terça-feira, 12 de julho de 2011

Fantasias Inconscientes: O Fusível Invisível

A expressão ‘fantasia inconsciente’ é pouco compreendida tanto entre leigos quanto entre profissionais de psicologia. Ao invés de lhe procurarmos definições abstratas, talvez a melhor forma de a tornarmos inteligível seja fornecendo-lhe exemplos. Eu identifico três tipos de fantasia inconsciente.

O tipo 1 inclui aquelas que são admitidas como fantasias por nós, mas que, no entanto, determinam nossos planos, escolhas e uma série de fantasias secundárias como se representassem fatos reais. Exemplo: A fantasia de imortalidade. Caso perguntemos a um amigo se ele está ciente de que a vida pode acabar a qualquer momento, receberemos um retumbante ‘sim’ como resposta. Entretanto, esta mesma pessoa faz planos, toma decisões e alimenta uma série de outras fantasias como se fosse viver para sempre. E ainda é capaz de reconhecer que faz tudo isso sim, e que no fundo destas ações reside a fantasia de ser imortal, embora num plano racional entenda que está sujeita a morrer sem aviso prévio. Apesar de termos consciência destas fantasias como ‘fantasias’, sua inconsciência está relacionada ao fato de que, mesmo assim, cremos em seu conteúdo ao ponto de vivermos como se elas representassem um fato.

O tipo 2 inclui as fantasias que determinam nossos planos, escolhas e outras fantasias secundárias mas que, ao contrário do tipo 1, não são admitidas por nós como fantasias. Fantasias de perseguição são um belo exemplo deste tipo. O paranóico acredita que está sendo perseguido. Estas fantasias são vividas e experimentadas como se fossem reais. Somos conscientes de seu conteúdo (O paranóico é consciente de que se sente perseguido), mas somos inconscientes de que este conteúdo constitui uma fantasia sem respaldo na realidade. Diversas nuances dos relacionamentos de pessoas sem distúrbios psicológicos se enquadram neste tipo de fantasia inconsciente.

O tipo 3 inclui as fantasias que tradicionalmente são denominadas ‘inconscientes’ pela psicanálise. Por exemplo, no desejo feminino de gerar um filho, a psicanálise identifica o desejo de suprir a falta que a mulher nutre por ter vindo ao mundo sem um pênis; falta esta que se tornou manifesta e consciente quando a menina primeiramente descobriu a diferença entre os sexos, e que posteriormente foi distorcida e recalcada pelo conflito com outras demandas mais imperativas. As fantasias do tipo 3 também determinam nossos planos, escolhas e uma série de fantasias secundárias. Mas, além de não serem reconhecidas e admitidas como fantasias por nós, seu conteúdo também nos é desconhecido. A mulher que deseja ter um filho nem faz idéia de que sente necessidade de suprir a falta de ter nascido sem um pênis. As fantasias do tipo 3 são muitas vezes apontadas como subjacentes às fantasias dos tipos 1 e 2, ou seja, são identificadas como o conteúdo verdadeiramente inconsciente destas fantasias. Na resposta à questão do porquê de vivermos acreditando em nossa imortalidade paralelamente à consciência de que somos mortais, a análise psicanalítica apontará a presença de uma fantasia do tipo 3.

Não é possível elaborar uma lista de fantasias para cada um dos três tipos que seja válida para todas as pessoas. Fantasias que, no caso de uma pessoa em particular, podem ser classificadas no tipo 1, noutra poderiam ser classificadas no tipo 2 ou no tipo 3, e vice-versa.

Todo este longo preâmbulo é uma introdução necessária ao tema que desejo tratar. Tratarei neste e nos posts seguintes de algumas fantasias inconscientes. Neste, abordarei a fantasia que intitulo de ‘o fusível invisível’.

Nós geralmente acreditamos que viemos ao mundo munidos de uma espécie de fusível; um fusível que, caso a situação “esquente” ou “fique preta” demais, queimará. É comum ouvirmos de pacientes em psicoterapia frases do tipo: “Se isso ou aquilo outro acontecer, eu não vou agüentar.” Ou seja, o paciente confessa a crença de que sucumbirá à dor caso seu sofrimento ultrapasse certo limite. Primeiramente, devemos observar que este limite é arbitrariamente estabelecido pelo próprio paciente. Posteriormente, devemos inquirir sobre o significado deste “não agüentar”.  Será que o paciente acredita que morrerá caso sua dor ultrapasse o limite que ele mesmo estabeleceu? Ou será que seu sofrimento o levará à loucura? ao suicídio? à criminalidade?

A intolerância ao sofrimento pode levar a estes desfechos. Entretanto, nos casos em que o sujeito estipula arbitrariamente para si mesmo um limite tolerável de dor, o tal “fusível” realmente nunca queima quando este limite é excedido pelas situações que ele previra.

A loucura não torna o paciente imune ao sofrimento que excedeu o  limite pré-estabelecido. Pelo contrário, ela representa uma fuga que o coloca numa via de maior sofrimento ainda. Além do mais, um surto psicótico não ocorre devido ao sofrimento que ultrapassou a cota que o próprio paciente estabeleceu para si. Se o paciente consegue conceber este limite e também concebe clara e distintamente exemplos de casos que o ultrapassem, ele os suportará, caso algum deles se realize, sem enlouquecer, mesmo alimentando o medo de surtar em tais situações. A loucura representa uma fuga que o paciente não planejou e para a qual nunca concebeu qualquer ponto de partida. A capacidade de conceber situações-limites para si mesmo já denota a capacidade de suportá-las.

O mesmo vale para o caso de infartos, AVCs ou colapsos semelhantes. Ocorrências do tipo acometem pessoas que passam por situações inesperadas e que não foram claramente concebidas e previstas por elas. Um pai tradicionalista que nunca teve a coragem de considerar claramente a hipótese de a filha engravidar antes do casamento, e que não cogitara que sua filhinha já mantinha vida sexual ativa, pode enfartar ao tomar ciência de que será vovô e pai de mãe solteira em poucos meses. Já o pai ciumento que teme por isso, rumina o conteúdo de seus medos constantemente e vive angustiado com a presença inexorável do fantasma aterrorizante de possibilidades tão “monstruosas”, será mais capaz de reagir a uma notícia dessas com um acesso de ira que preservará intacto seu amoroso coração paterno.

E o que dizer daqueles que optam pelo suicídio ou por atos criminosos? Tais atitudes não impedem a ocorrência de situações que excedam o limite de sofrimento que a pessoa estabeleceu para si mesma, e nem evitam que este excesso seja experimentado e vivenciado até a última gota. O fato já é evidente por si mesmo. Não são necessárias demais considerações.

A verdade indelével ligada à fantasia do fusível invisível é a seguinte: Quaisquer que sejam os limites de sofrimento pré-estabelecidos pelo paciente, eles poderão ser excedidos por situações que o obriguem a suportar uma cota de sofrimento que os ultrapasse. O paciente se verá, então, obrigado a dilatar seu limite arbitrário por uma, duas, três, inúmeras vezes consecutivas. Não importa quantas vezes ele o dilate: Sempre haverá a possibilidade de que a vida o obrigue a suportar uma cota de sofrimento que o ultrapasse, forçando-o a dilatá-lo uma vez mais. E em todas as vezes que for obrigado a sofrer mais do que aquilo que acreditara ser capaz de suportar, o paciente continuará respirando, seu coração batendo, o sol nascendo a cada dia, o Cruzeiro  ganhando e o Atlético apanhando. Nada mudará ao seu redor. Ele permanecerá tão vivo quanto antes.

Tomar consciência da fantasia do fusível invisível e depois abandoná-la produz no paciente um efeito paradoxal. Abandonar esta fantasia significa, por um lado, libertar-se de uma pesada carga de medo. Ao reconhecer que o fusível invisível não existe, e que não há de fato um excesso de sofrimento que poderia nos fazer sucumbir ou colapsar, podemos encarar a possibilidade de nossos maiores pesadelos se realizarem sem o temor histérico que os acompanhava anteriormente. Por outro lado, a fantasia do fusível invisível nos fornece algo semelhante a um consolo ou uma garantia. É quase reconfortante podermos acreditar que as coisas não podem ficar ruins demais, ou que há um limite suportável de sofrimento depois do qual a luz se apaga e tudo termina. Sem a fantasia do fusível invisível, somos obrigados a encarar o fato de que o poço pode não ter fundo e de que nossa capacidade para agüentar o tranco é ilimitada. Mas… este é um dos preços a se pagar por uma existência mais autêntica.


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