domingo, 30 de outubro de 2011

O que é a Inteligência e qual sua Relação com a Felicidade

Nas diversas linhas de Psicologia, os teóricos mais variados costumam definir a inteligência como “capacidade de aprendizagem”, “capacidade de adaptação”, “habilidade para executar tarefas”, “para estabelecer relações entre as coisas”, etc. No geral, todas estas e outras tantas definições de inteligência bem poderiam dizer respeito ao funcionamento de um robô ou um computador. Não admira que, por isso, desde meados do século passado a temática da “inteligência artificial” esteja tão em pauta. É bastante comum a crença de que computadores podem adquirir uma inteligência humana. Pesquisadores sérios e respeitados nas linhas de psicologia cognitiva e neurociência despendem todo o seu esforço na pesquisa desta possibilidade. Mas, como definir a inteligência de maneira especificamente humana?

A Psicologia também é um produto cultural, e, como todo produto desta espécie, ela tem largo fundamento em nosso senso-comum. Isso não se aplica apenas à Psicologia. Nossa Física, por exemplo, se sustenta na idéia de matéria como alguma coisa inanimada, oposta ao que se chama ‘vida’, de funcionamento mecânico e impessoal, em plena conformidade à nossa visão de mundo espiritualizada pelo cristianismo. E esta visão de mundo é válida inclusive para a maioria dos ateus, uma vez que também eles (e não apenas ‘também’ eles, mas principalmente eles) advogam a favor desta oposição entre matéria e vida, conferindo toda a validade ao que é material e desdenhando tudo o que está além desta esfera. Não percebem eles que a simples distinção entre ‘matéria’ e ‘vida’, mesmo que acompanhada do descrédito daquilo que, hipoteticamente, não seria material, já trás implícita o mesmo espiritualismo cristão daqueles que afirmam a validade de uma realidade metafísica (para além da realidade física). Por sua vez, a visão de mundo que não fizesse uma distinção do tipo, e que já tratasse a matéria como uma substância animada (animada = provida de alma), estaria rompendo com o senso-comum cristão no qual a Física se sustenta. A Psicologia que temos hoje também se fundamenta no senso-comum que foi construído ao longo de mais de 5000 anos de uma cultura influenciada pelo judaísmo e pelo cristianismo. Assim, desde cedo aprendemos a chamar de ‘inteligentes’ aquelas pessoas que aprendem com facilidade e se saem bem na escola, ou simplesmente aquelas que são eruditas e sabem falar de tudo um pouco.

Uma definição tão estreita exclui muita coisa que também estamos acostumados a classificar de ‘inteligente’. Frequentemente admiramos pessoas espirituosas, críticas e criativas pela sua inteligência. Por que então a espirituosidade, a crítica e a criatividade aparecem tão pouco das definições formais de inteligência? Na verdade, elas aparecem disfarçadas. A espirituosidade pode ser entendida como capacidade de adaptação; ‘crítica’ e ‘criatividade’ como habilidade para estabelecer relações entre as coisas; inversamente, ‘espirituosidade’ também é habilidade para estabelecer relações entre as coisas, e a crítica e a criatividade também são formas da capacidade para se adaptar. No frigir dos ovos, ainda estamos no campo do que se poderia esperar do funcionamento de um robô ou computador.

Entretanto, se eu tentasse aqui refutar a noção de inteligência definida como ‘capacidade de aprender’, ‘habilidade para estabelecer relações entre as coisas”, etc., estaria fadado a fracassar. Se estas definições se mostram insuficientes para caracterizar a inteligência humana, nem por isso devemos propor uma diferente. Talvez, o correto seja exatamente procurar a dimensão humana que está faltando a estas definições e lhas acrescentá-la.  

A dimensão humana faltosa nas definições clássicas de inteligência não pode ser senão uma finalidade que não estaria ao alcance das máquinas; uma finalidade humana, ou, para não excluirmos levianamente os animais, uma finalidade cuja realização esteja restrita aos seres vivos. Segundo Aristóteles, a felicidade é o bem supremo buscado por todos os homens (‘Ética a Nicômaco, Livro X). Se a felicidade é o bem supremo que todos os homens buscam, ela é o objetivo humano por excelência, ou a finalidade que caracteriza a existência humana qua humana. Não há finalidade mais humana que a busca da felicidade. E, se assim for, esta é a dimensão humana que devemos acrescentar às definições clássicas de inteligência.

Todas as capacidades e habilidades que denotam a inteligência em sentido clássico somente denotam inteligência em sentido humano na medida em que se traduzem na capacidade e na habilidade de ser feliz. Mas, o que é a felicidade? Epicuro[*] nos diz que:

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações para nos afastarmos da dor e do medo. Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

A felicidade, segundo Epicuro, é o bem-estar do corpo e a serenidade do espírito. Para alcançarmos estes fins, devemos evitar a dependência de desejos excessivos, por três razões: (1) Tudo que é excessivo é difícil de conseguir, e o desejo pelo que é excessivo poderá nos manter muito mais tempo insatisfeitos que satisfeitos. Porém, (2) mesmo aqueles que possuem facilidade para satisfazer desejos excessivos devem evitá-los, uma vez que o prazer e o luxo excessivo nos tornam dependentes, e na dependência de alguma coisa vivemos atormentados pelo medo de perdê-la. A (1) frustração por aquilo que não temos e o (2) medo de perder aquilo que já possuímos constituem os fundamentos de todas as ‘perturbações da alma’ que denominamos sofrimento. Em acréscimo, o (3) desfrutar imoderado de luxos e prazeres excessivos também compromete a saúde do corpo. Com a alma perturbada por desejos inúteis e o corpo debilitado por eles não há felicidade, segundo Epicuro. O homem feliz é aquele que se habitua às coisas simples:

Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

Quem se habitua às coisas simples consegue viver com pouco, se necessário, e aproveitar a abundância enquanto ela estiver presente, sem o medo de perdê-la amanhã. Não se vive angustiado pela sua falta, nem se teme pela sua perda, e se consegue desfrutar dela em tempo presente. Com efeito, o desejo e o medo são direcionados ao futuro. Só desejamos aquilo que ainda não temos ou não somos, e vivemos o presente projetando no futuro a realização de nossos anseios. E igualmente só tememos aquilo que ainda não aconteceu. Todo medo é o medo de um acontecimento futuro possível. Se estivermos de frente a um leão, em tempo real, o medo não se refere ao leão que estamos enfrentando, e sim ao ataque que ele ainda não realizou, mas que pode realizar. Se o ataque já ocorreu, não há mais medo. Pode haver o sofrimento pelos danos sofridos (caso o ataque nos deixe vivos), mas o medo já passou.

Esta análise do desejo e do medo é a chave para compreendermos como a definição de Epicuro para a felicidade pode ser verdadeira se em nosso mundo atual o que vemos, de forma geral, são pessoas que buscam a felicidade em toda forma de excessos. A busca pelos excessos visa apaziguar o desejo por aquilo que não temos e o medo de perdermos o que já possuímos. O desejo e o medo são direcionados ao futuro, mas o sofrimento causado por eles é experimentado no presente. O presente sofrido se torna passado doloroso. E a forma habitual de se lidar com o passado doloroso que não encontra consolo no presente é adiar e projetar sua mitigação para o futuro, um futuro que jamais se realiza. Na presença de um passado de dor e de um futuro incerto e impalpável, são os excessos que entorpecem nossa consciência do aqui e agora em nossa tentativa de aliviar as perturbações de nossa alma mergulhando-a em mais perturbações ainda.

A felicidade significa ausência de perturbações da alma e saúde do corpo. Enquanto o caminho proposto por Epicuro é o da eliminação dos desejos e medos que causam uma coisa e outra, o caminho que nosso mundo vem escolhendo é o de sanar o sofrimento causado por nossos medos e desejos mergulhando-se até o pescoço nas perturbações causadas por eles, como se as perturbações do passado pudessem ser anuladas por mais perturbações presentes. No entanto, apesar de os meios propostos por Epicuro serem muito diferentes dos meios utilizados por nós, o que nós buscamos na felicidade é o mesmo que ele apontou: Saúde e paz de espírito.

E não há dúvida de que tanto o caminho proposto por Epicuro quanto o caminho escolhido por nós necessitam, para serem trilhados, de uma grande dose de capacidade de aprendizagem, capacidade de adaptação, de estabelecer relações entre as coisas, criatividade, espirituosidade, habilidade para executar tarefas mil, e tantas outras coisas que entram nas mais variadas definições de inteligência da psicologia clássica. O que vai definir se este conjunto de capacidades e habilidades representa de fato um alto Q.I é a medida da felicidade alcançada pelo sujeito que as coloca em prática. Para trilhar ambos os caminhos é preciso inteligência; mas, uma vez que, pelo visto, um destes caminhos tem se mostrado completamente ineficaz na produção da finalidade por ele buscada, somente a quem escolhe o caminho restante poderia ser concedida a classificação em ‘inteligência superior’, o que nos levaria a questionar seriamente os níveis de inteligência apresentados por todos os nossos intelectuais, tecnocratas, cientistas, estadistas e mesmo as pessoas comuns de qualquer espécie.


*Curta a página PSICOLOGIA NO COTIDIANO no facebook. Temáticas de nosso cotidiano tratadas em abordagem psicológica:

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[*] CARTA SOBRE A FELICIDADE (A MENECEU), Tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Carratore

11 comentários:

  1. Daniel,

    Texto bem escrito, como sempre, e com tema muito interessante, trazendo dois construtos complexos e dignos de ser discutidos.

    Primeiramente, e abrindo parênteses, gostaria que explicasse essa distinção matéria/vida. Não a conhecia e, sinceramente, não vejo meus colegas ateus a apregoando. A propósito, é possível e, até onde sei, utilizada uma definição materialista/fisicalista de vida (tal como o é de mente).

    "Não há finalidade mais humana que a busca da felicidade. E, se assim for, esta é a dimensão humana que devemos acrescentar às definições clássicas de inteligência."

    Compreendo sua proposta. Estou de acordo que, no fundo, praticamente toda ação humana é marcada pela busca disso que chamamos satisfação, alegria, felicidade, bem-estar... No entanto, há inúmeros meios de se atingir a felicidade, dentre os quais temos a possibilidade de classificar e, como alguns profissionais querem, medir classes de resposta distintas.

    Se chamamos de inteligente TODA ação humana, não há por que falarmos de testes de inteligência, e seu conceito contemporâneo perderia sua validade/operacionalidade. Dentro da miríade de comportamentos humanos possíveis, selecionamos certos tipos que queremos avaliar. Medidas de inteligência servem basicamente para termos uma noção do quanto sabemos sobre um determinado assunto (inteligência cristalizada) e do quanto somos capazes de extrair regras, compreender e/ou solucionar certos problemas compostos geralmente por símbolos ou figuras abstratas. Se eu o retratei bem, esse é um recorte que grande parte da comunidade científica faz.

    Se concebermos inteligência como a capacidade de sermos felizes, e se queremos avaliar essa capacidade, uma constelação astronômica de tarefas precisariam ser amontoadas e aplicadas. Imagino que isso não seja possível, e outra grande dificuldade que teríamos pela frente seria operacionalizar o termo felicidade (p. ex., o que é felicidade, e como podemos observá-la e medi-la?).

    Nesse caso, preferimos destrinchar os comportamentos humanos mais funcionalmente significativos em classes de resposta a serem observadas e mensuradas. Testes de inteligência podem, nesse sentido, optar por avaliar comportamentos como "ler", "fazer cálculos matemáticos", "compreender textos", "responder corretamente a certas questões", "responder rapidamente a certas contingências" e "decifrar regras implícitas que fazem com que certas figuras estejam relacionadas". Testes de personalidade podem, p. ex., conter itens que avaliam "responsabilidade", "neuroticismo", "sociabilidade", "abertura a novas experiências" e "extroversão". Já ouvi dizer de escalas que avaliam o nível de felicidade, e elas poderiam mostrar quais classes comportamentais estão mais relacionadas às suas medidas. Teríamos, por exemplo, que uma pessoa muito feliz não necessariamente tem medidas altas em testes validados de inteligência. Ao contratar um profissional para assumir determinado cargo em uma empresa, no entanto, certamente o pessoal dos recursos humanos se atentaria bem mais para medidas de personalidade e de inteligência.

    Enfim, minha crítica básica é: se a proposta é chamar de inteligente a pessoa que consegue, mais facilmente e por mais tempo, vivenciar o que chamaríamos de felicidade (o que deve ser operacionalizado), outros nomes inevitavelmente seriam dados para os tipos de comportamentos que cumprem funções específicas -- e sobre os quais temos interesses específicos.

    Abraço, xará!

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  2. Xará,

    Se for definição fisicalista e materialista de ‘mente’ você entende uma definição ‘biológica’ de mente, esta definição não é possível hoje. Se fosse possível, já teria sido feita a redução inter-teórica entre Psicologia e Biologia, mas todas as tentativas até então de fazer esta redução se mostraram falhas. Para que tivéssemos em mãos uma definição biológica de mente, a biologia teria que ser capaz de transmitir, em sua descrição do cérebro, o mesmo sentido que somente descrições mentalistas são capazes de transmitir hoje.

    Mas, isso, até hoje, não foi possível. Com efeito, o linguajar científico não é capaz nem de transmitir o sentido de uma simples mensagem como “a água é molhada”. Não há equação química, descrição física ou biológica que seja capaz de significa a propriedade de a água ser molhada, assim como a propriedade de o mel ser doce, o céu ser azul, uma rocha ser áspera. As propriedades sensíveis (perceptíveis) do mundo estão fora do alcance do linguajar científico. Muito mais então as propriedades sensíveis (afetivas, emocionais) de que tratam as teorias da mente. Quando você reduz um sentimento a um “nada mais que” uma resposta ou uma reação química, você está eliminando toda a denotação mentalista deste sentimento. Você está reduzindo um fenômeno humano a um nível de explicação que é válido ao mundo “inanimado”. Eu nunca questionei com você se era possível ou não explicar o homem num nível comportamental. Sempre questionei até que ponto estas explicações eram adequadas ao homem. Mas, acho que você nunca compreendeu o sentido das minhas questões.

    A distinção entre matéria e vida não precisa ser apregoada por ninguém. Ela está implícita no próprio conceito de matéria e na ciência que se formou fundamentada nele. Mesmo porque, se o conceito de matéria fosse sinônimo do conceito de vida, nossa Física trataria o universo na conta de um grande e único ‘ser vivo’. Mas, é evidente que esta perspectiva não se encontra em nossa Física. O universo, para a Física, é um grande e imenso MECANISMO.

    Além do mais, as oposições que você e seus amigos ateus traçam entre o conhecimento científico e o animismo são formas claras de se apregoar a distinção entre matéria e vida. ‘Animismo” vem de ‘anima’, que pode significar ou ‘alma’ ou ‘vida’. É evidente que o desenvolvimento do pensamento científico se deu na progressão da substituição da perspectiva de um universo animado para a perspectiva de um universo inanimado. Isso é absolutamente claro e evidente.

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  3. Sobre a questão de ser necessário que a felicidade seja um fator quantificável e operacionalizável, a mensagem implícita que eu captei na sua crítica foi mais ou menos essa:

    “A ciência só lida com o que pode ser quantificável e operacionalizável. Assim, se a felicidade não pode ser quantificada e operacionaliada, então deve ser abandonada como critério para a felicidade.”

    É justamente esse tipo de arrogância científica que eu não posso aceitar. Não há dúvida de que a felicidade é a coisa mais importante da vida, seja da vida individual, seja da vida coletiva. Assim, se a felicidade é um objeto de estudo que se encontra além do alcance do método científico, é a ciência que deve reconhecer seus limites e aceitar que ela não dá conta de tratar das questões mais importantes da vida. Mas, o que vemos é que a ciência (na voz de seus pesquisadores) se comporta como um tirano absolutista que quer destruir, eliminar ou substituir TUDO o que se encontra fora de seus domínios. Se alguma coisa não é acessível ao método científico, então a ciência logo a considera INVÁLIDA. Não existe objeto de estudo mais nobre, importante, relevante e válido para o homem do que a felicidade. E se o método científico não se aplica à felicidade, então ou ele deve se esforçar ao MÁXIMO para que a felicidade se aplique a ele, ou reconhecer humildemente que não dá conta de fazer isso, sem desmerecer o objeto por si mesmo (a felicidade) e outras disciplinas não-científicas que dêem conta de tratar daquilo que a ciência não dá.

    Perceba que sua crítica final revela a intenção absurda de preservar o STATUS QUO da metodologia e do conhecimento científico:

    “Enfim, minha crítica básica é: se a proposta é chamar de inteligente a pessoa que consegue, mais facilmente e por mais tempo, vivenciar o que chamaríamos de felicidade (o que deve ser operacionalizado), outros nomes inevitavelmente seriam dados para os tipos de comportamentos que cumprem funções específicas -- e sobre os quais temos interesses específicos.”

    O que você está dizendo aqui é o seguinte:

    Se formos considerar que a pessoa inteligente é a pessoa que consegue ser feliz, isso significaria que teríamos que recomeçar do início TUDO o que até então construímos na ciência sobre este assunto. Nossos testes perderiam a validade, nosso conhecimento teria que ser jogado fora, todos os nomes e conceitos que estabelecemos teriam que ser revistos. Mas, nós não estamos dispostos a fazer isso. Nosso interesse SEMPRE foi o de preservar a ciência pela ciência. A ciência é o que nos importa. A ciência é muito mais importante que a verdade. Se tivermos que escolher entre a verdade e a ciência, ficamos com a CIÊNCIA. Não estamos dispostos a abandonar tudo o que a ciência construiu até aqui. Se surgir alguma coisa que nos obrigue a fazer isso, devemos confrontá-la e fazer o possível para invalidá-la.

    A ciência é a religião dos cientistas.

    Espero que você reflita bastante sobre as críticas que fez.

    Abraço

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  4. "Eu nunca questionei com você se era possível ou não explicar o homem num nível comportamental. Sempre questionei até que ponto estas explicações eram adequadas ao homem. Mas, acho que você nunca compreendeu o sentido das minhas questões."

    O linguajar científico traduz as sensações em descrições fisicalistas que, sim, têm aplicabilidade, valor prático. O trabalho de neurologistas, psiquiatras e até de psicólogos é baseado nisso -- cada um lendo os problemas que se lhes apresentam a partir de seu nível de análise. É nesse sentido que, por exemplo, a mente pode ser lida em termos de padrões de atividade neural, e é a partir dessa prática que o pensamento e o desejo podem ser convertidos, como mostrei no meu último texto, em ações motoras de membros robóticos.

    Sobre vida, talvez possamos a conceber como um sistema complexo materialmente constituído que é capaz de se replicar. Não seria exatamente essa a definição, mas acho que passa por aí o que alguns biólogos contemplam (possivelmente com o acréscimo de alguns atributos).

    "Se alguma coisa não é acessível ao método científico, então a ciência logo a considera INVÁLIDA."

    As coisas não são por aí, Daniel. Estou apenas dizendo que, SE quisermos tratar a felicidade cientificamente, precisamos defini-la de forma operacional. Se não quisermos tratá-la cientificamente, não o façamos. Ponto. Quando Skinner criticou a liberdade, não a negou: apenas a redefiniu. Poderíamos, caso queiramos, definir felicidade de forma a poder ser trazida para o escopo científico.

    Sinto que minha mensagem é geralmente, e não apenas hoje, mal interpretada por você, Daniel. Os testes de inteligência, a analogia homem-máquina e a inteligência artificial têm sua finalidade, você sabe disso. Minha crítica não é sobre a felicidade, mas sobre sua tese de que devemos considerar a felicidade em nosso conceito e quiçá medidas de inteligência. Se você propõe isso, poderia nos contar como fazer e por que o fazer. Testes de inteligência possuem finalidades previamente especificadas, e mudar a definição do que é inteligência não vai fazer com que deixemos de avaliar os tipos de comportamento que hoje denominamos inteligentes (mesmo que eles venham a ser chamados por outros nomes).

    Vamos com calma, xará... com calma.

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  5. “É nesse sentido que, por exemplo, a mente pode ser lida em termos de padrões de atividade neural”

    Quando você lê a mente em termos de atividade neural, ela deixa de ser lida QUA mente, assim como quando a cor azul é descrita enquanto uma freqüência de luz, ela deixa de ser PERCEBIDA enquanto COR. Em nível biológico não é possível falar de ‘mente’. Não importa se leituras biológicas tem suas utilidades ou não. Não é isso o que está sendo discutido.

    Não estamos aqui discutindo se estas leituras tem sua aplicação ou não. Se não tivessem não estariam sendo usadas. Entretanto, o fato de alguma coisa ter aplicação não é suficiente para a justificar. Uma bomba atômica também tem suas aplicações e utilidades, e nem por isso eu a defendo. Acho, inclusive, que o que está faltando à Psicologia atual é justamente uma crítica dos conceitos de APLICAÇÃO e MELHORA que estamos utilizando. Um paciente deprimido medicado “melhora”. Isso é evidente! Mas, qual o conceito de melhora utilizado aqui? Que melhora é esta que se está buscando com a medicação? E que serventia é esta que estamos buscando nas tecnologias que você está defendendo?

    “Sobre vida, talvez possamos a conceber como um sistema complexo materialmente constituído que é capaz de se replicar.”

    Isso não é o conceito de ‘vida’. Isso seria, no máximo, um conceito de ‘ser vivo’. Mas, o conceito de MATÉRIA continua sendo definido como o conceito de alguma coisa inanimada. E esse é o tema desta discussão. Mesmo porque, se o conceito de matéria não fosse o conceito de algo inanimado, definir ‘vida’ como um ‘sistema material complexo’ seria redundância.

    “Minha crítica não é sobre a felicidade, mas sobre sua tese de que devemos considerar a felicidade em nosso conceito e quiçá medidas de inteligência. Se você propõe isso, poderia nos contar como fazer e por que o fazer.”

    Mas, é justamente isso o que eu faço no texto logo acima de você!

    “Testes de inteligência possuem finalidades previamente especificadas, e mudar a definição do que é inteligência não vai fazer com que deixemos de avaliar os tipos de comportamento que hoje denominamos inteligentes (mesmo que eles venham a ser chamados por outros nomes).”

    Cada um é responsável por aquilo que faz. Não posso obrigar as pessoas a mudar o que elas têm feito e estão fazendo. O que eu posso fazer é cumprir com a minha obrigação de criticar aquilo que eu acho que merece ser criticado, propor e defender as teses que considero corretas. Parece que você está me dizendo o seguinte: “Não vamos mudar as coisas por sua causa. Somos a maioria, e você é a minoria. Por isso, aja com conveniência e junte-se ao que já está estabelecido pela maioria.”

    Não, obrigado. A coisa mais valiosa que sempre tive foi minha capacidade de pensamento independente. Não abrirei mão dela por nada.

    Abraços, xará... com muuuuuiitaaaa calma...... rs

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  6. Sobre o papo em filosofia da mente, gosto da seguinte proposição: "Estados neurais são estados mentais descritos neurologicamente, e estados mentais são estados neurais descritos psicologicamente". Isso é pluralismo descritivo; estados mentais e neurológicos co-variam; o "x" da questão está na descrição, e não na ontologia.

    E para fazer um gancho, pensar dessa forma permite, para citar dois exemplos, a criação das interfaces cérebro-máquina (que podem fazer com que paraplégicos voltem a andar) e a confecção de psicofármacos, que ajudam nossos pacientes de psicoterapia.

    Sobre vida, pensei mesmo que eu vinha tentando descrever um organismo vivo, e não vida. Sua observação foi válida.

    “Não vamos mudar as coisas por sua causa. Somos a maioria, e você é a minoria. Por isso, aja com conveniência e junte-se ao que já está estabelecido pela maioria.”

    Longe disso. O que estou chamando atenção é simples, cara, e acho que você sabe disso. Só estou contando a você que existem razões que nos levam a querer avaliar certas aptidões específicas, como fazer cálculos, abstrair e definir palavras. Não importa o nome que damos a isso. As pessoas podem ser muito felizes ao mesmo tempo em que se saem mal em testes que avaliam aquelas aptidões. Você pode até chamá-las de inteligentes por isso, mas haverá aquelas que, mesmo que menos inteligentes (ou menos felizes), são proficientes em calcular, abstrair, falar sobre determinado assunto etc., e nós os chamaríamos de, digamos, cogno-proficientes!

    Vendo o hipotético caso acima, pergunto: o que ganhamos ao acrescer felicidade ao conceito de inteligência? Fazê-lo mudaria a forma como processos seletivos e pesquisas sobre o desenvolvimento comportamental/cognitivo são conduzidos? Seria possível uma ciência desse construto reformulado? E por que deveríamos falar de uma inteligência exclusivamente humana?

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  7. "Estados neurais são estados mentais descritos neurologicamente, e estados mentais são estados neurais descritos psicologicamente".

    Concordo em gênero, número e grau. Eu já havia dito isso a você em nossas discussões inúmeras vezes. Pode procurar nos históricos de e-mails. Psicologia e Biologia não se referem à natureza dos fenômenos, mas à forma como eles são descritos. Por essa razão, não se pode dizer que o cérebro é biológico. Ao invés, devemos dizer que a Biologia nos fornece uma forma de DESCREVER os fenômenos cerebrais. E é por essa razão também que o fisicalismo está errado ao defender que a natureza da mente é biológica. Se a mente é material, nem por isso se pode concluir que ela é biológica. A mente, mesmo sendo material, pode ser DESCRITA por diversos pontos de vista possíveis, e a biologia nos fornece apenas um deles – um ponto de vista no qual sua natureza qua mente é perdida.

    Psicologia e Biologia nos fornecem PERSPECTIVAS ESPISTEMOLÓGICAS distintas sobre os fenômenos, não DIMENSÕES ONTOLÓGICAS distintas para eles.

    Nas nossas discussões por e-mail eu perdi a conta de quantas vezes escrevi esta frase!

    E mais ainda: Se todo fenômeno humano pode ser descrito ou por um ponto de vista psicológico ou por um biológico, então não existe relação CAUSAL entre fenômenos biológicos e fenômenos psicológicos. Se você situa um fenômeno psíquico como EFEITO de um fenômeno biológico, partindo do pluralismo descritivo que você mesmo citou seria possível descrever esta causa biológica como PSICOLÓGICA, e a relação causal se daria entre fenômenos psicológicos. E, uma vez que nós somos PSICÓLOGOS, nossa obrigação é justamente entender os fenômenos do homem num ponto de vista PSICOLÓGICO, não biológico. Não há razão alguma para que a Psicologia trate dos fenômenos humanos num ponto de vista biológico (a não ser que a Biologia seja tratada como ONTOLOGIA ao invés de EPISTEMOLOGIA). Uma vez que fenômenos psicológicos e biológicos são IDENTICOS, e diferem apenas na perspectiva em que são DESCRITOS, a Psicologia VERDADEIRA só vai se desenvolver quando investirmos nossos esforços na descrição PSICOLÓGICA daquilo que, até o momento, vem sendo descrito apenas num ponto de vista biológico. Um psicólogo que continua desenvolvendo conceitos biológicos não faz NADA para que a PSICOLOGIA se desenvolva.

    Psicólogos que desenvolvem conceitos biológicos tratam a Biologia como ONTOLOGIA, não como EPISTEMOLOGIA. De outra forma, não teriam justificativa para assim proceder. Eles partem da premissa de que fenômenos psíquicos SÃO biológicos. Mas, uma vez que a Biologia não é uma ontologia, fenômenos psíquicos não podem ser biológicos, nem causados por fenômenos biológicos, e nem podem ter, como eu muitas vezes insisti com você, QUALQUER RELAÇÃO com fenômenos biológicos. Psicologia e Biologia são formas de descrever os MESMOS fenômenos. E não existe relação ONTOLÓGICA entre formas distintas de descrever os MESMOS fenômenos. Assim, não é possível estabelecer NENHUMA relação teórica entre fenômenos psíquicos e biológicos.

    Se você realmente compreende a citação que fez (e se não a citou apenas por citar) você será obrigado a retirar todas estas conclusões que eu expus.

    É interessante o tanto que eu insisti nesse ponto com você, para que depois de tudo você me aparecesse com essa citação. Nem sei quantas vezes eu já repeti todas estas coisas a você.

    Agora, voltando ao assunto em discussão, se há pluralismo descritivo, isso significa que, dentro deste pluralismo, a biologia nos fornece uma descrição INANIMADA dos processos vitais, enquanto a PSICOLOGIA, por ser ANIMISTA, nos fornece uma descrição animada.

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  8. “Só estou contando a você que existem razões que nos levam a querer avaliar certas aptidões específicas, como fazer cálculos, abstrair e definir palavras.”

    Não. Você não me deu NENHUMA razão prática. Não me apresentou nenhuma razão que mostrasse como este tipo de avaliação pode ajudar a vida das pessoas. Se eu faço um teste de inteligência e o teste me diz que sou bom em fazer cálculos, ou que tenho capacidade de abstração, como isso pode ser usado para me ajudar? O que você apresentou foram razões metodológicas, do tipo: “É acessível ao nosso método avaliarmos a inteligência assim; LOGO, é assim que nos a avaliamos.” E você também apelou para tecnologias de interface e tal. Mas, mudar o conceito que eu estou propondo não impediria que estas pesquisas em interface continuem a serem feitas. O fato é que os testes de inteligência de hoje não tem aplicação alguma naquilo que realmente importa: Ajudar as pessoas a viver melhor.

    “Não importa o nome que damos a isso. As pessoas podem ser muito felizes ao mesmo tempo em que se saem mal em testes que avaliam aquelas aptidões. Você pode até chamá-las de inteligentes por isso, mas haverá aquelas que, mesmo que menos inteligentes (ou menos felizes), são proficientes em calcular, abstrair, falar sobre determinado assunto etc., e nós os chamaríamos de, digamos, cogno-proficientes!”

    E qual o propósito de rotular as pessoas dessa forma se isso não influi em nada na vida delas?

    “Vendo o hipotético caso acima, pergunto: o que ganhamos ao acrescer felicidade ao conceito de inteligência?”

    Ganhamos exatamente uma maneira de fazer com que a avaliação de inteligência possa melhorar a vida delas. Se uma pessoa é infeliz, e se avaliamos sua inteligência com relação à felicidade, as intervenções podem ser feitas no sentido de desenvolver aquelas faculdades que, dentro do contexto de vida dela, estão menos desenvolvidas e estão causando seu estado infeliz.

    “Fazê-lo mudaria a forma como processos seletivos e pesquisas sobre o desenvolvimento comportamental/cognitivo são conduzidos?”

    Processos seletivos eu não sei. E não me importo com isso. Em processos seletivos o que é avaliado é aquilo que interessa ao seletor. E este é, geralmente, uma empresa que não está NEM AÌ para o bem-estar das pessoas que está selecionando. Agora, se pesquisas comportamentais e cognitivas vão mudar o seu rumo, isso vai depender do OBJETIVO destas pesquisas. Se o objetivo for de fato tornar a vida das pessoas MELHOR, certamente elas mudarão.

    “Seria possível uma ciência desse construto reformulado?”

    Não sei, e isso não tem importância. Na medida em que a felicidade é a coisa mais importante que existe, e a Psicologia não tem sentido nenhum de ser senão para ajudar as pessoas a serem felizes, se não for possível fazer uma ciência desse tipo, a ciência deve sair de campo humildemente. Se não puder ajudar, pelo menos não atrapalhe.

    “E por que deveríamos falar de uma inteligência exclusivamente humana?”

    As respostas acima já respondem esta questão suficientemente.

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  9. "Nas nossas discussões por e-mail eu perdi a conta de quantas vezes escrevi esta frase!"

    Talvez não tenha sido claro, ou talvez o contexto em que tentou dizer isso tinha outro foco que não discussões ontológicas.

    "E mais ainda: Se todo fenômeno humano pode ser descrito ou por um ponto de vista psicológico ou por um biológico, então não existe relação CAUSAL entre fenômenos biológicos e fenômenos psicológicos."

    Concordo em gênero, número e grau.

    "Um psicólogo que continua desenvolvendo conceitos biológicos não faz NADA para que a PSICOLOGIA se desenvolva."

    Se estou certo de que se referiu à análise do comportamento, essa crítica não cabe. Se a crítica é direcionada ao meu modo de pensar, devo dizer: desconfio seriamente que uma abordagem psicológica/comportamental não será efetiva ou não um terá futuro promissor a não ser que leve em consideração fatos/princípios levantados por níveis de análise biológicos. A neurociência é guiada por paradigmas desenvolvidos pelas abordagens cognitiva e comportamental, e penso que já está na hora de aprendermos com a primeira. Só temos a ganhar com a interdisciplinaridade, e isso não implica em abrir mão da nossa epistemologia. Mas para que isso seja concretizado, acho que precisamos ao menos nos comprometer com o método científico.

    "O fato é que os testes de inteligência de hoje não tem aplicação alguma naquilo que realmente importa: Ajudar as pessoas a viver melhor."

    Empresas que têm melhores funcionários respondem melhor à demanda de seus clientes. Como contratarei bons profissionais? Quais os critérios usarei? Depende do tipo de cargo. Por exemplo, o pessoal dos recursos humanos podem estar à procura de um profissional que tenha boa atenção, que abstraia bem em situações ambíguas, inéditas, que seja preciso ao fazer cálculos, que se comunique bem e que saiba planejar. Como acharemos esse profissional? Precisamos de meios para fazê-lo, e as avaliações de inteligência são opções que temos à mão. Para saber sobre sua personalidade, ou seu modo de ser diante das pessoas e de certas situações, adversas ou não, lancemos mão de testes de personalidade e de entrevistas semi-estruturadas.

    Espero que esse pequeno exemplo seja o suficiente para ilustrar a importância de uma avaliação cognitiva/comportamental. Mas guardo mais para a seguir.

    "E qual o propósito de rotular as pessoas dessa forma se isso não influi em nada na vida delas?"

    Rotular pessoas? Estamos as avaliando, e essa avaliação conta para sabermos se preenchem os requisitos para uma vaga ou para conduzir um veículo, para fazer diagnósticos (como o de retardo mental e TDAH) e até mesmo para saber se o programa de reabilitação neuropsicológica para os pacientes de parkinson ou alzheimer foi efetivo.

    "Se uma pessoa é infeliz, e se avaliamos sua inteligência com relação à felicidade, as intervenções podem ser feitas no sentido de desenvolver aquelas faculdades que, dentro do contexto de vida dela, estão menos desenvolvidas e estão causando seu estado infeliz."

    Fazemos isso enquanto psicólogos, e não precisamos de reformular um conceito para conduzir nossas análises e intervenções.

    Você vê o quanto tento deixar de lado a esfera pessoal dessas discussões, e sinto que você não se esforça para fazer o mesmo. Sabemos um bocado das nossas diferenças, e isso justifica em parte toda essa discussão. Minha posição é a de que não precisamos redefinir inteligência, e que a análise da felicidade pode ser e é feita por outros meios. Gosto de abordagens que firmam compromisso com a ciência porque acredito que têm mais poder em gerar mais e melhores recursos sociais (ou aumentar a felicidade geral). Espero que, tal como tento fazer, você se esforce para tentar entender o lado de cá -- a forma como eu e todo um contingente de profissionais, pesquisadores ou não, lutamos para sermos felizes e para promover a felicidade alheia.

    Abraço.

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  10. “desconfio seriamente que uma abordagem psicológica/comportamental não será efetiva ou não um terá futuro promissor a não ser que leve em consideração fatos/princípios levantados por níveis de análise biológicos. A neurociência é guiada por paradigmas desenvolvidos pelas abordagens cognitiva e comportamental (...) Só temos a ganhar com a interdisciplinaridade, e isso não implica em abrir mão da nossa epistemologia.”

    Se você realmente entendeu que Psicologia e Biologia se situam em níveis de descrição DISTINTOS para os MESMOS fenômenos, você não pode continuar falando em interdisciplinaridade no sentido de que é possível que a Biologia ajude a Psicologia a se desenvolver. Você pode continuar falando em interdisciplinaridade no sentido PRÁTICO, no mesmo sentido em que hoje se fala em equipe multidisciplinar, cada profissional abordando o paciente em sua esfera de atuação. Mas, você continua falando em interdisciplinaridade no sentido de “diálogo teórico” com disciplinas biológicas, e isso não é possível a não ser que você também situe sua própria abordagem num nível biológico.

    Mas, uma vez que a Biologia não apresenta qualquer precedência ontológica sobre a Psicologia, e que a diferença entre as duas está no nível de descrição dos fenômenos, realmente você não tem NENHUMA razão para continuar acreditando que uma análise psicológica não será efetiva, a não ser que você continue conferindo à análise biológica uma precedência ontológica sobre a Psicologia.

    “Empresas que têm melhores funcionários respondem melhor à demanda de seus clientes. Como contratarei bons profissionais? Quais os critérios usarei?”

    Esta questão não compete à Psicologia. O único compromisso que a Psicologia deve ter é com o bem-estar do homem enquanto indivíduo e enquanto membro de uma coletividade. Na medida em que este bem-estar passa a ser condicionado pelos interesses de uma empresa, já estamos na esfera da administração de empresas. Não é válido seu argumento de que devemos manter o conceito de inteligência como está porque este conceito é ÚTIL às empresas. O único critério que devemos usar é se este conceito é o MELHOR para avaliarmos o bem-estar das pessoas e nos tornar capazes de ajuda-las caso elas não estejam bem.

    “Espero que esse pequeno exemplo seja o suficiente para ilustrar a importância de uma avaliação cognitiva/comportamental.”

    Se eu fosse um administrador de empresas, teria sido suficiente. Mas, sou psicólogo.

    “"Se uma pessoa é infeliz, e se avaliamos sua inteligência com relação à felicidade, as intervenções podem ser feitas no sentido de desenvolver aquelas faculdades que, dentro do contexto de vida dela, estão menos desenvolvidas e estão causando seu estado infeliz."

    Fazemos isso enquanto psicólogos, e não precisamos de reformular um conceito para conduzir nossas análises e intervenções.”

    Bem, se você já faz, como psicólogo, uma avaliação de que faculdades devem ser desenvolvidas, no contexto de vida de uma pessoa, para que ela seja mais feliz, então, meu caro, o conceito de inteligência que você aplica na prática clínica já é o conceito que estou propondo aqui. E talvez seja isso mesmo o que ocorre na prática clínica em geral: Psicólogos de todas as linhas já fazem uso deste conceito de inteligência em sua prática clínica. Assim, não se trata nem de mudar o conceito de inteligência, mas de tornar EXPLÍCITO um conceito que já vem sendo usado desde sempre em psicoterapia. E porque deveríamos torna-lo explícito? Ora, para que pudéssemos desenvolve-lo mais e melhor e tornar a prática clínica ainda mais eficiente. Não há razão alguma para deixar velado um conceito que já vem sendo utilizado na prática. A não ser, é claro, que você dê mais valor à ciência do que à VERDADE, como eu acho que é o caso.

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  11. “Você vê o quanto tento deixar de lado a esfera pessoal dessas discussões, e sinto que você não se esforça para fazer o mesmo (...) Espero que, tal como tento fazer, você se esforce para tentar entender o lado de cá”

    Se ainda não estamos muito seguros do que acreditamos, quando somos contestados sempre achamos que os que nos contestam estão levando as coisas para o lado pessoal, quando na verdade nós é que estamos. O que tenho percebido neste debate não é um esforço de sua parte para não levar as coisas para o lado pessoal, e sim um esforço por apregoar uma filosofia de respeito à diversidade, de reconhecimento do valor das diferenças, etc. Mas, quando a coisa aperta, você mostra o que você realmente pensa: Você desconsidera tudo o que não é científico. Acha que tudo o que não é científico está fadado a acabar e a ser suplantado pela ciência. Acha que se um objeto de estudo não está ao alcance da ciência, ele não tem valor algum. Essas são as suas verdadeiras convicções. Você não dá à diversidade e à diferença este valor que está tentando passar. E também nunca tentou entender o lado de “cá”. Nós sabemos como você se deixa levar fácil por toda crítica, por mais mal-feita que seja, à psicanálise e às psicologias mentalistas. A questão é muito mais pessoal para você do que para mim.

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