sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Que é a Psicoterapia e Como se Forma um Psicoterapeuta

O objetivo da formação de um psicólogo é prepará-lo para o exercício da psicoterapia. Psicologia Clínica, Psicologia Hospitalar e Psicologia Educacional são áreas da Psicologia que envolvem, direta ou indiretamente, o psicólogo enquanto psicoterapeuta. Não falo da Psicologia Organizacional, pois não a considero uma forma legítima de Psicologia. Mas, este é um assunto para depois.

Numa recorrente citação, Jung define os meios e o objetivo do tornar-se psicólogo da seguinte maneira:
Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.
A psicoterapia é a atividade de ser uma alma humana em contato com outra alma humana, e o meio para sua capacitação é (1) a aquisição, não o uso, de técnicas psicoterápicas, e (2) o conhecimento das teorias psicológicas, não sua interposição na prática clínica, uma vez que nesta o psicólogo deve estar em posição igual a de seu cliente, a posição de pessoa, não na posição do conhecedor de um saber que aquele não possui.

O linguajar um tanto poético de Jung pode propiciar que a esta sua famosa passagem sejam dadas inúmeras interpretações. A que exponho abaixo está em conformidade com minha experiência de psicólogo clínico.

A formação do psicólogo, entre todos os profissionais da saúde, é bastante especial. Enquanto nas demais profissões desta área o objeto de intervenção é o corpo do paciente ou alguma função cuja etiologia, mesmo indefinida, é tratada através de exercícios e técnicas diversas, o objeto de intervenção do psicólogo é a alma (Em grego, ‘psique’ significa ‘alma’), e a alma é um algo bem peculiar do qual nos é dado o privilégio de conhecermos, ao longo de toda nossa vida, apenas um exemplar: A nossa própria. Só conhecemos a nossa própria alma, jamais a dos outros.

A alma não é um objeto, ela não é uma ‘coisa’, e, portanto, o conhecimento que temos dela não é objetivo (‘Objetivo’ é tudo que está relacionando ao objeto). O conhecimento da alma é subjetivo (‘Subjetivo’ é tudo que está relacionando ao sujeito), pois conhecer a alma é conhecer o sujeito, o sujeito que nós próprios somos. Isto coloca à aquisição do conhecimento psicológico um grave problema: Só aprendemos Psicologia quando o saber que extraímos dos livros, dos professores e dos estágios é compreendido na nossa pessoa, como um saber que diz respeito a nós mesmos antes de dizer respeito aos outros. Quando o psicólogo estuda uma teoria e não consegue compreendê-la nele mesmo, e a teoria deixa a impressão de ser válida apenas aos outros ou nem mesmo a eles, ou alguma coisa está errada com a teoria ou está faltando ao psicólogo o auto-conhecimento necessário para compreendê-la adequadamente. Não nos surpreendamos se a segunda hipótese for comumente a mais correta.

Quando a teoria não é compreendida, o melhor é deixá-la em suspenso. Nem aceitá-la, nem rejeitá-la, até que se adquiram as condições para um julgamento correto. Entretanto, quando o psicólogo acata a teoria mesmo sem compreendê-la nele mesmo, o saber teórico acaba tomando o lugar do saber psicológico que deveria norteá-lo em sua prática.

Se só conhecemos nossa própria alma, a alma dos outros só nos é conhecida na medida em que a encontramos na nossa própria. Não é possível conhecer alguém sem que o conhecer este alguém seja um conhecer a si mesmo. Assim, quando o psicólogo acredita que se tornou capaz de conhecer seu cliente através da teoria, mas que a teoria não tem nada a lhe dizer sobre si mesmo, ele na verdade não está conhecendo nem o cliente, nem a si mesmo, e nem muito menos está compreendendo o que a teoria está lhe dizendo. Ele usa a teoria no lugar de um saber que não existe. De fato, o saber teórico se torna a forma tomada pela ausência do saber psicológico, e a teoria se transforma em ignorância disfarçada de erudição.

Em outra passagem, essa menos conhecida que a primeira, Jung critica a atuação dos psicoterapeutas médicos:

Muitas vezes tive ocasião de verificar, por própria experiência, que os psicoterapeutas médicos procuravam exercer sua arte daquele mesmo modo rotineiro que lhes fora inculcado pela natureza peculiar de seus estudos. Os estudos de medicina consistem, de um lado, em encher-nos a cabeça com uma quantidade de fatos teóricos que são apenas decorados, sem que se tenha um conhecimento real de seus fundamentos e, de outro, na aprendizagem de habilidades práticas, que devem ser adquiridas segundo o princípio: “primeiro agir, depois pensar”. (JUNG, A Dinâmica do Inconsciente, p. 282-3)

A crítica dirigida aos psicoterapeutas médicos também se aplica, hoje, aos não médicos. O psicólogo está preocupado em aprender a teoria, decorar o CID-10, o DSM-IV, a bibliografia clássica de sua linha, e aplicar tudo isso ao conhecimento do cliente. Este último é des-conhecido pelo psicólogo que, interpondo a teoria entre sua alma e a dele, impedindo que elas se toquem, vai rotulá-lo de ‘o histérico’, ‘o obsessivo’, ‘o deprimido’, etc. O cliente deixa de ser uma pessoa; ele é um tipo que se enquadra numa classificação e numa teoria pré-existente que não foi devidamente compreendida; um tipo no qual o psicólogo não se espelha e não se reconhece. Poder-se-ia concluir que estou defendendo a alternativa contrária, qual seja, que o psicólogo primeiro conheça o cliente para depois averiguar onde este conhecimento se encaixa na classificação. Mas, isso não muda nada. Também neste caso a teoria continua isolada do saber psicológico. O aprendizado psicológico deve ocorrer de maneira que a aquisição da teoria floresça simultaneamente como conhecimento de si mesmo, e que o conhecimento de si mesmo se formalize na apropriação da teoria.

Somente assim a teoria aprendida pode ser esquecida. “Esquecer” a teoria significa se apropriar dela na forma do conhecimento de si. É assim que a teoria se torna esquecida qua teoria para renascer como o saber vivo de um psicólogo que verdadeiramente conhece o outro porque aprendeu a conhecer a si mesmo. E o conhecimento, quando verdadeiro, torna a prática intuitiva. A técnica, enquanto metodologia que dirige a prática, é desnecessária na presença do saber vivo. Ela deve ser dominada como parte do processo de aprendizado, mas logo esquecida assim que o saber passa a vivificar a prática.

Em vista do exposto, não vejo em que sentido a cientifização da Psicologia poderia tornar o exercício da psicoterapia mais eficiente. Se por ‘cientifização’ se entende a produção de um saber psicológico científico, nas mãos de um psicólogo que não conhece a si mesmo este saber só tornaria sua ignorância mais erudita, e, nas mãos daquele que se conhece, ele não teria serventia alguma, uma vez que o saber científico é objetivo, e aquele que nos interessa aqui é subjetivo. Se, por sua vez, o que se entende por ‘cientifização’ corresponde à elaboração de um conjunto de técnicas psicológicas, valem as mesmas conseqüências acima. Na ausência do saber que vivifica a prática, a técnica, por mais científica, só pode levar ao desastre, e na presença deste saber ela é completamente desnecessária.

Para bem terminar este post, lanço mais uma citação de Jung, que vem bastante ao caso:

Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda.

É incrível como tanto pode ser dito em tão pouco.


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