sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Psicanálise não possui uma Teoria da Sexualidade

A teoria da sexualidade psicanalítica representa, paradoxalmente, um de seus maiores trunfos e, ao lado da teoria do inconsciente, o alvo preferido de seus críticos. Entretanto, a Psicanálise não possui uma teoria da sexualidade em sentido estrito. Sua inovação neste quesito consiste em ela ter descoberto a sexualidade ali onde ninguém antes havia visto algo sexual. Porém, a pulsão sexual aparece, na teoria psicanalítica, como algo dado ou instituído por natureza, à semelhança de qualquer instinto. Ainda que se leve em consideração as distinções teóricas entre ‘pulsão’ e ‘instinto’, a primeira não deixa de ser concebida, à semelhança do segundo, como uma força instituída por natureza. A Psicanálise aponta, como início de sua teoria da personalidade, o panorama em que todas as pulsões são encontradas desorganizadas, dadas ali como algo que não requer maiores explicações, e cuja ordem começa a se estabelecer através dos primeiros atos de satisfação. Mas, ela não esclarece o que é a sexualidade, de onde e como surgiram as pulsões, e, principalmente, por que somos seres sexualizados. Estas são questões cujas respostas a Psicanálise transfere, em conformidade com a orientação de nosso senso-comum, à obviedade sem conteúdo das explicações biológicas mais vazias. A sexualidade, ela nos informa, tem seu fundamento na hereditariedade; trata-se de um “algo” encontrado em todas as formas de vida, cuja função é a perpetuação e a preservação da espécie.


Se nem ao menos uma gênese biológica da sexualidade a Psicanálise nos apresenta, menos ainda encontraremos em seu escopo teórico uma gênese psicológica. A sexualidade ainda preserva, na teoria psicanalítica, o significado instintivo, mecânico e impessoal geralmente dado a ela em outras matérias. Nestas, o advento da sexualidade não é algo que diz respeito diretamente ao sujeito; sua presença na personalidade não está ligada ao desenvolvimento da subjetividade, uma vez que ela é composta de forças instituídas por natureza cujo fundamento é biológico e hereditário, apresentando uma impulsividade mecânica, ou um automatismo, para falar claramente, que nada tem de subjetivo. O sujeito recebe, passivo e sem escolha, um pacote de instintos sexuais em sua constituição biológica, e o alcance de sua subjetividade restringe-se às tentativas de controlar esta força tão estranha e tão impessoal a habitar seu próprio ser.

Mas, é verdade que a Psicanálise trata da gênese da constituição das diversas formas de sexualidade encontradas por ela na clínica, e fornece, a cada uma delas, uma teoria psicológica; por esta razão, talvez seja legítimo afirmar que na Psicanálise se encontra uma teoria da sexualidade, haja vista os Três Ensaios da Teoria da Sexualidade de Freud. Mesmo assim, a teoria em questão trata apenas da gênese das formas, enquanto sua matéria, as pulsões, permanece ligada ao biologismo impessoal descrito acima. Neste panorama, não espanta que a teoria da sexualidade psicanalítica tenha encontrado tantos opositores. Ela descobriu um significado sexual em todas as formas de manifestação da vida humana, inclusive naquelas que nos são mais íntimas e pessoais, como a relação com nossos genitores. A noção de sexualidade alimentada pelo senso-comum nos apresenta a idéia de algo mecânico, impulsivo, impessoal, animal e objetal – para não dizer abjetal. Assim, como é possível compreender que algo desta natureza possa caracterizar aquilo que, a nosso ver, possui exatamente a natureza mais oposta, ou seja, algo tão sublime, tão subjetivo, tão pessoal e humano?

A Psicanálise descobriu as formas mais animais nas formas mais belamente humanas, e não forneceu uma gênese psicológica da sexualidade que transformasse a noção tão vazia que dela sempre tivemos e evitasse o inevitável choque de valores que se seguiu então. Não é possível encontrar na teoria psicanalítica uma gênese deste tipo. Mas, talvez seja possível empreender uma releitura de alguns de seus conceitos que nos permita deduzir ao menos um esboço do que estamos buscando.

A teoria da sexualidade psicanalítica que estamos buscando deveria nos fornecer uma compreensão ao menos geral de como a sexualidade em sua forma final, a que começa a se manifestar durante a puberdade, é um produto do desenvolvimento da subjetividade. Posto de forma mais clara, ela deverá nos mostrar que o desejo sexual, em si mesmo, é subjetivo. Na ordem de explicação em que a teoria psicanalítica se encontra no momento, o papel da subjetividade é admitido apenas na escolha dos objetos sexuais ou nas diversas formas que a sexualidade é capaz de adquirir. E, mesmo nestes casos, a hereditariedade e o ambiente ainda entram, por vezes, como fatores explicativos. Para que a teoria da sexualidade cumpra bem o seu papel, é necessário que a dimensão subjetiva das forças que se transformam e se organizam no desejo sexual sejam mostradas em sua gênese subjetiva. Na Psicanálise, estas forças são as pulsões.

A hereditariedade e o ambiente, quando entram em teorias psicológicas na conta de fatores explicativos, assumem um papel causal em detrimento da subjetividade. O que as pesquisas em genética nos informam é que a prole apresenta certa probabilidade de herdar caracteres de personalidade dos genitores. Compreendido de forma adequada, este resultado nos informa que há probabilidades de que um sujeito gere descendentes que são sujeitos semelhantes a ele. Assim, na condição de ‘sujeitos’, as semelhanças de personalidade que os descendentes apresentam com seus genitores devem ser estudadas na dimensão da subjetividade. Entretanto, elas são muitas vezes usadas como fatores causais em explicações psicológicas de forma a isentar a subjetividade de sua gênese. Fatores herdados são entendidos como impessoais. A subjetividade se fundamenta neles, mas a gênese deles não está ligada ao desenvolvimento dela; eles foram herdados, e sua gênese é a herança genética. O papel do ambiente também é passível das mesmas críticas. Forças do ambiente são entendidas como pressões ou estímulos aos quais o sujeito reage. A reação é sem dúvida subjetiva. Mas, se a reação ao estímulo é subjetiva, sua ação sobre o sujeito também é. Uma “pressão social” não teria efeito algum sobre um recém-nascido, uma vez que esse tipo de estímulo não pode ser significado por ele como tal. Estímulos ambientais só produzem respostas subjetivas se forem significados pelo sujeito e na medida do alcance desta significação. Ou seja, a ação do mundo sobre o sujeito é uma ordem da atividade do sujeito sobre si mesmo, ou uma ordem de ação da subjetividade. Mas, o temor de cair no solipsismo e a necessidade cultural de apresentar um fundamento objetivo para a subjetividade impedem o devido reconhecimento desta questão.

Além das noções de ‘hereditariedade’ e de ‘pressão do ambiente’, as definições de ‘pulsão’ encontradas na teoria psicanalítica ainda trazem elementos biológicos. Em seu Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis apresentam a seguinte definição para ‘pulsão’(p. 394):

Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir a sua meta.

Na medida em que Freud construiu seu modelo da mente baseado em instâncias psíquicas, as pulsões são forças que se deslocam entre elas; nisto consiste sua natureza dinâmica. Entretanto, este modelo foi concebido por Freud em analogia com os modelos físicos existentes na época. Neste sentido, as pulsões são forças energéticas cujo dinamismo está vinculado, em analogia ao princípio de diferença de potencial da Física clássica, à tensão e à sua descarga. A fonte da pulsão é uma excitação corporal, ou seja, é biológica. Concebida como uma força energética que se desloca entre instâncias psíquicas, e cujo dinamismo tem seu princípio em tensões de origem biológica, não há nada nesta definição que ligue a gênese das pulsões ao sujeito e ao desenvolvimento da subjetividade. Provavelmente, entre as poucas conexões que podemos fazer entre ‘pulsão’ e ‘sujeito’ está o fato de Freud ter reconhecido, em determinados pontos de sua teoria, o ego como reservatório das pulsões. No mais, elas são claramente definidas como forças impessoais, instituídas por natureza, que transitam pelo ego e pelas demais instâncias, mas que não apresentam qualquer natureza subjetiva. Curiosamente, no Dicionário de Psicanálise Larousse/Artes Médicas, a natureza subjetiva das pulsões é mais ressaltada (p. 177):

pulsão, s.f. (alem.: Trieb; fr.: pulsion; ing.: drive ou instinct). Na teoria analítica, energia fundamental do sujeito, força necessária ao seu funcionamento, exercida em sua maior profundidade.

A expressão ‘energia do sujeito’, aqui, transmite a noção de algo que o sujeito utiliza na relação com as demais instâncias psíquicas, não de algo que o constitua e que, em sentido inverso, é constituído por ele.

É evidente que qualquer teoria psicológica vai partir de alguma coisa já dada, algo que já estava ali, como que instituído por natureza. Esta coisa pode ser, por exemplo, uma dinâmica de forças ou um sujeito pré-formado. Entretanto, quanto mais longe esta teoria conseguir ir na explicação da gênese psicológica da personalidade, mais completa ela será. A Psicanálise não realizou todo o seu potencial a esse respeito. Freud, além de um homem à frente de seu tempo, também era um homem do seu tempo. Ele queria fazer ciência, e acreditava que explicações psicológicas legítimas deveriam ter fundamentos biológicos. A teoria que ele formulou, mesmo inovadora, sofreu os impactos desta visão de mundo. Porém, é possível deduzir da teoria psicanalítica uma teoria da sexualidade que mostre o impulso sexual e a sexualidade não como forças impessoais de fundamentação biológica, mas como algo decorrente do desenvolvimento da subjetividade.


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2 comentários:

  1. Fala, xará! Passei por aqui para ver as novidades e gostei desse texto. Suas ideias batem com algumas coisas que já discutimos anteriormente, via e-mail. Vou dar uns pitacos.

    "Estímulos ambientais só produzem respostas subjetivas se forem significados pelo sujeito e na medida do alcance desta significação."

    O que é a significação desses estímulos? Como passamos a significá-los? Penso que a organização dessas pulsões, dessas forças "dadas", constituídas naquele "pacote herdado", é algo realizado justamente pela reatividade ou, melhor ainda, pela interação do sujeito/organismo com essa estimulação ambiental. Não é o sujeito, isoladamente, que significa a estimulação ambiental. Todo o processo de significação seria engendrado conforme as interações desse sujeito com o mundo. Nesse sentido, a subjetividade não seria muito mais que certas classes de resposta (entendida, pela minha análise, como comportamentos privados [pensar, sentir, imaginar etc.]) que o sujeito apresenta em certas circunstâncias, sendo que as respostas mais elementares a essas condições são inatas, disposicionais, isto é, fazem parte da constituição hereditária. O sujeito adulto "normal", diferentemente da criança, teria passado por todo um conjunto de condições que possibilitaram a organização dessas respostas elementares.

    Sobre a questão da causalidade, vejo que o papel causal da subjetividade se faz valer à medida que o dinamismo subjetivo antecede outros tipos de respostas/atividades pulsionais/subjetivas/corporais e, ainda, à medida que essas atividades alteram o ambiente. Mas vejo-as também, você sabe, como variáveis dependentes de condições antecedentes, assumidas como variáveis independentes, e não como coisas descontextualizadas, autosuficientes e desligadas do meio (e sei que o próprio Freud não as via assim). Dependendo do recorte, portanto, a atividade pulsional poderia ser vista ou como variável dependente ou como variável independente.

    Abração.

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  2. Fala, xará!

    A questão das diferenças entre os meus pontos de vista e os seus não é que os meus são corretos e os seus incorretos. Trata-se de pontos de vista em perspectivas diferentes, e ambos são válidos na sua devida perspectiva. As questões que eu levanto sobre os seus pontos de vista é a seguinte:

    - São realmente explicações?
    - São realmente adequados a uma psicologia?

    Sobre a questão da validade explicativa, é um fato que, quanto mais mecanicista for uma explicação, maior será o seu caráter DESCRITIVO e menor o seu caráter explicativo. Explicações suficientes sempre possuem um caráter DINÂMICO. Numa explicação dinâmica, o todo se explica por si mesmo. O todo se explica pela interação entre suas partes, e as partes se explicam umas pelas outras. O princípio de uma explicação dinâmica é a seguinte:

    O todo é um, e cada parte do todo é o próprio todo.

    Tudo é um, e cada um é tudo. Foi exatamente este princípio que eu deixei implícito na minha resposta ao seu comentário sobre o inconsciente acima. “Consciência” e “inconsciência”, tomadas como partes da mente, já são a totalidade da mente. Numa Psicologia Dinâmica, isso deve ser mostrado não apenas na relação entre consciência e inconsciência, mas na relação entre agressividade, medo, desejo, etc, etc. TUDO o que constar numa teoria da mente deve ser mostrado como sendo, ao mesmo tempo, uma perspectiva da mente INTEIRA. No tópico acima eu mostrei que a repulsa consciente É o desejo inconsciente, e que a consciência é a inconsciência, e por aí vai.

    Enquanto numa explicação dinâmica nós lidamos com um sistema fechado e autoexplicativo pela relação entre suas partes, num sistema mecânico o sistema nunca fecha.

    Um comportamento é a causa de outro, que é a causa de outro, que é a causa de outro, que foi causado por sinapses, que foi causado por certos genes, que foram herdados, que foram selecionados, que foram produto de mutações aleatórias.

    O sistema não fecha. Ele não se explica. A corrente entre causa e efeito tem um início aleatório e permanece sempre retilínea. Ela nunca retorna ao começo. Ela não diz por que todo este processo EXISTE. Ela descreve o processo, mas não o explica.

    Numa teoria dinâmica, o todo se explica. Por que este todo existe e é como é? A explicação é dada pelo próprio todo, na relação entre suas partes que já são o todo em si.

    A Física newtoniana era mecanicista. Mas, suas fórmulas eram bastante dinâmicas. A velocidade se explica pela distância e o tempo, o tempo se explica pela velocidade e pela distância, e a distância se explica pelo tempo e pela velocidade. O sistema FECHA. Ele é autoexplicativo.

    Já a mecânica quântica não fecha. Suas causas são todas aleatórias. A Física Quântica é essencialmente DESCRITIVA. A Física newtoniana é muito mais explicativa que a Física Quântica.

    O behaviorismo também é essencialmente descritivo. A psicanálise também é mecanicista. Mas, como a Física Newtoniana, ela possui fórmulas bastante dinâmicas. Uma teoria psicológica completa seria uma Psicologia Dinâmica em que a subjetividade seria tratada como um todo fechado e autoexplicativo. Isso não é difícil de se fazer desde que compreendamos o óbvio: O mundo em que vivemos é o NOSSO mundo. Ele é subjetivo. Se é subjetivo, pode ser estudado dentro do TODO FECHADO da subjetividade. Basta deixarmos de lado alguns pudores “objetivos” para que isso seja feito. Se isso for feito, então teremos em mãos uma Psicologia completa e 100% explicativa.

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