorismo darwiniano’. Conseqüentemente, a Sociobiologia procura as funções evolutivas - ou adaptativas - para o comportamento. Entretanto, de acordo com o darwinismo interacionista, o fenótipo não é determinado geneticamente; ele é determinado pela interação entre genótipo e ambiente. A premissa do darwinismo interacionista coloca sérios obstáculos à Sociobiologia. Em primeiro lugar, o ambiente em que o homem vive hoje difere enormemente do ambiente de nossos ancentrais. Em segundo, o ambiente de nossos ancentrais também passou por muitas mudanças ao longo do tempo. Em terceiro, o homem viveu simultaneamente em muitos ambientes diferentes. Nesse sentido, a hipótese de que ao comportamento humano observado hoje é possível apontar uma função evolutiva encontra sérios problemas. Um exemplo comparativo: O homem contemporâneo é maior em estatura do que o homem de dois séculos atrás, apesar de seu genótipo não ter mudado nesse período de tempo. O homem atual é mais alto porque ele se alimenta melhor. Por isso, a estatura do homem de hoje não tem uma função adaptativa ou evolutiva. Ela é o resultado da interação de uma condição ambiental que só se apresentou agora com um genótipo que permaneceu o mesmo enquanto o ambiente se modificava. Também é possível observar no comportamento humano atual certa uniformidade. Mas, a freqüência com que certo comportamento é observado e o número de indivíduos nos quais ele é observado não servem de base para fundamentar a tese de que ele tenha sido modelado por forças selecionistas. É possível que, sem ter havido qualquer seleção genética, as condições ambientais atuais tenham condicionado a alta freqüência da emissão de um comportamento e o alto número de indivíduos em que ele é observado. E, ainda que seja possível apontar uma função adaptativa para esse comportamento, também nem por isso estará certo que essa função tenha sido modelada pela seleção natural. O comportamento que é observado com freqüência no homem de hoje, ainda que se mostre adaptado às condições ambientais atuais, pode ser, no entanto, um novo comportamento determinado pela interação entre um genótipo que se manteve o mesmo ao longo do tempo e uma condição ambiental peculiar aos tempos presentes. Será, portanto, um novo comportamento do qual, apesar de adaptado às condições ambientais atuais, não é possível traçar um histórico selecionista.

Na aplicação que a Sociobiologia faz do raciocínio evolucionista ao estudo do comportamento, ao comportamento é dado uma função adaptativa. E. O. Wilson parte do princípio de que, assim como a morfologia dos indivíduos é diversificada e hereditária, o comportamento de cada um deles também difere e é transmitido geneticamente de geração a geração. Portanto, a seleção natural opera sobre o comportamento como opera sobre a morfologia. Aplicando a premissa de que o comportamento é selecionado de acordo com sua adaptabilidade, a tendência dos machos mamíferos à promiscuidade e das fêmeas à maior seletividade na escolha de parceiros pode ser explicada alegando que a gestação e a lactação são dispendiosas para as fêmeas, enquanto não oferecem custo algum aos machos. Assim, machos que conseguem acasalar com grande número de fêmeas se tornam reprodutores mais eficientes, e fêmeas mais seletivas dão a luz apenas à prole dos melhores machos. Em conjunto, o comportamento sexual tanto do macho quanto da fêmea favorece a preservação da espécie, e por isso tem função adaptativa. É bastante plausível que a observação nos leve à conclusão de que homens são mais promíscuos que mulheres e que mulheres são mais reservadas na escolha de parceiros do que os homens. Dessa maneira, defensores da Sociobiologia podem explicar a diferença de papeis entre homens e mulheres quanto a escolha de parceiros relacionando-a à função adaptativa proposta ao tratamento dessa questão no caso dos mamíferos em geral. No entanto, justamente o fato de esta explicação abranger os mamíferos em geral coloca a ela um obstáculo. É possível que esse comportamento tenha sido herdado, pelos homens, de seus ancestrais mamíferos sem que ele represente de fato uma adaptação para a espécie humana. O fato de um traço morfológico ou de um comportamento ser transmitido de geração em geração, ao longo do processo evolutivo, por si só não garante que ele apresente hoje - ou que ele jamais tenha apresentado - uma função adaptativa. Doenças genéticas (doenças determinadas pelo genótipo sem a influência do ambiente) podem ter seu desenvolvimento traçado ao longo da evolução, e nem por isso é válido afirmar que elas tenham ou tenham tido qualquer função adaptativa. Ainda que a diferença de papeis possa ter tido uma função adaptativa para ancestrais do homem, nem por isso ela apresentará função semelhante na espécie humana.

Mas, a ênfase no adaptacionismo não é a principal crítica dirigida à Sociobiologia. O adaptacionismo também é um traço marcante da Psicologia Evolucionista. O principal problema apontado na Sociobiologia é o foco no comportamento. A análise do comportamento promíscuo dos homens, por exemplo, revela que o conquistador masculino precisa desenvolver diversas habilidades. A agressividade, a persuasão, a insistência, a tolerância à frustração, a tática e a estratégia, a comunicabilidade, a exploração da psicologia feminina, etc. Além de todas essas habilidades se entrelaçarem e serem umas dependentes das outras, elas também estão presentes em outros tantos comportamentos, de outras áreas. É provável que a análise de qualquer comportamento humano demonstre a presença dessas e de tantas outras habilidades, em combinações diversas.

Uma adaptação se desenvolve através de seleção cumulativa durante longos períodos de tempo. Nesse sentido, é esperado que uma adaptação se apresente nos indivíduos de uma espécie por gerações seguidas, independentemente das variações no ambiente. A diversidade cultural característica da espécie humana e a diversidade ambiental na qual o homem se desenvolveu e ainda vive colocam sérios obstáculos à premissa de que o comportamento seja produto da evolução e exiba função adaptativa. Se o raciocínio evolutivo pode ser de alguma forma aplicado ao comportamento humano, não é o comportamento em si que deve ser investigado sobre essa ótica, mas sim o desenvolvimento de faculdades cognitivas que permanecem constantes na diversidade cultural e ambiental. As mesmas faculdades cognitivas podem ser encontradas em homens que vivem em culturas diferentes e em ambientes diferentes. Elas representam adaptações estáveis que permitem ao homem se comportar diferentemente em contextos variáveis. Se essa premissa for válida, é possível argumentar que as diferenças comportamentais observadas em contextos diversos não são tão grandes assim, uma vez que elas subsumem a um denominador comum, qual seja, uma faculdade cognitiva que apenas opera diferentemente em cada circunstância. A premissa de que uma grande gama de comportamentos pode ser explicada pela combinação de poucas faculdades cognitivas fez nascer, no seio da Sociobiologia, a Psicologia Evolucionista. De maneira geral, a tarefa da Psicologia Evolucionista tem sido a de distinguir cada faculdade cognitiva que pode ser explicada por uma função adaptativa. Essas faculdades, assim identificadas, receberam o nome de algoritmos darwinianos.

A Psicologia Evolucionista superou muitos dos problemas ligados à Sociobiologia, mas ainda continuou presa ao adaptacionismo. As funções adaptativas dos algoritmos darwinianos são usualmente investigadas através do ‘pensamento adaptativo’. Pesquisadores procuram identificar os problemas enfrentados pelos nossos ancestrais para inferir a solução, ou a adaptação, desenvolvida pela seleção natural. Esse método é usualmente denominado ‘psicologia evolucionária preditiva’. O outro método corrente de investigação em Psicologia Evolucionista é o explanatório, que parte da observação de faculdades cognitivas presentes para a inferência de problemas adaptativos passados. É evidente que as faculdades cognitivas humanas se desenvolveram ao longo da história, desde nossos ancestrais hominídeos. Mas, não é tão evidente assim que esse desenvolvimento tenha se dado pelos mecanismos da seleção natural. Com efeito, a adaptação é uma resposta da espécie ao ambiente. O ambiente coloca à espécie um obstáculo e seleciona, entre as diferenças morfológicas ou cognitivas individuais, aquelas que lhe são mais adaptadas. Nessa concepção, o ambiente opera como variável independente, e a evolução do homem como variável dependente do ambiente. Ocorre, no entanto, que o homem é um animal social e cultural, e que muitos dos algoritmos darwinianos que interessam à Psicologia Evolutiva se desenvolveram como resposta ao ambiente social e cultural humano. Porém, se isso é verdade, a resposta adaptativa a um ambiente social e cultural é a resposta a uma resposta previamente dada, uma vez que o ambiente social e cultural inicial também é uma resposta do tipo. Conseqüentemente, o ambiente deve ser considerado uma variável dependente das exigências colocadas a ele pelo homem. Não é apenas o homem que se adapta ao ambiente; o ambiente também se adapta ao homem. ‘Homem’ e ‘ambiente’ variam juntos, um ao lado do outro. Deste argumento é possível retirar duas conclusões: Em primeiro lugar, no caso da espécie humana, a diferença entre ambiente natural e cultural não é relevante no estudo dos algoritmos darwinianos que interessam à Psicologia Evolucionista. Em segundo, o desenvolvimento filogenético dos algoritmos darwinianos não obedeceu necessariamente ao modelo da seleção natural, e por isso eles não possuem necessariamente a função de adaptação a um ambiente que opera como variável independente.

É um fato que somos seres de anatomia complexa e que nosso cérebro em especial é bastante complexo. É bastante provável que nós e nosso cérebro não tenhamos surgido com a morfologia que apresentamos hoje, que houve um longo período na história de nosso planeta no qual não havia qualquer vida orgânica, e que os primeiros organismos a nele surgirem eram unicelulares. Assim, a tese de que nosso cérebro é um produto da evolução é bastante factível. Entretanto, a tese de que essa evolução se deu pelo mecanismo da seleção natural e que funções cognitivas apresentam uma função adaptativa não é necessária. Não é necessário que haja adaptação cumulativa para haver evolução.

Stephen Gould e Richard Lewontin (1979) apresentam um modelo evolucionista alternativo ao ultra-adaptacionismo[1]. Para explicá-lo, eles propõem uma analogia: A cúpula da catedral de São Marcos em Veneza é sustentada por quatro arcos que tocam o chão. A base da cúpula forma quatro espaçamentos triangulares denominados spandrels com cada interseção de dois arcos. Em cada spandrel foi criada uma figura artística perfeitamente ajustada ao espaço dado. Os autores consideram as figuras desenhadas nos spandrels tão elaboradas, harmoniosas e cheias de propósito que somos tentados a tomá-las como as causas de toda a arquitetura ao redor, como se essa arquitetura tivesse sido modelada para que as figuras pudessem ser criadas nos spandrels. Entretanto, os spandrels são by-products das necessidades estruturais da cúpula, e as figuras foram desenhadas e ajustadas a um espaço que simplesmente estava disponível ali. Os spandrels existem por causa da estrutura da cúpula, e às vezes são preenchidos por figuras artísticas que se ajustam perfeitamente a eles. Em certo sentido, as figuras artísticas dos spandrels são adaptações: Elas se adaptaram ao espaço vazio criado por eles. Mas, esse não é o sentido em que ‘adaptação’ é utilizado na seleção natural: Não houve um obstáculo colocado pelo ambiente cuja superação forçou a seleção de certas figuras entre uma variedade de figuras já existentes. Os obstáculos colocados pelo ambiente foram superados pela formação estrutural da cúpula, que apresentou, como by-product, quatro spandrels que foram, por sua vez, preenchidos com figuras artísticas.

Gould e Lewontin não negam a adaptação como mecanismo evolutivo. Eles contestam a adaptação como único mecanismo do tipo. A estrutura da cúpula é uma adaptação ao ambiente. Conseqüentemente, os spandrels são by-products de uma adaptação. E as figuras artísticas neles desenhadas são formações que encontraram espaço para se desenvolver ali.

Um exemplo de evolução biológica trará a analogia mais para perto do nosso campo de interesse. Os autores se referem a Michael Harner (1997), que propôs serem os sacrifícios humanos astecas uma adaptação à escassez crônica de proteína, uma vez que os membros das vítimas eram consumidos. Segundo essa perspectiva, todo o elaborado sistema social asteca, e o complexo conjunto de explicações constituído por mito, simbologia e tradição envolvendo o canibalismo são meros epifenômenos produzidos como racionalizações inconscientes para sua “verdadeira” causa: a necessidade de proteína. Mas, os autores propõem uma interpretação inversa: O canibalismo como epifenômeno, ou como segundo epifenômeno, tal como as figuras dos spandrels: Uma cultura desenvolvida por outras razões que não a necessidade por proteína gerou um número elevado de corpos pela carnificina e deu a eles um uso: o consumo.

Marc Hauser, Noam Chomsky e W. Tecumseh Fitch (2002) aplicam esse modelo explicativo à faculdade da linguagem. Os autores consideram que o específico na linguagem humana é a recursividade, uma vez que a extensão ilimitada de uma língua natural só é possível pela habilidade recursiva de encaixar frases em frases. Entretanto, a recursividade não é exclusiva da faculdade da linguagem. Ela também é usada, por exemplo, na navegação, na quantificação numérica e em relacionamentos sociais. De fato, a antecipação intencional de uma ação mecânica ou de uma interação social envolve a análise, pelo sujeito, de si mesmo e do ambiente em que ele está. O sujeito reproduz, para si, a si mesmo e o ambiente em que está no planejamento da ação ou interação tencionada. Nesse sentido, a recursividade, além de não estar restrita à linguagem, também pode estar presente em outros animais, ainda que eles não tenham desenvolvido uma faculdade de linguagem como a nossa. Assim, os autores levantam a hipótese de que a recursividade tenha evoluído como uma adaptação, pelo mecanismo da seleção natural, e que a linguagem seja uma função recursiva que se desenvolveu posteriormente. O desenvolvimento da linguagem não foi impelido por forças seletivas. A recursividade, selecionada por suas razões próprias e apresentando sua função adaptativa particular, também apresentou, como by-product, a possibilidade de desenvolver a faculdade da linguagem que, não encontrando obstáculos ambientes definitivos, foi por isso desenvolvida e a capacidade para adquiri-la transmitida às gerações futuras. A possibilidade de desenvolver a faculdade da linguagem seria análoga a um spandrel, ou seja, uma conseqüência estrutural da recursividade, que não foi selecionada para que a linguagem fosse desenvolvida, mas em função de razões diversas. A linguagem, por sua vez, seria análoga à figura artística criada no spandrel, ou seja, uma faculdade que se desenvolveu porque a possibilidade para tanto era inerente à estrutura da recursividade e porque o ambiente não lhe apresentou nenhum obstáculo definitivo.

Como dito, é bastante factível que nosso cérebro seja um produto da evolução. Mas, a questão de decidir por quais processos ou mecanismos essa evolução ocorreu é empírico? Em caso positivo, é possível investigar as bases empíricas da evolução de nossas faculdades cognitivas ou essas bases já se perderam no passado? No caso de já terem se perdido, qual a cientificidade de uma Psicologia Evolucionista? E se o problema da Psicologia Evolucionista não for científico, apenas filosófico, como fugir da mera especulação? Será possível decidir a questão apenas com argumentos?

                                             b) O Papel Explicativo das Funções Evolutivas

Leda Cosmides e John Toobey, autores proponentes da Psicologia Evolucionista, descrevem a motivação geral do projeto nos seguintes termos:

O cérebro humano não caiu do céu como um artefato inescrutável de origem desconhecida, e não há mais nenhuma razão sensata para estudá-lo na ignorância dos processos causais que o desenvolveram.[2]

Como já foi problematizado, não está claro que as causas da evolução do cérebro tenham sido adaptativas. Entretanto, em que sentido as causas da evolução do cérebro podem operar como explicações do cérebro ou da mente postos em atividade? Tenham sido as causas da evolução do cérebro ou de nossas faculdades cognitivas adaptativas ou não, em que sentido o esclarecimento destas causas pode operar explicativamente na Psicologia e na Filosofia da Mente? Defensores da Psicologia Evolucionista defendem, em grande parte, o adaptacionismo. Mas, se a função adaptativa de uma faculdade cognitiva é presente, qual o sentido de estudar o histórico de seu desenvolvimento evolutivo? Não bastaria, para explicá-la, elucidar sua função adaptativa atual? Esse problema colocaria obstáculos ao método explanatório. Se a função adaptativa de uma faculdade cognitiva atual é passada, e ela exerce, atualmente, uma função diferente daquela para qual foi selecionada, também não bastaria, para explicá-la, elucidar essa função atual, ainda que ela não seja adaptativa? Esse problema colocaria obstáculos ao método predititivo.

Se o que interessa ao psicólogo evolucionista é a validade explicativa do raciocínio adaptacionista, a elucidação de suas funções adaptativas presentes já representaria uma aplicação deste raciocínio à explicação de faculdades cognitivas. O caso seria diferente se nossas faculdades cognitivas não demonstrassem funções adaptativas atuais. Mas, se o que interessa ao psicólogo evolucionista é a validade explicativa do histórico evolutivo de nossas faculdades cognitivas, superar a acusação de irrelevância teórica será bem mais complicado. Em todo caso, a premissa por trás da alegação de que funções evolutivas exercem papel explicativo de faculdades cognitivas é, segundo Kim Sterelny, que a função de um mecanismo psicológico é fazer aquilo que ele foi selecionado para fazer.[3]

Steven Pinker afirma em Tabula Rasa:

A diferença entre os mecanismos que impelem os organismos a comportar-se em tempo real e os mecanismos que moldaram a estrutura do organismo ao longo do tempo evolucionário é importante o suficiente para merecer seu próprio jargão. Uma causa próxima de comportamento é o mecanismo que aperta os botões do comportamento em tempo real, como a fome e a sensualidade, que impelem as pessoas a comer e a ter relações sexuais. Uma causa última é o funcionamento lógico adaptativo que levou a causa próxima a evoluir, como a necessidade de nutrição e reprodução que nos dá os impulsos de fome e desejo sexual. A distinção entre causação próxima e última é indispensável para a compreensão de nós mesmos, pois ela determina a resposta a toda pergunta na forma “Por que essa pessoa agiu assim?” Para dar um exemplo simples, em última instância as pessoas anseiam por sexo para reproduzir-se (pois a causa última do sexo é a reprodução), mas, analisando de uma perspectiva mais imediata, elas talvez façam todo o possível para não se reproduzir (porque a causa próxima do sexo é o prazer). (p.84-5)

Numa passagem de Como a Mente Funciona (p.166) Pinker ainda afirma que “A evolução concerne aos fins, e não aos meios”. Nesse sentido, a busca pelo prazer é o meio para a realização do fim (a reprodução), ainda que, muitas vezes, o meio possa ser um fim em si mesmo. 

Pinker fala em ‘necessidade de nutrição’, distinguindo-a da fome e situando-a como sua causa. Isso dá a entender que, no processo de evolução, organismos tenham passado pela necessidade de nutrição sem que ela se manifestasse num desconforto ou num sinal de alerta como a fome, e que tais organismos foram eliminados pela seleção natural. Em organismos atuais, a sensação de fome enquanto estado orgânico ou afetivo individual é a causa próxima da busca de alimentos. A fome opera como meio da causa última e essencial, a necessidade de nutrição, que deve ser suprida para que a espécie possa se adaptar e se preservar. 

O exemplo da ‘necessidade de reprodução’ é melhor para analisar o pensamento da Psicologia Evolucionista. A função evolutiva do instinto ou do impulso sexual, aqui tratado como um módulo cognitivo ou algoritmo darwiniano, é apontada, por Pinker, como a causa última do comportamento sexual individual. Este exemplo mostra que apesar de a Psicologia Evolucionista ter transferido seu foco de análise do comportamento para as faculdades cognitivas, o objeto final a ser explicado ainda é o comportamento enquanto comportamento individual. 

A função evolutiva do impulso sexual é, segundo Pinker, a reprodução. Entretanto, a reprodução é uma conseqüência do comportamento sexual individual. Com efeito, são as conseqüências do comportamento individual que tornam, a ele ou ao algoritmo darwiniano que o subjaz, candidatos à seleção natural. Mas, como uma conseqüência do comportamento pode vir a operar como sua causa última? 

O raciocínio segue a linha: O comportamento individual, que tem suas causas e motivações individuais, apresenta uma conseqüência adaptativa para a espécie. Esta conseqüência é transformada num objetivo ou finalidade buscados pela espécie, considerada aqui como um indivíduo dotado de interesses e intenções próprios. Entretanto, ainda que a espécie seja figurada metaforicamente como um indivíduo, ela só “age” através dos indivíduos reais que a constituem. Assim, os objetivos e finalidades buscados pela individualidade metafórica da espécie são atribuídos como objetivos, finalidades ou causas do comportamento individual. Conseqüentemente, a cada indivíduo é atribuída uma “predisposição instintiva” para agir em conformidade com o que é necessário para a preservação da espécie, ainda que esta predisposição seja inconsciente. Não há base lógica que sustente este raciocínio. 

Como justificar a predisposição instintiva, no indivíduo, para agir favoravelmente à preservação da espécie? Richard Dawkins forneceu uma resposta em The Selfsih Gene. Não é a espécie, como unidade, que almeja se preservar; é cada gene do genótipo individual. Dawkins desenvolveu a tese de que genes são entidades egoístas cujo único propósito é a replicação e a transmissão genética. Na replicação e na transmissão genética, os genes garantem sua preservação, e a garantia da preservação dos genes tem, por conseqüência, a preservação da espécie. Assim, a predisposição instintiva individual para a reprodução e a preservação da espécie foi substituída pela predisposição de cada gene para se replicar e propiciar sua transmissão às gerações futuras. E, para favorecer sua transmissão às gerações seguintes, os genes moldam o cérebro e o comportamento individual, ao longo da evolução, para garantir a eficácia reprodutiva e a preservação da espécie. Nesse processo, a busca dos objetivos individuais é apenas o meio para que os genes cumpram sua finalidade. Replicação e transmissão genética são as finalidade últimas do comportamento individual e, para cumpri-las, os genes podem inclusive dotar o cérebro de predisposições instintivas que coloquem em risco a felicidade e mesmo a vida do indivíduo, desde que a replicação e a transmissão genéticas saiam favorecidas[4]

A tese do gene egoísta elimina a tese metafísica de uma espécie dotada de auto-consciência que objetiva a auto-preservação. Mas, ela a substitui por outra tese metafísica, uma “psicologia dos genes”, por assim dizer. Deixando de lado o caráter metafísico e especulativo da questão, a tese de que o objetivo último dos genes é a replicação e a transmissão genética é, no mínimo, controversa. É possível elaborar uma “psicologia dos genes” muito mais realista. Ao invés de ‘replicação e transmissão genética’, podemos afirmar que o objetivo último dos genes é a síntese protéica, e que a replicação genética é um expediente necessário para manter o organismo vivo e a síntese protéica dos genes. Por que o objetivo último dos genes seria a transmissão genética? Fitas de DNA existem individualmente em cada célula, e elas morrem quando a célula ou o organismo morrem. O objetivo último dos genes deve ser, portanto, manter o organismo vivo. Dawkins elimina o pressuposto de uma “consciência de espécie” e a substitui pelo pressuposto de uma “consciência de espécie de genes”. A consciência de espécie pressupõe que o objetivo de cada geração de indivíduos é garantir a existência das próximas, para que a espécie possa assim se preservar. Dawkins pressupõe que um gene se preserva quando replicado e transmitido a um descendente, e que os genes que carregamos em nós possuem a “consciência” de já terem estado em inúmeras gerações passadas. Mas, assim como os indivíduos não têm uma “predisposição instintiva” para preservar a espécie, os genes de um organismo, ainda que idênticos em forma aos genes doutro organismo da mesma espécie, são diferentes deles, e morrem quando organismo morre. Se genes possuem um objetivo, esse será simplesmente o de fazer o que os genes fazem: Síntese protéica, indefinidamente. 

Se por um lado Dennett nega a existência de um projetista da evolução existente a priori (Deus), por outro, a tese do gene egoísta insere o projetista no organismo individual. Não apenas um projetista, mas quantos forem os nossos genes. A tese do gene egoísta confere à evolução um caráter finalista e teleológico: Ela se torna norteada pelo objetivo que cada gene tem de replicação e transmissão, e a evolução molda o cérebro e o comportamento da maneira mais eficaz para que este fim se cumpra. À pergunta “Por que temos o cérebro que temos?” é dada a resposta “Para que os genes possam se replicar e se transmitir com eficácia.” 

O organismo não age pelas necessidades da espécie; ele age pelas necessidades dele. Ainda que a reprodução possa ser considerada metaforicamente uma “necessidade da espécie”, para o organismo ela não representa necessidade alguma. Portanto, a reprodução não pode significar a causa do comportamento sexual, nem em primeira e nem em última instância. Ainda que as pessoas busquem o sexo para ter filhos, esse objetivo não será uma causa para o despertar do impulso sexual. As causas do desejo são orgânicas-psíquicas, e devem ser dadas ou por uma teoria neurocientífica ou por uma teoria psicológica. 

Ainda que o raciocínio evolucionista alegue validade na explicação da presença do impulso sexual, como algoritmo darwiniano, em todos os indivíduos, ele não pode alegar validade na explicação do comportamento sexual, nem como causa e nem como causa última. Se o objetivo da Psicologia Evolucionista é explicar o design da anatomia cerebral ou cognitiva humana, para este objetivo ela pode alegar validade, apesar das controvérsias. Mas, se seu objetivo é oferecer explicações para a psicologia ou o comportamento individual, então suas alegações são desde já inválidas. 

Razões evolucionistas são usadas como causa na explicação do comportamento individual quando da ausência de uma teoria que o explique ou como produto de funções orgânicas ou como o produto de funções mentais. E, como uma teoria biológica ou neurocientífica que explique o comportamento como tal depende da redução entre conceitos mentalistas e biológicos, resta-nos afirmar que explicações evolucionistas ocupam o lugar que deveria ser ocupado por explicações mentalistas. O Behaviorismo rejeita o mentalismo. O Behaviorismo não possui uma teoria psicológica. Conseqüentemente, ele não é capaz de explicar as causas últimas do comportamento sem buscá-las na seleção natural. A Psicologia Cognitiva é mentalista, e elabora teorias psicológicas. Mas, o mentalismo da Psicologia Cognitiva é fundado no modelo computacional. Esse modelo ajuda a produzir analogias mentalistas no estudo da percepção, da memória e do raciocínio em geral. O mesmo não ocorre no estudo das emoções e das relações humanas, por exemplo. Para essas questões, a Psicologia Cognitiva tem achado mais fácil encontrar razões evolucionistas do que explicações baseadas no modelo computacional. 

Quanto maior é o alcance das explicações mentalistas, menor é a necessidade de apelar para explicações evolucionistas. A Psicanálise, por exemplo, quase não faz uso delas. O impulso sexual se inclui entre as temáticas para as quais a Psicanálise ainda não apresentou uma explicação mentalista. A Psicanálise descobriu a sexualidade ali onde ninguém até então havia visto nada de sexual. Mas, o impulso sexual propriamente dito a Psicanálise continua tratando na conta de um “instinto” ou de pulsões que estão desde o início dadas ou instituídas pela natureza. Freud também atribuiu ao comportamento sexual a função da preservação da espécie, e todo comportamento sexual que extrapola aquele que possibilita a reprodução ele designou de perversões. No entanto, a extensão do evolucionismo na Psicanálise é muito menor que no Behaviorismo ou na Psicologia Cognitiva.


[1] Kim Sterelny compara as posições adaptacionistas de Dawkins com a posição crítica de Gould em Dawkins Vs Gould: Survival of the Fittest.


[2] “[t]he human brain did not fall out of the sky, an inscrutable artifact of unknown origin, and there is no longer any sensible reason for studying it in ignorance of the causal processes that developed it.” Origins of Domain-Specificity: The evolution of functional organization. In: Hirschfield L. and Gelman S. (eds), p.85


[3] “a psychological mechanism’s job is what it has been selected to do”, Evolutionary Explanations of Human Behavior. Australasian Journal of Philosophy 70, June 1992: p. 170

[4] R.C. Lewontin, Steven Rose e Leon J. Kamin apresentaram em Not in Our Genes: Biology, Ideology, and Human Nature uma crítica à tese de Dawkins associando o reducionismo biológico à ideologia burguesa. Apesar da crítica dos autores ter alcançado repercussão, ela está apenas indiretamente ligada à crítica desenvolvida neste projeto.


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Um comentário:

  1. Ao ler sobre psicologia evolutiva tem que se ter em mente que o que é herdado não é o comportamento, é a capacidade de realizar não apenas um determinado, mas vários comportamentos (o genótipo). A nossa inteligência se diferencia da dos animais em geral pois conseguimos medir as consequências dos nossos comportamentos: um tatu cava um buraco porque mediate a um local propício para a atividade, seus sensores biológicos disparam fatores psicológicos e cognitivos que o induzem à aquela atividade. Um leão com fome ao sentir o cheiro de uma Zebra dispara a caçá-la, mas não sabe que é porque está com fome! Seu INSTINTO o manda.
    Nós, ao nascermos não temos o comportamento formado, aliás, não temos algum comportamento. quando bebês, agimos apenas por instinto, nosso comportamento será moldado pelo ambiente em que vivemos. Uma criança criada por lobos (por exemplo) não têm seu corpo totalmente adaptado a esse estilo de vida, mas ela herda fatores psicológicos que permitem rearranjar parte de seu fenótipo aquela nova situação.
    Isso demonstra de forma superficial a idéia da psicologia evolutiva, uma vez que como animais, herdamos ainda comportamentos que se estabeleceram em uma época que ainda éramos hominídeos! Quer um exemplo? pessoas que urinam e defecam defronte uma situação de medo! Você não aprende isso durante sua vida, isso é o mesmo mecanismo que faz o tatu cavar o buraco e o leão correr atrás da Zebra: o seu INSTINTO!
    Acredito que a psicologia evolutiva faz muito sentido, porém tem muito ainda a se desenvolver. aguardemos as cenas dos próximos capítulos!! rs...
    Abraços

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