terça-feira, 12 de julho de 2011

Fantasias Inconscientes: A Obrigatoriedade do Outro perante o Eu

A consciência de nossa individualização representa a consciência da independência afetiva que construímos na relação com outras pessoas. Mas, também representa o quanto somos capazes de tolerar as frustrações de nossas expectativas frente ao mundo e a vida, e a autonomia de que dispomos para buscar sua realização dentro dos limites impostos pelas circunstâncias. Assim, uma pessoa bem individualizada apresentará elevado grau de independência afetiva na relação com os outros; independência esta que também está relacionada ao quanto somos autônomos ao lidar com os afazeres e obrigações da vida cotidiana. Ainda será capaz de enfrentar as frustrações de suas expectativas sem desviar-se para a ansiedade, o desespero ou a depressão, apresentando resignação e paciência para deixar-se estar em condições adversas enquanto não puder fazer nada para modificá-las, e demonstrando claro discernimento sobre o que são realmente as condições adversas impostas a ela pelas circunstâncias e o que não são nada além de obstáculos criados pela projeção, no mundo, de dificuldades criadas pelo medo e que são, portanto, produto de conflito interno.

Quando somos bebês, a dependência daqueles que cuidam de nós é real. Com o tempo, aprendemos a amar aqueles nos quais identificamos a fonte de nossa vida e subsistência. Se identificamos nestas pessoas a fonte de nosso próprio ser, então reconhecemos nelas nosso próprio eu; mais precisamente, reconhecemos nelas a dimensão de nosso eu que, representando a fonte de subsistência do eu tomado em sua totalidade, está encarregada da obrigação de zelar por esta subsistência. Por sua vez, colocamos a nós mesmos na posição do eu na dimensão de um objeto perecível e dependente, encarregado apenas de exigir do eu em sua dimensão superior o cumprimento das obrigações para com ele. Esta obrigação está fundamentada no seguinte princípio: Apesar de o eu estar dividido em duas dimensões, ele é uma unidade. Assim, se sua dimensão perecível vier de fato a fenecer, o eu em sua totalidade, incluindo a dimensão que representa a fonte de sua vida, fenecerá juntamente. Portanto, no imaginário da criança, as exigências com que ela sobrecarrega seus pais são mais do que justas. De seu cumprimento depende não apenas a sobrevivência da criança, mas também a sobrevivência tanto de seus pais quanto do mundo ao seu redor.

Sim, pois se os pais da criança representam para ela o seu mundo, quando ela for capaz de diferenciar entre o mundo e as pessoas que nele habitam o primeiro também será situado como mais uma ordem daquela dimensão encarregada da subsistência do eu em sua totalidade. Ela aprenderá a amar o mundo e a vida nos mesmos moldes do amor que nutre pelos que lhe são mais próximos. Reconhecendo em seus pais aquela dimensão de si mesma encarregada de lhe suprir todas as necessidades, ela os ama como de si para si mesma; trata-se de um amor egoísta que exige tudo para si e não se encarrega da obrigação de dar nada em troca. O amor altruísta e o desenvolvimento do sentimento de obrigação para com os outros e o mundo é produto gradual do processo de individuação.

Até que ponto pessoas adultas delegam aos outros e ao mundo obrigações para com elas mesmas? Deixando de lado as cobranças e exigências que normalmente dão o tom em diversas relações humanas, há outro fator relevante nesta avaliação. Alguns pacientes em psicoterapia aprendem rapidamente a deixar de lado cobranças e exigências nas relações com os seus. Isso pode ser efeito do aprendizado de que este tipo de conduta tem mais conseqüências negativas do que positivas, e também pode ser apenas efeito do desejo de agradar o psicólogo. Eles compreendem, num nível racional, que as pessoas com as quais se relacionam não lhes são obrigadas a satisfazer suas exigências. Mas, eles não percebem que o mundo e a vida também funcionam como um outro com qual mantemos relação. E, nesta relação, eles continuam estipulando para si mesmos, de forma arbitrária, cotas de sofrimento que acreditam serem capazes de suportar e cujo excesso os levaria a perecer. Assim, quando acontece de, por exemplo, um destes pacientes ser abandonado pelo parceiro, num nível racional ele reconhece o direito que a pessoa amada tem de dar outro rumo à sua vida, e entende que a responsabilidade pelo sofrimento do abandono é dele. Mas, este discurso politicamente correto não o impede de afirmar que não está agüentando ou que não vai agüentar a dor caso ela continue por mais tempo.

Na crença de que há um limite suportável de dor além do qual o paciente sucumbiria está implícita a crença de que, depois deste limite, o eu está na dependência do outro para continuar a existir. E na crença de que a existência do eu depende do outro está implícita a crença de que o outro deve obrigatoriamente ao eu a satisfação das exigências que lhe são dirigidas por ele. Se no imaginário do paciente o abandono por parte do outro representa uma situação-limite que pode levá-lo ao perecimento, neste imaginário será possível encontrar a crença, consciente ou não, de que alguma coisa ou alguém tem a obrigação de fazer algo que evite o perecimento do eu. Se em seu discurso politicamente correto o paciente isenta o parceiro que o abandonou de qualquer responsabilidade sobre seu estado, é justamente este seu estado abatido e o auto-compadecimento que denunciam o fato de que esta responsabilidade está caindo ou sobre alguma outra coisa ou alguém, ou sobre o mesmo parceiro que foi previamente isentado dela.

A fantasia da obrigatoriedade do outro perante o eu está presente em todos os pacientes que estabelecem para si mesmos limites arbitrários do quanto imaginam serem capazes de sofrer. E quando, em seu discurso, isentam tudo e todos da responsabilidade sobre o que sentem, e ainda afirmam categoricamente estarem preparados para suportar o que a vida lhes trouxer, são suas emoções que denunciam a presença inconsciente desta fantasia. Depressão, raiva, ressentimento, rancor, etc., sempre colocam o outro na posição de responsável por algum dano ou alguma omissão perante o eu. A conseqüência do processo de individuação é a diminuição progressiva da presença destas emoções na vida do paciente.


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