quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Contexto Existencial da Depressão

Tratamentos psiquiátricos contra a depressão estão cada vez mais em voga. Psicoterapias aparecem como a segunda opção. A psiquiatrização da depressão fornece ao psicólogo a possibilidade de contar com um tratamento medicamentoso auxiliar ao tratamento psicoterápico. Entretanto, fato é que as medicações sempre ocuparam a posição de tratamento principal, não auxiliar, e a depressão é hoje amplamente considerada uma doença. O lado positivo deste tipo de postura é o respeito reservado aos pacientes com depressão. Licenças de trabalho e outros direitos são hoje concedidos normalmente a estes pacientes. O lado negativo é que o significado de ‘doença’ muitas vezes obscurece a subjetividade implícita ao fenômeno. Por ‘subjetividade’, entendo a participação e a responsabilidade que o sujeito tem na sua própria condição. No rótulo de ‘doença’, muitas vezes vem implícita uma espécie de absolvição, ainda mais quando a ciência já dispõe de tratamentos medicamentosos. É mais fácil para ciência reconhecer a validade de fatores psicogênicos quando ela ainda não dispõe de tratamentos bioquímicos eficazes. E assim que surge um destes tratamentos, imediatamente as explicações psicológicas ou são revogadas ou colocadas em segundo plano. Tratarei neste post do contexto existencial da depressão. Minha experiência clínica mostra que este contexto, quando elaborado, pode realmente curá-la.

Nossa relação com o outro é de dependência afetiva, porquanto desta relação retiramos nossa auto-estima, que é o alimento de nossa sobrevivência psíquica. O outro possui basicamente duas dimensões: As pessoas com que nos relacionamos e o mundo. Estas dimensões se interpenetram de tal forma que as pessoas com que nos relacionamos constituem verdadeiramente o nosso mundo, enquanto o mundo, por si só, adquire o sentido de mais uma destas pessoas. Entretanto, se por um lado o mundo funciona como uma pessoa, por outro esta “pessoa” possui atributos não encontrados em nenhuma das demais.

Muitos pacientes entram em depressão por viverem na frustração de demandas que eles acreditam não serem capazes de satisfazer, e que também não vêem possibilidade de serem satisfeitas por ninguém. São exemplos deste tipo de demanda a esperança de cura para uma doença desconhecida e mortal, o sonho de um recluso em encontrar um amor, o sonho de um desempregado em comprar uma casa, etc. Estas demandas, que, no imaginário do paciente, estão além das capacidades dele mesmo e dos demais, continuam dirigidas a um outro. Este outro, portanto, será concebido pelo paciente como capaz daquilo que para ele e as pessoas em geral é impossível. Este outro é o mundo, a vida, ou uma de suas personificações, como ‘ Deus’. A vida e o mundo compreendem todas as possibilidades, toda a força e o poder. Tudo que o paciente crê ser possível está compreendido na esfera do mundo e da vida, e todas estas possibilidades transcendem em muito, assim ele crê, as possibilidades humanas.

A situação de dependência afetiva entre o eu o outro é de tal forma que o eu alimenta a fantasia de possuir em sua constituição um limite de frustração que ele é capaz de agüentar sem que o outro satisfaça as demandas que lhe são dirigidas. Depois deste limite, ele acredita que estará na completa dependência de que o outro o satisfaça para poder continuar a existir. Assim, todo sujeito está preparado para suportar certa cota de frustração. Depois desta cota, ele acredita que sua auto-estima descerá a um nível tão baixo que mesmo sua integridade física estará ameaçada. E se a frustração de certas demandas é tolerável, enquanto a de outras não, o eu acredita que algumas delas são circunstanciais, enquanto outras lhe são vitais. Há casos de pessoas que se tornam tão importantes para o eu, que a simples possibilidade de abandono o faz duvidar de sua capacidade de sobreviver sozinho. Nestes casos, o outro adquire o significado de ‘mundo’. O parceiro amoroso, o amigo, o pai, a mãe ou o filho representam o lugar no qual o eu situa todas as possibilidades de existir e ser feliz, ou o lugar em que ele situa seu próprio mundo. A esta pessoa-mundo, o eu chega mesmo a atribuir os poderes sobrenaturais delegados ao mundo enquanto tal. O eu acredita que em sua presença nada de mal pode lhe acontecer, e que ela é capaz de livrá-lo de quaisquer adversidades. Nos casos em que o mundo não é representado apenas por umas poucas pessoas, mas compreende a elas todas, e principalmente as que são significativas para o eu, é mais comum que esta pluralidade seja unificada e personificada na imagem de ‘Deus’, quando o paciente manifesta alguma crença religiosa.

Assim, é ao mundo, em suas variadas representações, que o paciente dirige suas demandas vitais. Numa demanda vital dirigida ao outro está implícita a fantasia de que ele tem a obrigação de satisfazê-la. Se o outro é a base na qual o eu se sustenta, então o outro é o próprio eu. Em certo sentido, o fundamento de alguma coisa se confunde com esta coisa e forma com ela uma unidade. Entretanto, no sentido em que a base e aquilo que ela sustenta são duas coisas diferentes, a base só será base enquanto sustentar a coisa que se liga a ela. Sem exercer a função de sustentação, a base deixa de ser base e sua existência perde o sentido. Portanto, numa demanda vital, o eu alimenta a fantasia de que o mundo ao qual ela é dirigida está encarregado da obrigação de satisfazê-la. Caso contrário, tanto o eu quanto mundo estarão ameaçados de destruição.

O conteúdo desta fantasia pode parecer excêntrico demais para que sua presença seja admitida como universal. Mas ela traduz em palavras a essência do amor egoísta, aquele amor em que o eu enxerga no outro apenas uma outra dimensão de si mesmo, qual seja, a dimensão encarregada da obrigação de satisfazê-lo e cuidar de sua sobrevivência. Toda relação objetal do início da vida é amorosa no sentido mais egoísta do termo, e mesmo nas esferas mais altruístas do amor amadurecido seu fundamento egoísta permanece, ainda que inconsciente. O amor absolutamente altruísta seria desprovido de demanda, uma vez que se a demanda reconhece no outro aquilo que falta ao eu, então ‘demanda’ significa o reconhecimento no outro, por parte do eu, de uma parte de si mesmo.

A relação do eu com o mundo é mediada pelas demandas vitais, e a fantasia da obrigatoriedade do mundo em supri-las caracteriza um contexto existencial em cujos desdobramentos pode estar incluída a depressão. Sintetizando este contexto existêncial:

1) O eu dirige ao mundo certas demandas que ele considera vitais;

2) A não satisfação destas demandas por parte do mundo pode resultar na destruição deste e do próprio eu;

3) Em vista da possibilidade de destruição mútua, o mundo se vê obrigado perante o eu a satisfazer todas as suas demandas vitais.

A característica essencial deste contexto existencial é o posicionamento do eu no centro de gravidade do mundo. O eu alimenta a fantasia de que o mundo gira e precisa girar ao seu redor, para o seu próprio bem e para o bem do próprio mundo. Assim, este contexto existencial recebe o nome de egocentrismo.

Demandas vitais podem ser dirigidas a outra pessoa em particular, e o eu pode acreditar que sua satisfação dependa simplesmente de um ato de vontade dela. Entretanto, se ele paralelamente crê que não há possibilidade de que a pessoa em questão aja em conformidade com sua demanda, a esperança de que ela assim o faça será dirigida ao mundo, ao conjunto ilimitado de todas as possibilidades. Assim, a demanda dirigida ao mundo apresenta duas dimensões opostas: Na medida em que o mundo compreende o conjunto de todas as pessoas que nele habitam, em especial aquelas que são importantes para o eu, a demanda dirigida ao mundo é frustrada por princípio, porquanto o eu acredita que sua satisfação está além das possibilidades humanas. E na medida em que o mundo compreende o conjunto ilimitado de todas as possibilidades, ele ainda crê na possibilidade de satisfação, e esta crença já representa certa ordem de realização que o auxilia a racionalizar a frustração imanente à primeira destas dimensões.

Se o mundo é o outro do eu em sentido mais profundo, ele representa, no contexto da relação de amor egoísta mantida com ele, a projeção mais completa do próprio eu. Pessoas, objetos e situações particulares são objeto para projeção de nuances do eu igualmente particulares, enquanto o mundo representa a totalidade destas projeções, ou o eu projetado em sua completude. Assim, se o mundo representa o conjunto ilimitado de todas as possibilidades, inclusive de possibilidades que extrapolam as meramente humanas, paradoxalmente o eu situa estas possibilidades como possibilidades suas. Consequentemente, enquanto ele se vê capaz de utilizar a esperança da satisfação de suas demandas vitais para racionalizar a frustração imanente a elas, ele permanece confiante em si mesmo e firme em sua relação com o mundo. Mas, no instante em que a esperança não é mais suficiente para tanto, a sensação de impotência perante o mundo começa a prevalecer, e se esta sensação de impotência se dá no contexto de um egocentrismo exacerbado, o resultado pode ser a depressão.

A sensação de impotência perante o mundo, quando representa a consciência clara daquilo que o eu é capaz e daquilo que ele não é capaz de fazer para mudar o mundo à sua volta de acordo com suas demandas, significa a sóbria resignação que é imune a qualquer estado depressivo. Mas, quando ela bate de frente com o egocentrismo, o resultado é diferente. O eu se vê na presença de uma demanda que ele considera vital para si e para o mundo, e na satisfação da qual ele acredita estar em situação de completa impotência. A impotência do eu perante o mundo é significada, no contexto do egocentrismo, como a negação do mundo em satisfazer suas demandas vitais. Em vista destas circunstâncias, o eu rebaixa sua auto-estima.

O rebaixamento da auto-estima do eu apresenta duas dimensões:

Na medida em que eu e mundo constituem a unidade do próprio eu, as atitudes do eu perante si mesmo se refletem nas atitudes do eu perante o mundo (e vice-versa), e o rebaixamento da auto-estima do eu significa a desvalorização do mundo perante o eu e perante si mesmo. O eu acusa o mundo de negligenciar suas demandas vitais, e esta acusação desvaloriza não apenas o mundo perante o eu, mas o mundo perante o próprio mundo, uma vez que o eu é o espelho do mundo. O rebaixamento da auto-estima do eu é a sua vingança do mundo, vingança esta que pode atingir o extremo do auto-extermínio. A ameaça de suicídio coloca, no imaginário do eu, o mundo todo sob alerta, uma vez que o auto-extermínio do eu representa o extermínio de seu outro em sentido mais profundo.

Na medida em que o eu se coloca na posição de um objeto frágil e dependente das boas ações do mundo, mas que, em vista de seu egocentrismo, apesar de frágil e dependente ainda se posiciona em seu centro, o rebaixamento da auto-estima significa um estado de auto-compadecimento que almeja angariar a piedade do mundo. Assim como Pilatos mandou açoitar Jesus para apresentá-lo de forma deplorável ao povo, almejando assim angariar sua piedade para com ele, o eu se rebaixa perante o mundo e, mostrando-se a ele de forma deplorável exclama: “Eis me aqui, de forma deplorável, na sua frente. Não achas que já sofri demais? Não vais fazer nada para aliviar minha dor?”.

O paciente deprimido se mostra desesperançoso e impotente perante o mundo. Mas, no inconsciente, a desesperança explicitamente manifesta representa a forma mais dramática de racionalização da frustração na qual a esperança de receber do mundo o poder de satisfazer suas demandas vitais permanece viva, ainda que ela não encontre outra possibilidade de êxito que não seja o auto-extermínio, uma vez que o auto-extermínio do eu é significado como o alívio de uma frustração concebida como intolerável. A desesperança da depressão é plena de esperança, e sua sensação de impotência é plena da crença na possibilidade de o mundo satisfazer as demandas vitais do eu. Na ausência real de esperança e na sóbria crença da impotência perante o mundo, o que temos é a grata sensação de paz da resignação.

O contexto existencial do egocentrismo é universal, mas há alguns fatores culturais que fazem com que a depressão seja um de seus desdobramentos mais presentes em nossa sociedade atual. Tratarei brevemente de dois:

A já citada psiquiatrização da depressão acrescenta um elemento à sua dimensão dramática. O rótulo de ‘doente’ fornece ao paciente mais um caractere na construção da imagem deplorável de si mesmo apresentada por ele perante o mundo. Além do mais, a absolvição do eu implícita no conceito de ‘doença’ alimenta a fantasia de dependência do eu frente ao mundo e a da responsabilidade deste pelo seu estado doentio. E se a responsabilidade do mundo aumenta, sua obrigação perante o eu aumenta em proporção direta. Quando o paciente chega ao psicólogo após ser medicado e encaminhado pelo psiquiatra, sua postura é abertamente a de “Faça alguma coisa por mim. Sou vítima de minha própria impotência.”, ainda mais se ele estiver pela primeira vez num consultório de psicologia. E mesmo que este tipo de postura esteja, em maior ou menor grau, presente em todo paciente de psicoterapia, ela é ainda mais flagrante quando ele já chega diagnosticado com a doença da depressão.

Há também uma variação da fantasia inconsciente de Deus (ver post abaixo), que é a fantasia do ‘Papai-do-céu amoroso’. O cristianismo representou uma modificação na imagem de Deus. Enquanto no judaísmo e no islamismo ‘Deus’ é representado de forma austera, e mesmo vingativa ou violenta, o cristianismo promoveu ‘Deus’ como a imagem do pai sempre amoroso e preocupado com seus filhos. A imagem de Deus nas demais religiões monoteístas facilita, em certo sentido, o amadurecimento do egocentrismo e a promoção da resignação frente aos desígnios de uma autoridade suprema que não deve satisfações a ninguém e faz o que julga necessário, doa a quem doer. Por sua vez, a imagem do ‘papai-do-céu amoroso’ facilita a transferência, à imagem de Deus, da mesma ordem de amor egoísta estabelecida na relação inicial com os pais. E porquanto a aculturação é um fenômeno que atinge a todos que crescem no mesmo meio social, a postura perante o mundo característica da fantasia do papai-do-céu amoroso é encontrada, em nossa sociedade, mesmo naqueles que expressam convicção ateísta.

Este breve esboço apresenta indícios de que a depressão, muito antes de uma doença a ser tratada com medicamentos, é um fenômeno subjetivo nas dimensões social e individual. Os excessos da terapia medicamentosa, negligenciando tais fatores, podem estar contribuindo para sua cronificação.


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4 comentários:

  1. Ola Daniel, gostei muito do texto, o tema é muito importante,pois a cada dia cresce nos consultorios a demanda de pessoas em estados depresivos. É preciso, que nós psicologos, estejamos atentos, bem informados e prepardos. Precisamos resgatar a clínica das depressões do campo exclusivo da psiquiatria. É um desafio, mas do qual nos não podemos recuar.Parabéns

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  2. Concordo com você, do mesmo jeito que algumas pessoas querem ser emagrecidas outras querem ser desdeprimidas. Ver a depressão de um ponto de vista puramente biológico pode ser mais confortável, mas é uma armadilha que cria uma horda de tristes que aspiram a depressão por esta ser tratável. Nao defendo apenas uma abordagem psicológica e sim integrativa, o biológico existe mas nem sempre precisa ser visto com olhares médicos. Os benefícios da atividade física é comprovadamente eficaz na promoção da saúde. Mas responsabilizar-se é fundamental, ou como diria um velho conhecido nosso: Se
    assenhorar de sua existência.

    Abraços

    Renato

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  3. Então pelo que entendi, o depressivo é um grande egocêntrico. Mas isso se dá de forma "racional" ou não? Desculpe minha ignorância mas não sou da área. Com relação à medicação posso afirmar que elas nos tornam serem sem " ser", sem sentido, sem riso nem choro...neutros! mas infelizmente é um mal que é bem melhor que passar dias e noites como um zumbi!

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  4. Não acho q esse processo seja consciente
    e acho q é um processo presente em todos nós.

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