quinta-feira, 26 de abril de 2012

Memória, Percepção e Tempo

Este post é um excerto da segunda edição de meu livro Princípios de Psicologia Dinâmica.

Uma das temáticas mais difíceis da Psicologia, e talvez a mais importante de todas, é a memória. A dificuldade ligada a esse assunto se reflete nas alegorias que até hoje são usadas para significar o que a memória é. Praticamente todos os conceitos de memória disponíveis na Psicologia, na Filosofia e na ciência implicam alguma imagem sobre armazenamento ou registro de dados. A teoria behaviorista fala de “modificações no organismo”, mas esta definição é tão vaga quanto vazia. Não é possível conceber o eu numa perspectiva dinâmica se sua noção traz implícita a imagem de um saco de bagagens em que ele acumula recordações do passado.

A Percepção é uma Atividade Mnêmica

É preciso desconstruir o conceito de memória como um armazenamento ou registro de dados. E o primeiro passo dessa desconstrução é analisar a relação entre memória e percepção. Para o senso-comum, a percepção é a experiência do mundo presente; o mundo que vemos, escutamos, tateamos, provamos e cheiramos agora. A memória, por sua vez, é a recordação do mundo que passou, mesmo que tenha passado apenas há alguns instantes. Entretanto, o mundo presente, ou o tempo presente não se distingue precisamente do mundo que já passou e do mundo que ainda não veio a ser. Nas suas Confissões, Agostinho constata que o tempo presente pode ser este minuto, este dia, este mês, este ano, está década, etc. E, enquanto vivemos o minuto presente, por exemplo, há alguns segundos deste minuto que já se passaram e outros que ainda virão até que o minuto se complete. O mesmo vale se considerarmos que o presente é o segundo presente, ou o milésimo de segundo presente. Não há uma unidade indivisível de tempo a que possamos nomear de ‘tempo presente’.

O Passado Existe no Presente

A premissa de que não existe presente sem passado pode ser constatada se atentarmos para o fato de que uma sentença verbal, uma melodia ou um movimento só constituem eventos presentes e percebidos no presente se sua percepção for um efeito da memória. Com efeito, se a percepção auditiva de uma sentença verbal não fosse um evento mnêmico, a seqüência de fonemas pronunciados pelo interlocutor se perderia, um a um, e a coisa percebida, em última instância, seria apenas o último fonema pronunciado, não a seqüência inteira que constitui uma sentença e que pode ser dividida em palavras. E, mesmo este último fonema se perderia após ser escutado, não restando, finalmente, absolutamente nada para ser percebido. Uma sentença pronunciada só é percebida como uma sentença porque cada fonema pronunciado pelo interlocutor é retido na memória, e quando o último fonema é pronunciado, ele é acrescentado como a última peça de uma série e eventos que já passaram, mas que ficaram retidos na memória. Se não houvesse a retenção da memória, cada fonema seria esquecido assim que fosse pronunciado, e o último fonema, ao invés de compreendido como a última peça de uma sentença, seria compreendido como um evento isolado, que também seria esquecido logo a seguir. A percepção de um movimento segue o mesmo padrão. Se eu desenhar um círculo com o dedo indicador, um observador só vai perceber o movimento como o desenho de um círculo, e só vai compreender o movimento completo como um círculo desenhado se ele retiver na memória cada movimento particular, até que todo o movimento se complete. Na audição de uma melodia, somente a retenção de cada nota musical passada permite perceber as variações, os compassos, etc. Se cada nota emitida fosse imediatamente esquecida, não haveria melodia alguma.

Sem a retenção do passado imediato pela memória não há percepção do movimento, não há audição de melodias e nem é possível a compreensão de sentenças. Mas, nada disso ainda mostra que sem o passado não há presente. Ainda assim é possível, diriam alguns, que o fonema pronunciado agora seja percebido, que o sub-movimento executado agora seja percebido e a nota musical emitida agora seja percebida. A maneira mais simples de refutar essa objeção seria recorrer ao argumento que também um fonema, um sub-movimento e uma nota são eventos que podem ser divididos ao infinito, e que nunca se chegaria a um elemento indivisível, aquele que representaria o presente absoluto. Este é, inclusive, o argumento de Agostinho.

Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela que, apesar de este argumento matemático, ou o argumento da infinita divisibilidade, não ser equivocado, ele é, no entanto, grosseiro e superficial. A essência da relação entre presente e passado não é matemática; ela é dinâmica. O presente não existe sem passado porque o presente é imediatamente passado, ou seja, o presente já não é mais, já deixou de ser, já passou. Por sua vez, o passado é imediatamente presente, ou seja, o passado ainda é, veio a ser, é agora. A forma mais clara de mostrar a evidência desta relação está na observação do movimento, tal como do movimento circular executado pelo dedo indicador. Durante sua execução, a percepção presente nos apresenta o dedo num rastro de inúmeras posições que ele não ocupa mais. Isso é o que significa afirmar que o passado é imediatamente presente. Por sua vez, nesta mesma percepção presente, a posição que o dedo ocupa agora já é uma posição que ele deixou de ocupar. Isso é o que significa afirmar que o presente é imediatamente passado. O que é percebido, na prática, não é o dedo na posição ocupada por ele agora, em vários momentos consecutivos, mas um rastro que é ao mesmo tempo presente e passado; é o passado que ainda é presente e o presente que já se tornou passado. Com efeito, perceber o movimento de um objeto é percebê-lo ali onde ele não está mais.

O Futuro Existe no Presente

O presente é intangível e inapreensível porque aquilo que é já deixou de ser, e aquilo que já deixou de ser ainda é. E, por essa razão, a percepção é memória. Se o tempo presente já passou, a percepção do momento presente já é uma ação de retenção mnêmica. Mas, este é apenas um dos lados da questão. O outro lado nos leva a crer que o presente é inatingível e inapreensível porque, além de ele já ter deixado de ser, ele ainda não veio a ser. O presente ainda não é, e por essa razão o tempo presente também está relacionado ao tempo futuro.

O momento presente só seria indivisível caso fosse completo. Mas, o momento presente nunca se completa. Ainda que o passado seja presente e que o presente seja passado, se este passado-presente se completasse neste instante, teríamos em mãos um todo ao qual poderíamos denominar ‘tempo’ ou ‘presente’. Mas, o momento presente nunca se completa. O término do segundo presente é imediatamente o início do segundo seguinte, que agora é o segundo presente. E o mesmo vale para a relação entre o dia presente e o dia seguinte, o mês presente e o mês seguinte, o ano presente e o ano seguinte. Estamos sempre vivendo o ano presente, o mês presente, o dia presente e o segundo presente. E, apesar de um dia conter milhares de segundos, nunca deixamos de viver o segundo presente. Nem ao longo de um ano inteiro deixamos de estar sempre vivendo o segundo presente. O segundo seguinte é agora presente, e agora está presente o segundo seguinte a ele. O segundo presente nunca se completa. Ele aponta indefinidamente para o futuro.

O segundo presente nunca se completa porque na percepção do segundo presente o segundo seguinte já está antecipado. E a antecipação do futuro, assim como a retenção do passado, é uma ação mnêmica.

Na audição de uma melodia, os movimentos seguintes são antecipados na percepção da nota presente; na compreensão de uma sentença proferida, o sentido do todo é antecipado na audição do fonema presente e antes de a sentença inteira ser completada; na percepção visual do movimento circular de um dedo indicador, a forma final é antecipada na percepção do sub-movimento presente, e antes de o movimento se completar.

Se por um lado a retenção do passado imediato na percepção do tempo presente pode parecer evidente, a antecipação do futuro imediato na percepção do tempo presente pode parecer problemática: Pode parecer que estou condicionando a percepção do presente à premonição do futuro. Mas, não estou falando de premonição e sim de antecipação, e nem tudo que é antecipado se realiza como presente.

Na compreensão de uma sentença oral, o sentido final é antecipado logo na pronúncia dos primeiros fonemas, inicialmente de forma vaga, depois de forma mais precisa, e o sentido antecipado vai sendo confirmado ou não por aquilo que o interlocutor vai dizendo, e, no caso de não ser confirmado, sendo modificado de acordo com o sentido dado à parte da sentença proferida até o momento. O mesmo vale para a percepção do movimento circular do dedo: Quando o movimento é iniciado, o observador antecipa apenas vagamente o que aquele movimento pode ser e como ele será concluído, até que, completado meio círculo, ele já pode antecipar com mais clareza sua forma final. Isso, no entanto, não significa que o executor do movimento não possa terminar, finalmente, realizando uma forma diferente, tal como uma seqüência de meios círculos, etc. E um compasso musical sempre cria a expectativa de que movimento virá a seguir, não significando que o compositor tenha a obrigação de seguir aquilo que fora antecipado pelo ouvinte. Quer a antecipação do futuro imediato se confirme ou não pela experiência, o fato é que a antecipação sempre está presente no presente. Ela não pode ocorrer no futuro, ou num momento distinto do presente. A percepção do presente ocorre na antecipação do futuro. O presente é antecipação do futuro imediato e o futuro imediatamente antecipado é o presente. O presente é imediatamente futuro, e o futuro é imediatamente presente. Aquilo que é ainda não veio a ser, e o que anda não veio a ser já é.

O Presente é a Identidade entre Passado e Futuro

O presente é imediatamente a retenção do passado e a antecipação do futuro. Assim, podemos descrever o presente como uma convergência entre passado e futuro. O passado retido e o futuro antecipado são presentificados

A Antecipação do Futuro é Função da Memória

A antecipação também é função da memória. À percepção de um meio círculo, o observador antecipa que o movimento resultará na conclusão de um círculo porque foi assim que diversos movimentos anteriores semelhantes terminaram. À audição de parte de um compasso musical, seu restante é antecipado pelo ouvinte porque ele já escutou anteriormente diversos compassos semelhantes. A antecipação do sentido de uma frase é determinada por aquilo que o sujeito já vivenciou em situações semelhantes, com a mesma pessoa ou outras semelhantes, em conversas semelhantes. Mesmo a antecipação de eventos longínquos é determinada por eventos semelhantes já experimentados. O futuro é sempre antecipado como uma reedição do passado. Os sonhos e devaneios mais excêntricos são resultantes de experiências de desejos satisfeitos ou frustrados anteriormente nas quais a reedição da satisfação ou da frustração é antecipada de forma irrealista.

Na prática, isso significa apenas aquilo que o senso-comum sempre soube: Que nosso presente jamais se desfaz das recordações do passado e das expectativas quanto ao futuro. O que é novidade para o senso-comum é que não há presente algum, mesmo o do milésimo de segundo presente, que não seja determinado pela retenção do passado e pela antecipação do futuro. O presente não é o meio-termo entre passado e futuro; ele é uma relação entre passado e futuro. Neste sentido, o presente não existe. Mas, se nesta relação entre passado e futuro a retenção do passado e a antecipação convergem e se presentificam, isso que dizer que ‘retenção’ e ‘antecipação’ são idênticas e que o nome desta identidade é presente. Neste sentido, passado e futuro não existem, somente o presente, e as expressões ‘retenção’ e ‘antecipação’ carecem de sentido. Não há um passado a ser retido ou um futuro a ser antecipado. Há apenas o presente.

O Futuro e o Passado são Diferentes do Presente

Por sua vez, se é verdade que o presente é a convergência entre passado e futuro, é justamente a análise da antecipação que nos força a concluir que o futuro antecipado também diverge daquele que foi presentificado, mesmo quando a presentificação serve de confirmação para a antecipação. Pois, se o futuro antecipado se realizasse tal como fora antecipado, ele se tornaria presente por completo, e não haveria mais o que ser antecipado, ou seja, não haveria mais futuro algum. Mas, a observação nos força a concluir que mesmo na confirmação presente da antecipação, a antecipação continua a ser presente. A confirmação da antecipação não elimina a própria antecipação. A presentificação do futuro imediatamente antecipado é imediata a uma nova antecipação, e sua existência imediata é tal, que o futuro presentificado é sempre diferente do futuro antecipado. Assim, o futuro antecipado jamais é presentificado. Entre a antecipação do futuro e a presentificação do futuro há, simultaneamente à convergência, a divergência.

A divergência também opera entre passado e presente. Com efeito, o passado retido nunca é plenamente presentificado. É assim que a nota musical que acabou de ser tocada se torna diferente da que está sendo tocada; que o fonema que acabou de ser pronunciado se torna diferente do que está sendo pronunciado, que o lugar não ocupado pelo dedo anteriormente na execução do movimento circular se torna diferente do lugar não ocupado por ele agora; enfim, é assim que o segundo passado se torna diferente do segundo presente. O passado retido pela memória, mesmo presentificado, não elimina a retenção. A presentificação do passado existe imediatamente à retenção do passado, e existe imediatamente de tal forma que o passado presentificado é sempre diferente do passado retido. Assim, entre o passado presentificado e o passado retido há, simultaneamente à convergência, a divergência.

O Presente é a Contradição entre Passado e Futuro

Entretanto, é também verdade que o lugar que o dedo, na execução do movimento circular, acabou de ocupar, mesmo diferente do lugar que o dedo não ocupa mais agora, é presentificado imediatamente a ele. Não é verdade que a percepção do movimento circular do dedo indicador ocorre na forma de um rastro? Neste rastro, o dedo é percebido em diversas posições diferentes; em todas estas posições ele não pode mais ser encontrado, e, mesmo assim, todas estas posições são percebidas imediatamente, ou seja, são diferentes momentos do passado, todos eles retidos pela memória, e que são presentificados simultaneamente. Semelhantemente, a nota musical que acabou de ser tocada, mesmo diferente da nota que está sendo tocada agora, é presentificada simultaneamente a ela; e o fonema que acabou de ser pronunciado, mesmo diferente do fonema que está sendo pronunciado agora, é presentificado simultaneamente a ele.

A divergência entre passado e futuro existe na convergência entre eles; e a convergência entre ambos também existe na sua convergência. Isso significa que na ausência da convergência não há divergência, e que na ausência da divergência não há convergência. O tempo presente é um paradoxo. Ele é a resultante da contradição entre passado e futuro. Por essa razão, o tempo não pode ser pensado; ele só pode ser experimentado, e a experiência do tempo - que é sempre a experiência do tempo presente - é inapreensível. O tempo presente não pode ser apreendido, não pode ser objetivado, delimitado, precisado. O tempo só pode ser pensado caso suas duas perspectivas contraditórias (a convergência entre passado e futuro e a divergência entre passado e futuro) sejam consideradas uma a uma, e depois relacionadas. Não é possível pensar imediatamente a contradição entre as duas perspectivas do tempo. Por essa razão, o tempo é uma sensação, uma experiência subjetiva inapreensível e completamente fora do alcance da metodologia científica.
 
A única representação adequada do tempo é a que situa dois vetores-força divergentes e dois vetores-força convergentes entre passado e futuro. Este esquema representa a contradição entre a convergência e a divergência situadas entre o passado e o futuro a qual denominamos ‘presente’. Mas, não há um ponto neste esquema em que o presente possa ser representado. O presente é justamente a relação indeterminada e inapreensível entre passado e futuro. Comparando essa representação do tempo com a representação usual de uma linha reta, de mesma direção e sentido, que parte do passado, passa pelo presente e aponta para o futuro, constatamos quão vulgar e insuficiente foi a compreensão que conseguimos obter sobre o tempo até aqui. Com efeito, não conseguimos produzir nada melhor do que a já citada reflexão de Agostinho nas Confissões, na qual ele terminou afirmando que o tempo é uma espécie de “extensão da alma”. Isso significa que, até aqui, em nossas análises sobre o tempo não conseguimos produzir nada melhor do que uma simples alegoria. 

O Tempo não é Uma Realidade Física

A razão para termos progredido tão pouco na compreensão do tempo é bastante simples. Apesar de Agostinho tê-lo tratado na perspectiva adequada, a subjetiva, desde Newton o estudo do tempo foi definitivamente formalizado como uma variável física. Entretanto, o insight sobre a natureza do tempo nos força a questionar sua hipotética natureza física. Se o tempo presente é uma relação entre o passado retido pela memória e a antecipação do futuro realizada por ela, como o tempo pode ser uma variável física? Como o que já deixou de ser pode continuar sendo, e como o que ainda não veio a ser pode já ter vindo a ser para determinar aquilo que é agora? No que me concerne, não consigo encontrar maneira alguma de conceber o tempo a não ser como uma realidade subjetiva.

 A Memória como Evidência de que o Tempo é uma Realidade Física

Uma das evidências mais fortes para a caracterização do tempo como uma realidade física é a memória no sentido de recordação. Com efeito, a percepção do tempo presente ou do mundo presente é o que o senso-comum efetivamente denomina percepção. A memória, tanto no sentido da recordação quanto no sentido dos sonhos diurnos, planos e devaneios projetados no futuro, constitui a atividade daquela função psíquica que o senso-comum denomina imaginação. As recordações servem de evidência para a realidade física do tempo porque são significadas como registros das modificações sucessivas sofridas pelo mundo e pelo próprio sujeito. Com efeito, a memória, segundo a interpretação da maioria das pessoas, traz guardada uma série de registros sucessivos que evidenciam o fato de o mundo presente ser diferente do mesmo mundo em diversos momentos passados. E, como o mundo poderia sofrer modificações se sua realidade física e objetiva não fosse temporal?

Recordações são Vividas no Presente

Recordações são eventos perceptivos que, apesar de presentificados, reservam uma diferença significativa com aquilo que é significado como ‘tempo presente’. Apesar de, no rastro deixado pelo movimento do dedo indicativo, quando da execução de um movimento circular no ar, diversos momentos passados serem presentificados simultaneamente, a percepção de todos estes momentos é significada como ‘presente’. Uma recordação, pelo contrário, apesar de igualmente presentificada e percebida simultaneamente em tempo presente, é distinguida da percepção presente e significada como a re-produção de um momento passado. Tanto a percepção do mundo presente quanto a recordação do mundo num momento passado são percebidas simultaneamente. O sujeito não pára de perceber o mundo presente para recordá-lo em algum momento passado. E a recordação de um momento passado não é, ela mesma, um evento passado; ela ocorre agora, no tempo presente.

As modificações no mundo são significadas a partir das modificações sofridas pelo próprio sujeito. O mundo que passa por um terremoto sofre modificações drásticas de um momento a outro; mesmo assim, entre a percepção do mundo que acabou de passar pelo terremoto e o mundo que existia um dia antes, a sensação de lapso temporal não é grande. Por sua vez, mesmo o mundo que permanece inalterado será recordado, algumas décadas depois, como um mundo cuja existência jaz no passado longínquo, pois o sujeito passou por várias experiências neste lapso de tempo e sofreu muitas modificações. Assim, quanto maior for o contraste entre o significado atribuído ao sujeito no tempo presente e o significado atribuído ao sujeito num momento passado, maior será a sensação de lapso de tempo entre as duas representações do mundo.

Em primeiro lugar, é preciso salientar mais uma vez que tanto a percepção presente quanto a recordação são simultaneamente presentificadas. Não há lapso temporal algum entre elas. A sensação de lapso temporal é resultante do significado atribuído à relação entre elas. Uma recordação é um fenômeno presente, não uma volta ao passado. Se esta alegação for bem compreendida, ela por si só já será o bastante para refutar a noção da memória como evidência da existência do passado. Ninguém volta ao passado através de recordações. Recordações são sempre eventos presentes, e a sensação de lapso temporal entre o que é recordado e o que é percebido também é uma sensação presente. É preciso, pois, analisar esta sensação e elucidar a ilusão provocada por ela.

Análise da Sensação de Lapso Temporal

A convergência entre passado e futuro no presente significa que o presente é a identidade entre passado e futuro. A divergência entre passado e futuro no presente significa que o presente é a diferença entre passado e futuro. E a contradição entre convergência e divergência significa que a identidade existe na diferença, e que a diferença existe na identidade. Assim, tudo que é experimentado é idêntico no sentido de estar sendo vivido. O presente é igualmente sempre experimentado, sempre vivido. Esta condição identifica todas as coisas que são presentes. A diferença, quando instituída na identidade daquilo que é vivido e experimentado, estabelece a distinção entre aquilo que não está sendo vivido e aquilo que está sendo vivido. Mas, aquilo que não está sendo vivido só pode se diferenciar daquilo que está sendo vivido ou por já ter sido vivido ou por não ter sido vivido ainda.

A diferença naquilo que está sendo vivido é necessariamente significada tanto como aquilo que já foi vivido quanto como aquilo que ainda não foi vivido. Não existe presente sem retenção do passado e antecipação do futuro. Necessariamente, toda atividade de percepção do presente, além de ser em si mesma resultante da identidade entre retenção e antecipação, é acompanhada da atividade da imaginação, e a atividade da imaginação também tem sempre o significado de uma convergência entre passado e futuro, apesar de isso ser difícil de notar à primeira vista.

Mesmo quando submersos numa recordação longínqua, estamos rodeados pela antecipação do que está por vir, ainda que no futuro imediato. Quem anda pela rua recordando os tempos de infância está simultaneamente planejando o trajeto que precisa fazer e antecipando seus movimentos futuros. Também aquele que recorda sua infância deitado na cama durante a noite: Ele está recordando sua infância e ao mesmo tempo antecipando, conscientemente ou não, que permanecerá deitado ali ainda por algum tempo.

O mesmo vale para a antecipação do futuro. Antecipações do futuro se distinguem em planos e devaneios. ‘Planos’ são antecipações que o sujeito espera presentificar; devaneios são aquelas antecipações que transitam, para o próprio sujeito, entre o pouco provável e o impossível. Tanto o sujeito que anda pela rua quanto aquele que está de noite na cama tecendo planos ou devaneios preserva a consciência imediata do caminho que percorreu até ali ou do tempo que já passou na cama, de quantas vezes revirou de um lado para o outro, etc.

A atividade da imaginação, seja na recordação seja na antecipação, é presentificada na identidade entre uma coisa e outra e na diferença entre uma coisa e outra. A recordação está na antecipação, e a antecipação está na recordação. Ambas são simultaneamente idênticas e diferentes. É possível que a identidade entre retenção e antecipação na atividade da imaginação possa adquirir significados curiosos. A antecipação daquilo que ainda não foi vivido pode ser significada como a projeção de um passado que, possível ou impossível, não se presentificou jamais. As pessoas comumente se arrependem do que fizeram ou do que deixaram de fazer e se deixam perder em devaneios de como as coisas poderiam ter sido diferentes.

A diferença entre o que está sendo vivido e o que não está sendo vivido é marcada pela distinção na intensidade perceptiva. A atividade da imaginação é caracterizada por intensidade sensorial fraca e por imagens fluidas e imprecisas, enquanto a atividade perceptiva é marcada pela intensidade sensorial forte e por imagens bem definidas e precisas. Mesmo a retenção e a antecipação presentificadas na percepção são sensorialmente mais fracas, quando distinguidas uma da outra, do que são quando idênticas na forma do presente. Na percepção do movimento circular do dedo, a retenção das posições que o dedo acabou de deixar ocupa os estratos sensorialmente mais fracos e longínquos do rastro deixado por ele, e a antecipação do movimento concluído mal chega a se presentificar perceptualmente, permanecendo mais como uma idéia. Por sua vez, a identidade entre retenção e antecipação, ou seja, a percepção da posição que o dedo deixou de ocupar agora, apresenta a máxima intensidade sensorial.

A intensidade sensorial é maior na convergência entre passado e futuro e vai se tornando mais fraca à medida em que passado e futuro divergem. A intensidade sensorial constante da percepção do mundo presente se deve à constância entre o que foi retido e antecipado, por um lado, e a identidade da retenção e da antecipação, por outro. Em outros termos, o mundo percebido no segundo presente sustenta enorme constância com o mundo retido um segundo antes e com o mundo antecipado um segundo depois. Entretanto, caso não houvesse nada de constante no mundo, caso todos os objetos do mundo e o seu pano de fundo existissem em movimentos rápidos, desordenados e não-padronizados, a intensidade sensorial da percepção do mundo presente seria semelhante à dos últimos estratos do rastro do dedo em movimento circular.

A maior intensidade sensorial na convergência entre retenção e antecipação indica que naquele ponto intangível e inapreensível a vida está acontecendo aqui e agora, enquanto aquilo que diverge do aqui e agora não está sendo vivido, seja por já ter sido vivido seja por não ter sido vivido ainda. Esse é o significado dado à retenção e à antecipação quando distintamente localizadas na atividade da imaginação e distinguidas da atividade perceptiva, ou seja, este é o significado dado às recordações e aos devaneios. Mas, apesar da fraca intensidade sensorial apresentada por recordações e devaneios, o fato é que é toda recordação é experimentada no presente, assim como todo e qualquer devaneio. Elas são significadas como aquilo que não está sendo vivido agora, mas o fato é que estão sim sendo vividas agora, no presente.

O presente é, por um lado, a identidade entre passado e futuro. Por outro, é a diferença entre eles. Mas, a diferença entre passado e futuro existe na identidade entre eles, e vice-versa. Todo passado significado como passado é distinguido do presente, mas sustenta a identidade implícita com ele; e todo futuro significado como futuro é distinguido do presente, mas sustenta a identidade implícita com ele. Assim, todo o passado significado como passado apresenta o sentido, devido à sua identidade com o presente, de um antecedente causal do presente; e todo o futuro significado como futuro apresenta o sentido, devido à sua identidade com o presente, de uma conseqüência possível do presente.

A sensação de lapso temporal é determinada pela divergência, por um lado, entre o passado retido e o presentificado e, pelo outro, entre o futuro antecipado e o presentificado. Em outras palavras, se tomarmos, por um lado, um número de experiências sucessivas significadas como novas e inesperadas e, por outro, o mesmo número de experiências sucessivas significadas como semelhantes e previsíveis, a sensação de lapso temporal entre a primeira e a última experiência será maior na série nova e inesperada do que na série semelhante e previsível. Na série nova e inesperada, a relação causal entre a primeira e a última experiência é significada como distante, uma vez que, desde sua partida na experiência inicial, a cadeia causal percorreu inúmeros e variados passos até chegar ao final, dando à última experiência da série a conotação de um efeito bem diferente da causa inicial. Na série semelhante e previsível, a relação causal entre a primeira e a última experiência é significada como próxima, uma vez que, desde sua partida na experiência inicial, a cadeia causal percorreu, até chegar ao final, passos que, apesar de inúmeros, são semelhantes, dando à ultima experiência da série a conotação de um efeito bastante parecido com a causa inicial.

Mas, se mesmo bem diferente da última experiência, a primeira experiência da série nova e inesperada ainda é significada como sua causa, na representação da última experiência como ‘presente’ e da primeira como uma ‘recordação’ toda a série intermediária está implícita. Afinal de contas, uma das perspectivas do paradoxo temporal nos informa que todas as representações, seja do passado, do presente ou do futuro são idênticas. É esse o contraste entre o presente e uma recordação que confere a relação de ambos a sensação de lapso temporal. Porém, o aumento da distância causal entre os eventos que se aproximam do início da série e o evento presente não deve ser tomado como diminuição da importância causal entre eventos mais distantes e o evento presente. Não necessariamente o sujeito considera que um evento mais distante no tempo tenha menos importância causal no seu presente do que um evento mais próximo.

O Passado é uma Ficção

Toda essa dissertação sobre séries temporais de experiências é necessária para esclarecer a origem da sensação de lapso de tempo entre uma recordação e o presente. Entretanto, na explicação desta sensação estão presentes todos os pressupostos que precisam ser desconstruídos na defesa da tese de que a memória não é uma forma de registro ou armazenamento de fatos passados.

A identidade entre passado e presente determina que toda diferenciação entre passado e presente seja significada como uma relação causal entre passado e presente na qual o passado aparece como um antecedente temporal do presente. Mas, o que se entende por ‘passado’ aqui é o que se chama de ‘recordação’. E por mais óbvio ou redundante que isso possa parecer, uma recordação é recordada no presente. Assim, aquilo que foi vivido e está sendo recordado está, na verdade, sendo vivido agora. Trata-se de uma vivência atual que é significada como uma vivência passada. Nós não temos qualquer acesso ao que se encontra no passado. Nosso único acesso é ao presente. Temos acesso a representações que são significadas como momentos anteriores de nossa experiência, mas que são parte viva e verdadeira de nosso presente. O passado só existe como presentificado; o passado só existe no presente, o que equivale a dizer que somente o presente existe, e que o passado é uma ficção

A recordação de algo que um dia fomos, sentimos ou experimentamos é a vivência presente de algo que somos, estamos sentindo e estamos experimentando. Não se trata da vivência de algo que ainda somos, ainda sentimos e ainda experimentamos. O ‘ainda’ faz referência ao passado que continua a ser; mas o passado não existe. A recordação de algo que fomos é a vivência de algo que somos. E se a razão nos convence de que na verdade não somos agora aquilo que já fomos, então a experiência vívida e presente daquilo que fomos não passa de uma ilusão, e isso significa que não existe qualquer relação causal entre o que fomos e o que somos hoje.

A memória cria a ilusão de que o presente é o efeito de uma série causal de eventos temporais passados. Mas, toda esta assim denominada “série de eventos temporais” está implícita aqui e agora na identidade com o presente. No entanto, o eu que vive na crença ilusória da existência do passado não é um ‘aqui e agora’; ele é uma história; um tempo que já passou e um futuro que ainda não chegou.

Condicionados por essa ilusão, pacientes chegam à psicoterapia trazendo nas costas uma bagagem repleta de experiências passadas traumáticas e questões mal-resolvidas, e os psicólogos se desdobram na invenção de métodos psicoterapêuticos que investigam sua história de vida em busca de “fixações” ou “contingências de reforço”. Mal sabem eles que tanto eles próprios quanto seus pacientes não carregam bagagem alguma. Do tempo nada permanece e nada levamos conosco; do tempo, temos à mão apenas o presente imediato.

Recordações são Produções, não Re-Produções


O sujeito tem à sua mão apenas o presente imediato. Assim, a memória não pode funcionar da maneira alegórica que até então vigorou nos estudos sobre o tema. De forma geral, o funcionamento da memória vem sendo entendido assim: Um evento mundano é produzido, registrado e guardado pela memória que o disponibiliza para ser re-produzido sempre que o sujeito quiser. Porém, uma vez que o passado é uma ficção, a produção do evento no passado é uma ficção, e sua re-produção na forma de recordação é, na verdade, sua produção. Recordações são produções de eventos, não reproduções de eventos. Isso significa que a imagem produzida na recordação nunca existiu antes. Não se trata de um registro pré-existente, que estava ali guardado, e que foi eventualmente acessado; trata-se de algo inteiramente novo, nunca antes produzido, e que está sendo originalmente produzido agora.

Na explicação da sensação de lapso temporal, afirmei que a série de experiências passadas existe implicitamente na identidade com o presente e com a recordação presentificada. Mas, eu também afirmei que nesta explicação estavam todos os pressupostos sobre a memória que precisavam ser desconstruídos. A existência implícita de experiências passadas na identidade com o presente pode ser erroneamente entendida como uma forma de registro. Mas, aquilo que está implícito não existe a não ser como possibilidade. Não se trata da existência atual e explícita de alguma coisa; trata-se de algo que pode vir-a-ser ou não. Tudo o que existe na psique é o conteúdo da consciência imediata. Se sua consciência imediata é a percepção destas letras, do ambiente ao redor, e algumas retenções e antecipações, reflexões, que nem ao menos chegam a se tornar bastante claras, uma vez que você está concentrado na leitura, então isso é tudo o que existe na sua mente. Nada além disso. Toda recordação que por ventura esteja presente na sua consciência agora, apesar da sensação de lapso temporal que a refere a algum lugar do passado, significa algo novo que foi inteiramente produzido agora, e que faz parte do presente imediato, a única perspectiva real do tempo.


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8 comentários:

  1. Nada além disso. Toda recordação que por ventura esteja presente na sua consciência agora, apesar da sensação de lapso temporal que a refere a algum lugar do passado, significa algo novo que foi inteiramente produzido agora, e que faz parte do presente imediato, a única perspectiva real do tempo.

    Porque então simplesmente surgem algumas e não outras? O que existe por trás daquilo que sae do inconsciente e vem para o consciente, quando nos concentramos?

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    1. Olá, Simone;

      O que você quer saber é por que algumas recordações tem acesso livre à consciência enquanto outras estão recalcadas de impossibilitadas de chegar a ela? É isso?

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    2. Olá, Daniel.

      A Simone já considerou respondido, mas eu ainda não consegui compreender muito bem. Por que algumas recordações tem acesso livre à consciência enquanto outras estão recalcadas e impossibilitadas de chegar a ela? O que propriamente traz uma recordação da inconsciência para a consciência (o que é esse agente)?

      Outra dúvida. Você pode explicar melhor sua afirmação de que o efeito de uma série causal é uma ilusão causada pela memória? Se me recordo bem, numa antiga discussão no Orkut sobre a existência de Deus, na comunidade de Psicanálise e Filosofia, você disse a um dos usuários que não existe causas-efeitos, apenas transformações (perdoa-me se estiver reproduzindo seu pensamento de modo errado). Pode me dizer mais sobre isso?

      PS: Parabéns pelo blog e pela página no Facebook; são fontes de reflexões muito interessantes.

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    3. Legal, Michel! Você desenterrou coisas bem antigas agora. Vamos começar com a memória. Nós imaginamos o passado como uma série de ventos encadeados causalmente numa linha temporal que chega até o presente. Mas, se o passado é presentificado pela memória, então tudo que nos recordamos existe enquanto presente; e se somente o presente existe, então a sucessão temporal que vem do passado até o presente não existe. E se essa sucessão não existe, as relações causais que usamos para ligar seus diversos eventos também não existem.

      Quanto à questão entre consciência e inconsciente, essa eu vou passar. É melhor você buscar a explicação que a Psicanálise tem a respeito. A exposição do meu ponto de vista necessitaria de algum espaço.

      Abraço

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    4. Quer dizer que o que julgamos ser uma explicação é apenas uma descrição. Mas então, se não são causas que determinam a transformação das coisas, o que determina? Por que da nossa perspectiva as coisas se transformam de um jeito e não de outro?

      Valeu, Daniel.

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  2. vc já respondeu...rs
    é pq permito, dou acesso...
    obrigada

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  3. Olá Daniel, em seu penúltimo parágrafo você diz: "Recordações são produções de eventos, não reproduções de eventos. Isso significa que a imagem produzida na recordação nunca existiu antes. Não se trata de um registro pré-existente, que estava ali guardado, e que foi eventualmente acessado".

    Isso me parece verdadeiro para a maioria das pessoas, mas o que dizer em relação às pessoas com a Síndrome do Sábio (ou savantismo), que possuem capacidade de memorização assombrosa? Lembro-me de um rapaz com essa síndrome que, vendo uma cidade do alto por alguns segundos, era capaz depois de desenhar a cidade nos mínimos detalhes, como uma fotografia. Para ele, a recordação do passado era tão presente quanto o próprio presente, ele estava de fato reproduzindo a cena vista.

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    1. Guto, isso não muda nada. Se a recordação é minimalista ou vaga, tanto faz. De qualquer maneira, trata-se de uma produção da mente, não de uma reprodução.

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