terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Para Transformar, é Necessário Abdicar da Transformação

Antes de seu nascimento, os pais de Édipo ouviram do oráculo que seu filho mataria o pai e se casaria com mãe. Temendo o destino trágico, mandaram matar a criança. O empregado encarregado do serviço teve pena de Édipo e, ao invés de matá-lo, o abandonou à própria sorte. Encontrado por outro casal, foi criado por eles como se fora seu filho. Édipo cresceu sem saber que havia sido adotado. Em tempo, ele próprio tomou conhecimento do destino que lhe aguardava: Matar o pai e se casar com a própria mãe. Assustado, fugiu. No caminho, encontrou-se com um desconhecido. Sem saber que era seu verdadeiro pai, se desentendeu com ele e o matou. Seguiu para cidade de onde o morto vinha. Conheceu sua mãe e com ela se casou. Descobrindo mais tarde que havia cumprido seu destino, arrancou os próprios olhos. 

Se os pais de Édipo e o próprio não tivessem tentado fugir do destino que lhe fora previsto, provavelmente este não teria se realizado. Foram exatamente as ações no sentido de evitá-lo que o colocaram no caminho de Édipo.
Professores e psicólogos têm medo de que seus alunos e clientes percam a confiança neles e em seu saber. Por isso, muitas vezes se enrolam em circunlóquios quando não sabem a resposta a alguma pergunta ou simplesmente afetam possuir um saber que estão longe de conhecer. São exatamente essas atitudes que despertam a desconfiança e corroem o respeito por parte daqueles que tanto se esforçam por impressionar. Se tivessem a coragem de dizer ‘não sei’, ou de levantarem algumas hipóteses ao invés de dar uma resposta assertiva, receberiam muito mais confiança quando se colocassem a dissertar sobre algo que realmente conhecem, e proporcionariam aos seus a oportunidade de se aproximar de seu mestre ou terapeuta na conta de um homem falível e cheio de lacunas como eles próprios. Se tivessem a coragem de abdicar da pretensão de se colocarem no lugar do saber, manifestando o não-saber quando necessário, seriam colocados lá mesmo, naturalmente, e sem qualquer esforço de sua parte.

Aquele que tem medo de ficar sozinho se defende colocando em torno de si justamente as barreiras que o isolam na solidão. Age no mundo para modificá-lo e torná-lo mais seguro, e assim acaba criando as condições exatas daquilo mesmo que queria evitar. Se não tivesse medo de ficar sozinho, e se não agisse no sentido de evitar a solidão, viveria num mundo sem barreiras, e viveria em harmonia com ele, mesmo sem a companhia de alguém. Não percebe que a solidão nada mais é que o medo ou de ficar ou de permanecer sozinho, e que quem não tem medo deste medo, não vive sozinho nunca.

A terceira lei de Newton estabelece que a toda ação corresponde uma reação, de mesma direção, intensidade e sentido contrário. Talvez, esta lei não se aplique somente à Física. A ação no sentido de evitar alguma coisa muito provavelmente vai produzir a coisa mesma que se queria evitar. Conseqüentemente, a ação de produzir alguma coisa muito provavelmente vai produzir o contrário daquilo que se pretendia.

Quem age no sentido de mudar o mundo também está, sem perceber, agindo no sentido da conservação e da perpetuação das coisas como elas são. Os fatos históricos comprovam largamente esta tese. Nenhuma revolução cumpriu as mudanças idealizadas por seus executores. Modificaram o mundo em circunstâncias de somenos importância; mas, nas mudanças essenciais, a volta foi sempre de 360 graus... isso quando as coisas não ficaram piores do que estavam. Talvez, a revolução mais bem-sucedida da história tenha sido a de Gandhi. Não por acaso, Gandhi foi o único revolucionário que não tentou mudar o mundo à sua volta. Gandhi não tentou expulsar os ingleses, não tentou fazê-los mudar de opinião ou de atitude. Gandhi apenas indicou a seu povo qual a postura correta perante si próprio, e instruiu-lhes na persistência da mesma; o povo resistiu, mas não contra-atacou. Os ingleses, então, pegaram seus chapéus e se retiraram, e Gandhi ainda foi recebido na Inglaterra como herói.

1)   Revolucionários que se esforçam por mudar o mundo, mas não modificam sua atitude perante o mesmo, não mudam nem a si e nem o mundo. Não mudam nada, e tudo permanece como sempre foi.

2)   Revolucionários que mudam a sua atitude perante o mundo e abdicam das pretensões de mudá-lo, mudam a si mesmos e o mundo. O mundo muda naturalmente ao redor deles, e eles juntos com o mundo.


O exemplo de Gandhi atesta a segunda premissa.
O dos demais revolucionários atesta a primeira.

Quem age sobre o mundo no sentido de transformá-lo faz com que o mundo permaneça, no essencial, sempre o mesmo. Quem age sobre si mesmo e muda a sua atitude perante o mundo, permitindo que ele siga seu curso natural, muda a essência, e trás consigo o espírito do verdadeiro transformador.

Esta é uma lição que ainda estamos muito longe de compreender.


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6 comentários:

  1. Daniel, creio que seu texto está muito bem escrito e argumentado, mas discordo de algumas premissas... Primeiro acho que seu argumento se baseia em um determinismo de fundo... E sou contra qualquer determinismo, acho que a ação humana possuí sim a possibilidade de mudar o curso da história (Hannah Arendt seria uma boa referencia). Você diz que outras revoluções não mudaram o mundo, e que os fatos (muito questionável o conceito de fato histórico tal como usado) comprovam. Bom, qualquer historiador sabe que fatos são construídos segundo a intenção de quem os escreve, e do tempo em que são escritos. E dizer que, por exemplo a Primavera de Praga, ou o Maio de 68 francês não mudou o mundo, não mudou as ideias, é ver somente um lado da história, que é um poliedro...

    Gostaria de saber o que você considera serem as "mudanças essenciais?" Creio que, por exemplo, um homem revolucionário como João Cândido, para ficarmos na nossa realidade, trouxe mudanças essenciais para a mentalidade republicana...

    No fundo concordo com você que a revolução interior é o primeiro passo para a mudança, mas seu argumento pode levar-nos uma estagnação, pois a luta interior é das mais difíceis e caso ela dure uma vida, não vislumbraremos possibilidades de mudança no mundo?

    Concordo especialmente com o papel do professor e do analista. Está na hora de descerem todos dos pedestais e assumirem suas fragilidades, horizontalizarem a relação.

    Abraços

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    1. Olá, Bill Braga;

      Você mencionou Hanna Arendt, e isso é interessante, pois este ano mesmo caiu um texto dela na prova de Filosofia do vestibular da UFMG, ‘A Crise na Educação’, no qual outros exemplos para a tese que estou defendendo podem ser extraídos.

      Ela diz, por exemplo, que a tentativa de se criar um mundo da criança acabou por reproduzir, neste tal mundo, o mesmo mundo adulto do qual se pretendia manter a criança afastada. Diz também que a idéia de se criar um mundo novo, por ser necessariamente mais velha que o novo mundo que ainda não foi criado, já é uma idéia velha e já é parte do mundo velho que se pretende substituir, e que, portanto, ao se criar um mundo novo a partir de uma idéia velha, estamos, em certo sentido, perpetuando o mundo velho que já existe hoje. Há certa dose de hermenêutica neste meu comentário, mas a essência da coisa é, creio eu, esta.

      Que o mundo muda e vem mudando, disso não há dúvida. O problema é que quando pretendemos mudar o mundo, não percebemos que aquilo que nos incomoda no mundo é um reflexo daquilo que nos incomoda em nós mesmos. Consequentemente, as pessoas que fazem revolução contra o sistema ou contra um poder instituído não se dão conta de que são exatamente iguais àqueles que combatem. Se conseguem sair vitoriosos, acabam por reproduzir, apenas com um nome e uma roupagem diferente, o mesmo sistema e a mesma ordem de coisas contra a qual lutavam anteriormente. É evidente que sempre vai haver historiadores e outros “entendidos” no assunto que vão discordar deste ponto de vista. Mas, não é e nunca foi minha intenção fazer uma análise e um estudo profundo disso num texto de blog.

      Quando digo que a essência das coisas nunca é alterada quando se pretende mudar o mundo, quero dizer que os objetivos tão idealizados destas ações nunca são alcançados, exatamente por causa da inconsciência de que aquilo que se pretende mudar existe, antes de tudo e principalmente, dentro daquele mesmo que almeja mudar o mundo. Mas, que ocorrem outras tantas mudanças nestas ações, isso não se discute. Algumas positivas, outras negativas.

      Eu acredito que até hoje tem sido tão difícil mudar o mundo porque as pessoas pensam justamente como você. Elas perdem a motivação quando imaginam que a mudança é algo que pode durar séculos ou milênios. Perdem a motivação quando pensam que a mudança é algo que depende da ação de TODOS, e que não há uma pessoa que, sozinha, possa mudar realmente as coisas. Elas precisam acreditar que é possível mudar o mundo da noite para o dia; e que mudar o “sistema” é tão fácil e simples como desinstalar o Windows e instalar o Linux. Eu acredito que aquele que nasce com o espírito do verdadeiro transformador sabe que não vai viver para ver o mundo se tornar muito diferente do que já é. Mas, essa pessoa também sabe que, mesmo assim, é muito importante e essencial que ela faça a sua parte. Na pessoa que tem essa consciência existe a semente da mudança verdadeira. Os demais vão continuar apenas reproduzindo as condições já existentes.

      Abraço,

      Daniel Grandinetti

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    2. Caro Daniel,

      Concordei com você no que diz respeito à transformação interior, a importância desta luta, acho inclusive que uma das mais belas transfigurações literárias disto se encontra na obra de Herman Hesse, especialmente o Siddartha...

      Sei que um texto de blog não é uma tese, e meu comentário, antes de uma afronta foi um convite ao debate horizontal. Não me coloquei como especialista, até porque acho que o conhecimento deve ser humanista, no sentido de amplo e aberto, não especializado..

      Talvez em tua posição de filósofo e psicanalista você se dê o direito de julgar os objetivos de ações, mas mais do que os objetivos, as ações importam por seus desdobramentos e apropriações, que extrapolam o sujeito, uma vez desencadeada, a ação humana não mais pertence àquele que a desencadeou, e o horizonte de transformação da realidade não depende, a meu ver, exclusivamente do sujeito, mas também das apropriações desta ação inicial.

      Só não com seu cometário, quando pressupõe que o meu pensamento está expresso nas palavras que usei para contra-argumentar o seu texto. Não necessariamente ali expressei minha visão de mudo, ou meu pensamento, fiz um exercício de crítica, para você expandir seu pensamento em pontos que me interessaram. Talvez faça parte da soberba que você tanto combateu no texto, esta postura de 'senhor da verdade' e de achar que pode julgar o pensamento alheio em um mísero comentário... Caso queira conhecer meu pensamento, há vários locais em que o encontrará, nenhum deles acadêmicos, pois a vaidade acadêmica é um grande risco.

      Abraços

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    3. Caro Bill Braga,

      Longe de mim julgar os objetivos das ações dos outros e, muito menos, achar que tenho esse direito. Eu apenas tomo as declarações que elas mesmas dão sobre seus próprios objetivos. Mais longe de mim ainda pensar que a transformação do mundo seja “subjetiva”, e que as ações não são apropriadas e desdobradas. Foi justamente por contrapor as declarações que, por exemplo, os líderes de revoluções dão sobre seus objetivos e as apropriações e desdobramentos que se seguiram que cheguei às conclusões que cheguei. Tome, por exemplo, os objetivos declarados da revolução comunista e as apropriações e desdobramentos que temos dela até hoje... E tire suas próprias conclusões!

      Minha tese é, justamente, que as apropriações e desdobramentos das ações humanas adquirem de fato um teor revolucionário quando abdicamos das pretensões de mudar o mundo e mudamos nossa própria atitude perante o mundo.

      De maneira alguma me senti afrontado por você. Que razão teria para tanto? Agora, uma vez que você achou que me afrontou, deduzo que foi você que se sentiu afrontado, e por isso peço desculpas. Levo em consideração, nesta dedução, o leve sarcasmo com que criticou minha suposta soberba.

      Sobre isso, mais uma vez, devo dar-lhe mais explicações e pedir-lhe mais desculpas ainda. Acontece que quando alguém chega e escreve que:

      “No fundo concordo com você que a revolução interior é o primeiro passo para a mudança, mas seu argumento pode levar-nos uma estagnação, pois a luta interior é das mais difíceis e caso ela dure uma vida, não vislumbraremos possibilidades de mudança no mundo?”

      Sou levado imediatamente a pensar que ela está manifestando uma opinião SUA. Afinal de contas, quando as pessoas iniciam um período afirmando concordar ou discordar de alguma coisa, infere-se, creio eu, que o que está sendo escrito é a opinião delas.

      Não foi soberba minha pensar que você estava manifestando uma opinião sua. Mas, posso compreender sua crítica. Com efeito, sei que muitas pessoas pensam que os psicólogos possuem um sexto sentido capaz de ler os pensamentos dos outros. Mas, devo confessar-te que eu não possuo tal dom. Se você conheceu algum colega meu que o possua, peço perdão por frustrar suas expectativas. Eu não o possuo. Talvez, tenha faltado de aula no dia em que fizeram nos alunos o implante cerebral que torne possível tal capacidade paranormal.

      Assim, não sou soberbo. Sou apenas falho. Portanto, na próxima vez que me dirigir suas palavras, deixe bem claro quando estiver manifestando uma opinião sua e quando estiver apenas colocando uma questão geral para ser discutida. Desculpe este meu pedido, mas minha reles condição humana me obriga a fazê-lo.

      Certo de sua compreensão,

      Cordialmente,

      Daniel Grandinetti

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  2. Olá!
    Achei muito interessante seu texto, e concordo com a ideia de mudança interior.Realmente a transformação que julgamos tão exterior a nós, seja antes de tudo, uma necessidade interna.
    Abraço!

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