sexta-feira, 22 de julho de 2011

Solucionando as Dificuldades da Teoria do Inconsciente

Muitas complicações teóricas estão ligadas à tese de um indivíduo dividido, mas uma releitura das teses de Freud poderia apresentar-nos algumas soluções. Com efeito, a idéia de um sujeito ou de uma mente dividida em instâncias está ligada à maneira de figurar a teoria mental psicanalítica. Por mais abstrata que seja uma teoria, sua representação será sempre figurada. Freud nos deixou uma figuração topográfico-mecanicista para representar a mente na visão psicanalítica; uma figuração que, segundo ele, nos ajudaria a visualizar o sujeito e os processos descritos pela Psicanálise. E todas as principais críticas à tese de um indivíduo dividido são fundamentadas e justificadas na noção de um sujeito divido em compartimentos. Donald Davidson sintetiza os principais problemas ligados à tese de um indivíduo dividido da seguinte maneira:

a idéia de que a mente possa mesmo ser dividida foi muitas vezes tida como ininteligível, desde que ela parece requerer que pensamentos e desejos e mesmo ações sejam atribuídos a alguma coisa menos que, e portanto distinta da pessoa inteira. Mas, será possível dar sentido a ações e atitudes que não sejam aquelas de um agente? Igualmente, como Sartre sugere, a noção de responsabilidade perderia seu ponto essencial se ações e intenções estivessem frouxamente ligadas a pessoas e vinculadas, ao invés, a partes semi-independentes da mente. As partes estariam, então, representando pessoas: Cada parte se tornaria uma pequena mulher, homem ou criança. O que era então uma mente única se tornaria um campo de batalha onde forças opostas se enfrentariam, se enganariam mutuamente, esconderiam informações uma das outras e planejariam estratégias. [...] O agente principal apareceria como uma espécie de diretor, árbitro ou ditador[1].

As premissas da teoria psicanalítica não são reticentes a uma releitura que permita figurá-la de maneira diferente. E se for possível apresentar uma figuração da teoria mental psicanalítica que nos apresente a um sujeito dividido, mas não a um que seja dividido em instâncias ou compartimentos, de maneira que cada “parte” represente, ao mesmo tempo, o sujeito em sua inteireza, sem que, no entanto, elas (as “partes”) percam a autonomia e a distinção conferidas a elas pela teoria psicanalítica, todas as críticas sinteticamente apresentadas acima por Davidson perderão a força. 

Em suma, se for possível apresentar uma figuração do sujeito psicanalítico no qual seja possível visualizar um indivíduo dividido cuja divisibilidade seja uma condição sine qua non para sua unidade e indivisibilidade, sem que, para tanto, sejamos forçados a alterar ou modificar qualquer premissa da teoria mental psicanalítica, a Psicanálise conseguiria preservar seu arcabouço de premissas e conceitos e, ao mesmo tempo, encontrar uma resposta satisfatória para críticas que a assolam desde seu surgimento.

Dentro das polêmicas relacionadas à tese de um indivíduo dividido, sempre se destacaram aquelas concernentes à teoria de uma mente inconsciente que, entre outras questões, implica na noção de que a constituição do sujeito abriga uma “parte” da qual ele não é consciente e que, mesmo assim, exerce função causal determinante em sua vida consciente (seus projetos, afetos, suas relações humanas, etc.). A desconfiança em torno do inconsciente se agravou ainda mais com o desenvolvimento das Neurociências e pelas dificuldades com que elas se defrontaram frente à tarefa de “encontrar” o inconsciente no cérebro.

Mais uma vez, esta polêmica e toda esta desconfiança (tanto as antigas quanto as atuais) têm seu fundamento na figuração topográfico-mecanicista do sujeito deixada por Freud, em que o inconsciente aparece como um compartimento da mente separado da consciência e do pré-consciente. A noção de que na mente se encontre um compartimento no qual se escondam de forma inacessível ao sujeito as principais causas daquilo que ele mesmo é entra em conflito com toda idéia comum de livre-arbítrio, dignidade humana e responsabilidade, encerrando complicações éticas profundas das quais nem Freud nem a Psicanálise de forma geral tratou com a devida profundidade. Por sua vez, é igualmente devido a esta noção de uma mente dividida em partições, e do conseqüente conceito de ‘inconsciente’ que nela se sustenta, que as Neurociências vêm tentando, com certa dose de fracasso, encontrar no cérebro partes ou processos fisiológicos que possam receber a denominação estrita de ‘inconsciente’.

Que a experiência subjetiva comporta o surgimento, o desenvolvimento e o cessar de afetos, emoções e desejos sobre os quais o sujeito não tem pleno controle e muito menos pleno entendimento, é patente desde que o homem começou a se dedicar à observação de si próprio. Entretanto, a Psicanálise foi mais além, e afirmou que nesta inconsciência de si mesmo não nos deparamos apenas com a falta de controle e de entendimento sobre afetos e desejos já conhecidos por nós, mas que nela se encontra, inclusive e principalmente, afetos e desejos que nos são completamente desconhecidos, ou completamente inconscientes, e sobre os quais, por isso mesmo, não temos controle algum. A esta descoberta, Freud imputou a terceira grande ferida narcísica do homem. A primeira, provocada pela revolução copernicana, teria obrigado o homem ao abandono de suas pretensões quanto à ocupação do centro do universo; a segunda, provocada por Darwin, teria obrigado o homem a reconhecer que não ocupa nenhuma posição privilegiada na criação, e que sua existência se deve muito mais ao acaso do que a um ato de vontade divino; a terceira, enfim, provocada pelas descobertas da Psicanálise, teria mostrado ao homem que ele não é senhor nem em sua própria casa, e que nele se encontram causalidades inconscientes, sobre as quais ele não possui controle, que determinam suas ações e seus afetos mesmo contra sua vontade e seu mais violento protesto.

Porém, as complicações éticas referidas acima só tomam forma concreta quando a figuração da inacessibilidade destas causalidades inconscientes toma a forma de um compartimento da mente no qual certos afetos e desejos permanecem excluídos do raio de ação do sujeito. Mas, o que aconteceria se a teoria do inconsciente fosse figurada de outra maneira; uma maneira na qual consciência e inconsciente, enquanto “partes” da mente, representassem, ao mesmo tempo, cada um em sua própria perspectiva, a totalidade desta mesma mente, sem que, no entanto, a premissa de um determinismo inconsciente e involuntário perdesse sua validade? Uma figuração deste tipo conciliaria (1) a tese de que o sujeito é determinado por causas inconscientes sobre as quais ele não tem controle com (2) nossa noção comum de responsabilidade e livre-arbítrio. Em suma, ela preservaria o peso da terceira ferida narcísica que Freud indicou nas descobertas psicanalíticas sem que isto acarretasse as complicações éticas das quais a Psicanálise vem sendo sempre acusada.

Com relação às dificuldades que as Neurociências vêm encontrando em suas labutas com o inconsciente, esta figuração não apresentaria, de fato, nenhuma solução, mas serviria para esclarecer que se há alguma possibilidade de a ciência encontrar no cérebro ‘algo’ que possa ser denominado ‘inconsciente’, sua busca não pode ser no sentido de apontar alguma parte ou processo fisiológico que possa receber tal denominação, a menos que esta mesma parte ou este processo representem, simultaneamente, o cérebro inteiro. Se não conhecemos ainda a forma em que o inconsciente pode ser encontrado em termos biológicos, pelo menos seremos capazes de mostrar que a maneira que vem sendo usada para se tentar compreendê-lo nestes termos não é válida, e que seus sucessivos fracassos não podem ser usados como argumentos contra a teoria psicanalítica.


*Curta a página PSICOLOGIA NO COTIDIANO no facebook. Temáticas de nosso cotidiano tratadas em abordagem psicológica:

http://www.facebook.com/cotidianoepsicologia


[1] “…the idea that the mind can be partitioned at all has often been held to be unintelligible, since it seems to require that thoughts and desires and even actions be attributed to something less than, and therefore distinct from, the whole person. But can we make sense of acts and attitudes that are not those of an agent? Also, as Sartre suggests, the notion of responsibility would lose its essential point if acts and intentions were pried loose from people and attached instead to semi-autonomous parts of the mind. The parts would then stand proxy for the person: each part would become a little woman, man, or child. What was once a single mind is turned into a battlefield where opposed forces contend, deceive one another, conceal information, devise strategies. [..] The prime agent may appear as a sort of chairman of the board, arbiter, or dictator.” (Paradoxes of Irrationality, p. 171)

3 comentários:

  1. "[...] as Neurociências vêm tentando, com certa dose de fracasso, encontrar no cérebro partes ou processos fisiológicos que possam receber a denominação estrita de ‘inconsciente’."

    Há um ramo chamado Neuropsicanálise que figura como uma tentativa de descrever a teoria psicanalítica em termos neurobiológicos. Tenho uns artigos em mãos; se quiser, posso enviá-los a você (ainda não os li; acho que preciso entender mais de Psicanálise antes de fazê-lo). E já ouvi por aí que o inconsciente, enquanto "tipo de atividade mental", seria o tipo de atividade neural que está abaixo do limiar de excitabilidade e sincronia que caracteriza a experiência consciente. Seria algo como as luzes fracas de uma corrente de luzes de natal que, embora menos reluzentes, influenciam a forma como todo o conjunto se nos apresenta.

    Abraço, xará!

    ResponderExcluir
  2. Essas pesquisas em neuropsicanálise mostram o quanto é importante trabalhar em pressupostos antes de se iniciar a pesquisa científica. O que a neuropsicanálise tenta fazer é levar adiante o chamado “Projeto” de Freud. Antes de Freud “fundar” a psicanálise, ele trabalhou num esboço de psicologia biológica que ele não terminou e não publicou. Somente depois de sua morte que esse texto foi achado e publicado postumamente com o título de “Projeto para uma Psicologia Científica”. Neste texto, Freud também tentou trabalhar com conceitos de ligações fracas e fortes entre neurônios, e coisas do tipo.

    Freud percebeu que não ia dar certo e abandonou a coisa. Posteriormente, ele inventou a Psicanálise, mas sempre acreditou que a Psicologia do futuro seria biológica. Todo mundo sabe que na teoria psicanalítica Freud trabalhou com alguns modelos da mente, modelos que ele sempre considerou HIPOTÉTICOS. O grande problema destes modelos, é que Freud não conseguiu falar sobre a inconsciência sem figurá-la como um inconsciente, como uma “parte” ou uma “instância” da mente. Era necessário que esse conceito fosse melhor trabalhado, melhor compreendido antes de se iniciar uma pesquisa científica no sentido de mostrar como o inconsciente pode ser entendido em termos biológicos.

    Entretanto, este desenvolvimento teórico nunca aconteceu. Depois de Freud, o conceito de inconsciente nunca foi trabalhado numa filosofia da mente consistente. Neuropsicanalistas e neurocientistas de tendência psicanalítica então pegaram o conceito tal como Freud o deixou, e o fizeram de paradigma daquilo que eles acreditavam e acreditam dever ser encontrado em termos biológicos. O resultado, como não podia deixar de ser, é a ciência mal-feita.

    Se a pesquisa científica parte de pressupostos equivocados, os resultados também serão equivocados. Se você conceitua o inconsciente como a camada psíquica que existe abaixo da consciência, ou que existe ao lado dela, ou que existe junto dela, mas com “intensidade” diferente, os problemas teóricos serão inevitáveis.

    Se o inconsciente é definido em analogia com as luzes fracas numa corrente de luzes de Natal, temos os seguintes problemas:

    - As luzes fracas não deixam de ser percebidas por serem fracas. São percebidas e distinguíveis das luzes fortes, assim como as luzes fortes são percebidas e distinguidas delas. Assim, as luzes fracas são tão conscientes quanto as fortes.

    - Mas, se a consciência está na forma como o ‘todo’ se nos apresenta, e se não somos conscientes de cada luzinha em particular, mas apenas do seu todo dado em cada momento, então as luzes fortes devem ser tão inconscientes quanto as luzes fracas, uma vez que elas também não são distinguíveis em si mesmas, e a consciência, paradoxalmente, será a resultante de um conjunto de elementos inconscientes.

    Freud e Jung também tentaram explicar o inconsciente como a atividade psíquica que não possui a intensidade suficiente para alcançar a consciência, e fizeram muitos malabarismos teóricos para tentar sustentar suas teses. Mas, se o inconsciente é mais fraco que a consciência, como se explica o imenso poder que o inconsciente exerce sobre a vida consciente?

    Eu acho que a solução para as dificuldades do inconsciente é uma questão lingüística. Tomemos uma tese psicanalítica banal, por exemplo:

    No desejo sexual pela sua namorada, há o mesmo desejo inconsciente pela sua mãe.

    Esta tese sempre foi compreendida, de acordo com as tópicas de Freud, como se abaixo do desejo consciente pela sua namorada houvesse outro desejo, inconsciente e reprimido, pela sua mãe, sendo que o desejo reprimido, estando associado ao desejo consciente, encontraria certa dose de satisfação através dele.

    Esta tese pode ser formulada assim:

    No desejo consciente há um desejo inconsciente.

    Na formulação, DOIS desejos nos são apresentados, um consciente e outro inconsciente.

    ResponderExcluir
  3. CONTINUAÇÃO

    Entretanto, esta tese pode ser formulada de outra maneira:

    O desejo consciente é o desejo inconsciente.

    O desejo consciente pela sua namorada é o desejo inconsciente pela sua mãe. O desejo pela sua namorada é uma das formas em que o desejo inconsciente pela sua mãe se manifesta conscientemente. Na relação com a sua mãe, este desejo não é consciente enquanto desejo. A idéia de uma relação incestuosa vai te parecer estranha, despropositada, algo absolutamente incompatível com você. Assim, na relação com a sua mãe, o desejo será consciente na forma de repulsa, indignação, etc. Você não será mais capaz de reconhecer em você este desejo na FORMA de desejo incestuoso. Assim, ele será consciente na forma de repulsa, ou na forma do desejo pela sua namorada. Mas, uma vez que você não o reconhece mais como desejo incestuoso, nesta forma ele será inconsciente para você.

    O desejo pela namorada, a repulsa e o desejo incestuoso não são três elementos diferentes em relação recíproca. Trata-se do MESMO elemento, consciente em três diferentes PERSPECTIVAS; e quando ele se torna consciente numa destas três perspectivas, ele se torna inconsciente nas outras. Entretanto, uma vez que a perspectiva em que este elemento toma a forma de ‘desejo incestuoso’ não é mais reconhecida por você EM VOCÊ mesmo, dizemos que esta perspectiva, além de inconsciente, está recalcada. Mas ela não foi excluída da consciência e jogada fora numa instância subconsciente! Ela apenas perdeu a referência a você mesmo. Você não é mais capaz de reconhecer este desejo, como desejo incestuoso, em você mesmo. Você pode reconhecê-lo como tal nos outros, mas, em você mesmo, ele só se torna consciente como repulsa, ou como algo que você crê ser incompatível com você.

    Tudo que é consciente é inconsciente noutra(s) perspectivas, e vice-versa. A consciência É a inconsciência. A consciência de alguma coisa sempre é a inconsciência desta mesma coisa noutra perspectiva, e vice versa. Não existe a distinção entre elementos conscientes e inconscientes, ou entre atividade psíquica consciente e inconsciente. Trata-se da mesma atividade psíquica, indiferenciada. A mente não é dividida em partes, ela é una.

    Assim, questões sobre como encontrar o inconsciente no cérebro são pseudo-científicas. São falsas questões, falsos problemas. TODA a consciência é inconsciência, e toda a inconsciência é consciência. Consciência e inconsciência correspondem a toda a atividade psíquica.

    Toda a atividade psíquica é consciência, e toda a atividade psíquica é inconsciência. Tudo depende do ponto de vista.

    Se os neuropsicanalistas tivessem chegado a este desenvolvimento teórico, muito trabalho inútil teria sido evitado, e muita bobagem teria deixado de ser publicada. Por isso é que eu insisto tanto na necessidade de se trabalhar em conceitos, definições, pressupostos. Este é um trabalho filosófico? Sem dúvida que sim! Mas, quem foi que disse que existiria ciência sem filosofia? O grande equívoco da ciência atual é acreditar que ela pode existir sem a Filosofia.

    ResponderExcluir